sábado, março 20, 2004

Que viva a Primavera!

A Primavera chegará hoje, pelas 06h50.

Composto a partir de um papel de fundo para mensagens electrónicas (letter), de Incredimail.

quinta-feira, março 18, 2004

Isto é só um "supônhamos"

Vamos admitir que os vários canais de televisão abandonavam a frivolidade e alarvice da sua habitual programação, tão dirigida, como dizem, ao (des)gosto do "povo".

Será que o "povo" deixaria de ver televisão? De que se ocuparia, então, nos tempos livres?

quarta-feira, março 17, 2004

Seremos uma sociedade em risco?

Interrogo-me frequentemente sobre a forma pouco receptiva como a maioria da população reage à oferta cultural, desprezando oportunidades de se enriquecer ao nível do conhecimento e mesmo da fruição do prazer estético que determinadas actividades visam facultar.

Estou certo de que não é fácil, nem gratificante, confrontarmo-nos com a nossa ignorância perante este ou aquele facto, esta ou aquela situação, mas isso sucede-nos todos os dias nas mais diversas e costumeiras ocasiões de contacto social.

Também tenho detectado, contrariamente ao que era habitual há alguns anos atrás, que há quem patenteie, pública e ostensivamente a sua ignorância, como que pressupondo que a sua atitude é aceite socialmente.

Há nestas minhas observações, se as interpreto despreconceituosamente, a evidência de alguma perda de valores relacionados com o saber.

Se as premissas forem verdadeiras e este meu raciocínio estiver correcto, estamos a viver uma grave doença social.

Como remediar uma doença, quando se rejeita a vacina e a medicação?

terça-feira, março 16, 2004

A Al-Mu'tadid

É tempo de um novo poema de origem luso-árabe. Hoje é a vez do mais brilhante poeta silvense, Ibn 'Ammar e, a meu ver, do seu mais belo poema:


  • mais uma rodada, copeiro,
    que já se ergue a aragem da manhã
    e a estrela de alva
    desviou a rota da noite viajeira.
    A alvorada trouxe-nos brancura de cânfora
    assim que a noite reclamou seu negro âmbar.
    o jardim parece uma donzela vestida com túnica
    bordada a flores e adornada com pedras de orvalho
    ou então, jovem ruborizado de pudor de rosas
    alentado com a sombra do mirto.
    e esse jardim,
    onde o rio lembra branca mão
    pousada sobre um tecido verde,
    mostra-se agitado pela brisa:
    dir-se-ia, meu Rei,
    a tua espada desbaratando exércitos.
    meu senhor!
    verde brilhante são os favores da tua mão
    quando os céus se turvam de cinzento.
    teu dom é sempre generoso:
    se virgens dás têm seios opulentos
    se cavalos são de nobre raça
    se alfanges têm pedras preciosas.
    meu Rei!
    quando os demais reis se dessedentam
    esperam que ergas primeiro a tua taça.
    és mais refrescante para os corações
    que o orvalho formado gota a gota
    e mais agradável para os olhos
    que o doce peso do sono.
    faz faiscar a chispa da tua glória
    que não deixa nunca o fragor da lide
    senão para se abeirar do lume
    que mandaste acender para os teus hóspedes.
    Rei,
    esplêndido no talhe e no espírito,
    como o jardim, belo de perto ou à distância.
    quando a teu lado me é dado
    o rio celestial que mana do teu ser
    é bem certo que estou no Paraíso.
    fizeste pender da tua lança
    as cabeças dos reis teus inimigos
    só porque o ramo agrada
    na impaciência da flor?
    tingiste a tua cota com sangue de heróis
    só porque a formosa se enfeita de vermelho?
    a espada, se a tua mão a empunha,
    dá lugar a súplicas mais eloquentes
    que as do melhor dos tribunos, quando fala.
    este poema é para ti.
    como um jardim que a brisa visitou
    e no qual repousou o orvalho da noite
    até que o ataviou de flores.
    do teu nome fiz uma veste de ouro.
    em teu louvor derramei o melhor almíscar.
    quem me suplantará? se o teu amparo é sândalo
    eu o queimei no fogo do meu génio,
    estavam as brasas ainda a arder.


ALVES, Adalberto
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

segunda-feira, março 15, 2004

Meditação sofrida

"Na barca do coração", de Casimiro de Brito, com data de 14 de Março de 2000:


  • " Meditação sofrida sobre o tanto que se rouba - a própria Natureza é implacável - aos que não têm quase nada. As inundações de Moçambique são o último exemplo: a guerra tirou-lhes tudo, a fome levou o resto e do nada que ficou vieram as águas e levaram mais um bocado - as magras alfaias, o chão da casa e um sem-número de vidas. O que resta? Cenas agónicas: um bébé que nasce no cimo de uma árvore; as minas arrancadas pelas cheias, indo trucidar não se sabe quem nem onde nem quando; a disputa com as cobras por um galho mais alto onde possa chegar a corda de um helicóptero tantas vezes imaginário; a cólera depois do salvamento, de quê? Um povo que vai caindo um pouco mais, quando parecia improvável que houvesse ainda outro buraco."


    " Não devias fumar tanto, vais acabar com um cancro no pulmão - disse um amigo a Michel del Castillo. Que lhe respondeu: O que me custa viver não é o futuro mas o presente, este instante, este momento que o cigarro me ajuda a esfumar. "

    Camilo Pessanha
    (Coimbra, 1867-1926)
    "Imagens que passais pela retina"

    Imagens que passais pela retina
    Dos meus olhos, porque não vos fixais?
    Que passais como a água cristalina
    Por uma fonte para nunca mais!...

    Ou para o lago escuro onde termina
    Vosso curso, silente de juncais,
    E o vago medo angustioso domina,
    - porque ides sem mim, não me levais?

    Sem vós o que são os meus olhos abertos?
    - O espelho inútil, meus olhos pagãos!
    Aridez de sucessivos desertos...

    Fica sequer, sombra das minhas mãos,
    Flexão casual de meus dedos incertos,
    - Estranha sombra em movimentos vãos.

sexta-feira, março 12, 2004

quinta-feira, março 11, 2004

A Silves. Ao Sul

Um amigo enviou-me o poema que se segue, tão simplesmente porque contém uma breve referência a Silves e achou que eu iria gostar:


  • Benvindo aos mares do sul.
    Sejam claros os dias
    pelos caminhos que trazes.

    Onde um pássaro se despede.

    O sol cai sobre o corpo
    frente aos desejos da manhã.

    A fronte
    barco saindo a baía
    num adeus a estas praias do
    sul.

    O temor é o mês diurno, o
    meio-dia num pátio de Silves.

    Dormimos sobre a infância
    sobre os lugares da juventude
    a paisagem
    as palavras que dissemos

    não podiam ser noutro país
    nem noutro corpo
    nem noutro século.

    E apesar da rota que traça
    o marinheiro

    benvindo aos mares do sul.

João Miguel Fernandes Jorge
À beira do mar de Junho

Gostei, Manuel!
Um abraço.