terça-feira, abril 13, 2004

O 25 de Abril não precisa de falácias

Há uma publicidade na Rádio Comercial, que provavelmente será um dos aspectos de uma campanha publicitária mais vasta e mais geral, mas que detesto. Compara índices de 1974 com os de hoje, para estabelecer percentagens de crescimento que projectam Portugal como o país que mais cresce na Europa.
É falacioso!

E se a comparação se fizesse com os inícios os anos 70? Seria diferente? E se se estabelecesse a partir do começo dos anos 80 ou, talvez melhor, a partir dos finais de tal década, quando já "navegávamos" com os dinheiros da Europa? Seria tão elevada?
Aquelas percentagens não convencem ninguém - pois não é isso o que sentimos na pele - e todos sabemos que antes, depois do 25 de Abril, e ainda hoje, continuamos na cauda da Europa e esse afastamento tende a agravar-se.

É que o 25 de Abril não precisa de falácias.

segunda-feira, abril 12, 2004

Ouguela, teima em sobreviver

Ouguela, Verão de 2002, © António Baeta Oliveira
Ouguela, onde a "terra" (e a estrada) acaba(m) e... a Espanha começa.
Respondo a um simpático e comovente apelo de divulgação de Ouguela Com Vida, o blog de um professor do 1º ciclo que, com os seus 5 (cinco) alunos, anima os cerca de 100 (cem) habitantes que vivem nesta pequena localidade.
A partir do blog poderão aceder ao site da escola, que reflecte a vida da comunidade, os seus costumes e tradições.

Recordo o Verão de 2002 e o meu passeio, Guadiana acima, visitando as suas duas margens. Em Ouguela restava a sua fortaleza do séc. XVII, ao tempo da Guerra Peninsular, e as moradias dos poucos que ficaram. Lembro-me de a ter avistado a partir da fortaleza oponente, Albuquerque, do outro lado da raia, no dia seguinte.
Nessa minha tarde em Ouguela dei boleia, até Campo Maior, a um acolhedor residente que me revelou conhecer a localização de cada um dos marcos da divisória fronteiriça e já ter apoiado historiadores, geógrafos e outros curiosos que por aqui passam procurando reconstituir o traçado raiano.

Recordo ainda o momento em que tirei a fotografia acima, a partir do topo da fortaleza, numa ameia que se abria como uma janela a perder de vista nesse horizonte atapetado de oliveiras. Momentos antes ou depois de ter batido a fotografia - o tempo já não me permite tal precisão - lembro-me de ter telefonado a minha mulher, numa praia algarvia com as nossa filhas, e me ter deparado com um telefonema que me foi servido por uma operadora espanhola.
Por ali, andamos longe do poder, centralizado, do país mais macrocéfalo da Europa. Talvez por isso a minha particular atenção a esta Ouguela Com Vida, que teima em sobreviver, trinta anos depois da grande esperança do 25 de Abril.

quinta-feira, abril 08, 2004

Um roteiro natural do concelho de Silves

De certo modo como que divulgando a existência recente da publicação em título, editada pela Câmara Municipal de Silves, quero deixar-vos um pequeno excerto de um dos percursos propostos por António Pena, o autor deste trabalho:

  • A Serra
    Silves - Falacho de Cima (Centro Cinegético) - Herdade de Vale de Parra - Talurdo - Sapeira - Benafátima - Vale de Touriz - S. Marcos da Serra - Boião - Azilheira

    Deixamos Silves e rumamos a Norte. Assim que saímos da cidade com os seus mimosos pomares de laranjeiras e a sua base rochosa de uma tonalidade avermelhada (o grés), entramos numa paisagem xistosa, monocromática, uniforme, composta por cerros arredondados revestidos pelo esteval. Passámos do Barrocal à Serra que fica às portas da cidade. A transição é rápida, abrupta, quase "chocante". Logo no início aparece-nos a ribeira do Enxerim. Foi aqui que observámos a monarca (Danaus plexippus), esse belo lepidóptero diurno de grandes dimensões, de origem americana e que provavelmente já se fixou no Algarve. Junto às margens da ribeira, ocorrem o oloendro (Nerium oleander), a tamargueira (Tamarix africana), o murrião-perene (Anagallis monelli), a bela-luz (Thymus mastichina) e o rosmaninho verde (Lavandula viridis). Na zona observam-se ainda animais como a cotovia-do-monte (Galerida theklae), o cartaxo-comum (Saxicola torquata), o trigueirão (Miliaria calandra), o picanço-barreteiro (Lanius senator), o sardão (Lacerta lepida) e a cia (Emberiza cia). Se olharmos com atenção para as pedras que emergem do leito da ribeira, descobriremos dejectos da lontra (Lutra lutra), indicadores seguros da sua presença. No inverno, o esteval acolhe ainda tordos (Turdus philomelos/iliacus), o pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) e a ferreirinha (Prunella modularis). Antes de prosseguirmos poderemos subir a um cerro próximo e desfrutar um pouco do panorama. Para Norte-Noroeste surge a imponente serra de Monchique a fechar o horizonte. Em direcção a nascente sucedem-se os cerros de xisto, que lembram gigantescos montículos de toupeira, carecas ou cobertos de esteva (Cistus ladanifer). Para Sul, Silves e o Barrocal com os seus geométricos pomares de citrinos. Para Sudoeste, ao longe, Portimão.
    (...)


