Com data de 10 de Março (2000):
" O mundo é simples. O meu olhar é menos. "
Na barca do coração
Campo das Letras, Porto, 2001
Pegai na frase e levai-a convosco, a passear.
Com data de 10 de Março (2000):
" O mundo é simples. O meu olhar é menos. "
Ana Drago escreveu hoje no PÚBLICO sobre a condição de ser mulher, afirmando a dado passo:
" Hoje sinto que sou todo esse lugar da experiência quotidiana de uma menoridade, um 'algo de menos' que é a definição implícita de condição feminina por esse mundo fora, sistematicamente transcrita em violência sobre os seus corpos e as suas sexualidades. "
Com data de 4 de Março de 2000:
" Leio filósofos, é essencial lê-los para criar alguma distância, alguma ironia mais envolvente, mas, a breve trecho, desço ao chão. Para respirar o que há. Não são as nebulosas nem as matérias negras, sequer o mar imenso da humanidade que escapa à filosofia. É a areia debaixo do meu pé, a lágrima cada vez mais seca do menino que pede dinheiro para o pai, a rã que no charco subitamente salta, esta dor oblíqua de que não sei o nome. É o mínimo, é o inesperado, o próximo, o acaso. Várias são as verdades e muitas mais as suas vertentes. E eu não sei onde está a sabedoria. "
A chegada do mês de Março sugere-me a proximidade da Primavera.
Notando que irá sair pela linha de fundo deste meu blog o último poema de expressão luso-árabe que aqui deixei, procurei um trecho que recreasse este renascer primaveril, tão simbolizado no amor e no êxtase dos sentidos, como o deste poema de Ibn Habib, de Silves.
quando ofereces aos que estão presentes
o vinho ardente que nas faces sentes
(como o copeiro as taças ao redor)
não deixo de beber um tal rubor.
esse vinho é tornado generoso
por quem, ao olhar-te, lhe confere cor
enquanto o outro se torna gostoso
nos ágeis pés do vindimador.
Em qualquer estação do ano, da Primavera ao Inverno, nublada ou exposta a um sol quase tropical, esta minha terra, quando se avista da margem esquerda do Arade, surpreende sempre, pelo matizado das cores reflectidas no branco da cal, dos ocres ao vermelho achocolatado da pedra das suas muralhas ou da sua alcáçova, também ainda pela forma como se espraia colina acima.
Hoje, depois da chuva, e no momento preciso em que passeava, encaminhando-me para a velha ponte, vindo da margem esquerda do rio, as nuvens cederam perante a insistência do Sol à aproximação do meio-dia.
Uma luminosidade extremamente viva e a transparência de uma atmosfera como que acabada de ser lavada pela própria chuva, revelavam aquela imagem que há tanto procuro.
Não trazia a máquina fotográfica comigo, mas deparei-me com um turista, que provavelmente nunca antes estivera em Silves e que poucas horas iria aqui permanecer, a registar na sua câmara escura aquele momento sublime que eu não pude guardar.