Fica aqui esta sugestão para o fim-de-semana da Páscoa.

quarta-feira, abril 07, 2004

A minha primeira desilusão do 25 de Abril

http://www.instituto-camoes.pt/bases/25abril/progrjunta.htm
Esta imagem, que vi no televisor de um café da minha rua na noite de 25 de Abril de 1974, foi a minha primeira desilusão do 25 de Abril.

Passados trinta anos, o poder, agora desfardado, mais ou menos colorido, continua a passar-me a mesma imagem parda, tristonha, distante, de gente que nada tem a ver com a minha (interpretação da) realidade, mas que se alimenta dela.

terça-feira, abril 06, 2004

A rapariga com brinco de pérola

http://www.girlwithapearlearringmovie.com
A surpresa da luz natural.
Avistei-a domingo à noite na sala 7 do Algarve Shopping. Serena e lânguida. Longa como o tempo que passa devagar e nos apetece reter. Ficou comigo até agora.
Por quanto tempo mais conseguirei mantê-la afastada daquela zona cobiçosa da minha mente, continuamente ávida de novas impressões?!

segunda-feira, abril 05, 2004

Começando pelo princípio

Numa visita a Silves, o autor de Um pouco mais de Sul trouxe consigo, para me emprestar, O Estado dos Campos, de Nuno Júdice, edição da Dom Quixote, 2003. Ontem, Domingo, iniciei, deliciado, a sua leitura. Creio que não há melhor maneira de vos revelar este belo livro do que dá-lo a conhecer a partir de um dos seus poemas. Qual? perguntava-me.

Decidi começar pelo princípio:

  • GÉNESIS

    No princípio era o verbo, e eu traduzia-o
    em palavras com um sentido fundo como o poço
    de onde as mulheres puxavam os baldes de água,
    à tarde, para refrescar o chão de agosto. Nas
    cordas de roupa do quintal, eu estendia as palavras
    para as secar: e via o sol atravessá-las até ao osso,
    dissecando o seu corpo mais vago - as vogais fechadas
    do fim, ou a enunciação de um infinito
    até ao limite do verbo.

    No princípio também eram as coisas: umas
    sobre as outras, no alinhamento curvo do destino,
    como se não estivessem para cair nessa trepidação
    de rimas que um fim de verso pode trazer. Então,
    levantava-as do chão onde se tinham partido em pedaços,
    as coisas brancas da lua e as coisas vermelhas do sol, e
    colava-as na parede, vendo o muro subir
    até ao tecto celeste.

    E no fim, volta a ser o verbo. Arranha-me a língua
    com as suas unhas de consoantes; e pego-lhe ao colo,
    para que não fira os pés nas pedras do campo, ouvindo
    a sua voz de carne e osso escrever-me, no fundo
    da cabeça, e a toda a largura da alma, a frase
    redonda do amor. Trabalho a sua sintaxe, até
    descobrir as articulações do segredo; e abraço
    o corpo que nasce na conjugação
    das suas pálpebras, abertas até ao fundo
    dos olhos, onde te vejo.

quinta-feira, abril 01, 2004

Duas homenagens

A abrir este mês de Abril quero, num só poema, homenagear Nuno Júdice, através da sua homenagem a Ibn 'Ammar. São dois poetas do meu Algarve, que o tempo separou por mais de 900 anos.

  • Ben Ammar, de Silves (m. 1086)

    Canta, como sombra, uma cidade
    que já não existe; e os seus versos dirigem-se
    à mulher mais bela do mundo, de
    quem não ficaram outras memórias
    nem retratos. Mas as suas palavras
    talvez cheguem
    para que adivinhemos o paraíso:
    palácios onde a água corria nos pátios,
    e o quarto onde a amada descobria o rosto,
    perante o espelho, resistindo à tarde
    que a empurrava para a varanda,
    e os risos cúmplices do namoro,
    fingindo ignorar esse poeta que a persegue,
    como gazela, tentando prendê-la
    à página. Ali, branco no branco
    e preto no preto, liberta da efemeridade
    da vida, a vou encontrar: sem nome
    nem idade, flor eterna
    no jardim sem inverno dos amantes.


Nuno Júdice
O Movimento do Mundo
Livros Quetzal, Lisboa, 1996