quinta-feira, abril 15, 2004

As praias desertas, a que volto sempre

De A Barca do Coração, de Casimiro de Brito, Campo das Letras, Porto, 2001.
Com data de 15 de Abril:

  • " (...) Algo de mim regressa sempre às praias desertas, ou quase, e neste quase reside o caos voluptuoso do lugar onde me cumpro: a pata das gaivotas desenhadas na areia, o nó das ondas por desatar, e, já desatados e humildes a meus pés, o filtro de um cigarro fumado onde quando por quem?, um botão entre as conchinhas, "olha, esta é violeta", um bicho-de-conta categórico na sua passagem do sol para a sombra, tufos de plantas de que não sei o nome, o pescador Filipe sabia, o pescador Filipe já morreu, era também um homem do campo, caroços de cereja, estame de jacto no azul do céu, uma lata de Coca-Cola, um cão que mastiga profano a brisa que vem do mar, outro botão, uma lâmpada, inseparáveis resíduos urbanos, o tacão de um sapato, um jornal amarelo onde se diz que "a democracia travou às quatro rodas", não leio mais nada, o que leio é no alto e no chão, o belo enigma em desassossego das praias desertas, a que volto sempre, à minha cabana de ar salgado, e tenho na minha mão a tua mão, as tuas mãos que me refrescam as costas com um pouco de creme, "vamos comer ostras?", e há ainda o que já não há, neste pedaço de praia. Ali houve uma armação de atum, partiam barcos que depois apodreceram, os cascos foram comprados pelos fundos comunitários, vês aquelas âncoras? Os pescadores vendem agora, de uma maneira ou de outra, sol, sol aos europeus do norte, quando a praia já não é um paraíso deserto, para mim ainda é, deito-me junto às âncoras e a restos de leme, memórias roídas por mil marés. Regressam já as gaivotas, picaram e ganharam, atestaram os estômagos, mas nunca as vi dormir. Um cão salta-lhes em cima, e falha, quantas vozes tem o meu deserto? Começo a lembrar histórias da infância, mas o melhor é olhar, cheirar. A espuma das ondas, o sexo do sal que me penetra a carne toda. Mijo para o ar. Vamos às conquilhas. Nem tudo está perdido. (...) "

quarta-feira, abril 14, 2004

Ibn At-Talla, de Silves

  • De Ibn At-Talla (1082-1156)

    nunca fites quem encanto tem,
    foge depressa de um tal olhar:
    quanta desgraça do Destino vem
    ao que o amor não sabe evitar!


ALVES, Adalberto
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

terça-feira, abril 13, 2004

O 25 de Abril não precisa de falácias

Há uma publicidade na Rádio Comercial, que provavelmente será um dos aspectos de uma campanha publicitária mais vasta e mais geral, mas que detesto. Compara índices de 1974 com os de hoje, para estabelecer percentagens de crescimento que projectam Portugal como o país que mais cresce na Europa.
É falacioso!

E se a comparação se fizesse com os inícios os anos 70? Seria diferente? E se se estabelecesse a partir do começo dos anos 80 ou, talvez melhor, a partir dos finais de tal década, quando já "navegávamos" com os dinheiros da Europa? Seria tão elevada?
Aquelas percentagens não convencem ninguém - pois não é isso o que sentimos na pele - e todos sabemos que antes, depois do 25 de Abril, e ainda hoje, continuamos na cauda da Europa e esse afastamento tende a agravar-se.

É que o 25 de Abril não precisa de falácias.

segunda-feira, abril 12, 2004

Ouguela, teima em sobreviver

Ouguela, Verão de 2002, © António Baeta Oliveira
Ouguela, onde a "terra" (e a estrada) acaba(m) e... a Espanha começa.
Respondo a um simpático e comovente apelo de divulgação de Ouguela Com Vida, o blog de um professor do 1º ciclo que, com os seus 5 (cinco) alunos, anima os cerca de 100 (cem) habitantes que vivem nesta pequena localidade.
A partir do blog poderão aceder ao site da escola, que reflecte a vida da comunidade, os seus costumes e tradições.

Recordo o Verão de 2002 e o meu passeio, Guadiana acima, visitando as suas duas margens. Em Ouguela restava a sua fortaleza do séc. XVII, ao tempo da Guerra Peninsular, e as moradias dos poucos que ficaram. Lembro-me de a ter avistado a partir da fortaleza oponente, Albuquerque, do outro lado da raia, no dia seguinte.
Nessa minha tarde em Ouguela dei boleia, até Campo Maior, a um acolhedor residente que me revelou conhecer a localização de cada um dos marcos da divisória fronteiriça e já ter apoiado historiadores, geógrafos e outros curiosos que por aqui passam procurando reconstituir o traçado raiano.

Recordo ainda o momento em que tirei a fotografia acima, a partir do topo da fortaleza, numa ameia que se abria como uma janela a perder de vista nesse horizonte atapetado de oliveiras. Momentos antes ou depois de ter batido a fotografia - o tempo já não me permite tal precisão - lembro-me de ter telefonado a minha mulher, numa praia algarvia com as nossa filhas, e me ter deparado com um telefonema que me foi servido por uma operadora espanhola.
Por ali, andamos longe do poder, centralizado, do país mais macrocéfalo da Europa. Talvez por isso a minha particular atenção a esta Ouguela Com Vida, que teima em sobreviver, trinta anos depois da grande esperança do 25 de Abril.

quinta-feira, abril 08, 2004

Um roteiro natural do concelho de Silves

De certo modo como que divulgando a existência recente da publicação em título, editada pela Câmara Municipal de Silves, quero deixar-vos um pequeno excerto de um dos percursos propostos por António Pena, o autor deste trabalho:

  • A Serra
    Silves - Falacho de Cima (Centro Cinegético) - Herdade de Vale de Parra - Talurdo - Sapeira - Benafátima - Vale de Touriz - S. Marcos da Serra - Boião - Azilheira

    Deixamos Silves e rumamos a Norte. Assim que saímos da cidade com os seus mimosos pomares de laranjeiras e a sua base rochosa de uma tonalidade avermelhada (o grés), entramos numa paisagem xistosa, monocromática, uniforme, composta por cerros arredondados revestidos pelo esteval. Passámos do Barrocal à Serra que fica às portas da cidade. A transição é rápida, abrupta, quase "chocante". Logo no início aparece-nos a ribeira do Enxerim. Foi aqui que observámos a monarca (Danaus plexippus), esse belo lepidóptero diurno de grandes dimensões, de origem americana e que provavelmente já se fixou no Algarve. Junto às margens da ribeira, ocorrem o oloendro (Nerium oleander), a tamargueira (Tamarix africana), o murrião-perene (Anagallis monelli), a bela-luz (Thymus mastichina) e o rosmaninho verde (Lavandula viridis). Na zona observam-se ainda animais como a cotovia-do-monte (Galerida theklae), o cartaxo-comum (Saxicola torquata), o trigueirão (Miliaria calandra), o picanço-barreteiro (Lanius senator), o sardão (Lacerta lepida) e a cia (Emberiza cia). Se olharmos com atenção para as pedras que emergem do leito da ribeira, descobriremos dejectos da lontra (Lutra lutra), indicadores seguros da sua presença. No inverno, o esteval acolhe ainda tordos (Turdus philomelos/iliacus), o pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula) e a ferreirinha (Prunella modularis). Antes de prosseguirmos poderemos subir a um cerro próximo e desfrutar um pouco do panorama. Para Norte-Noroeste surge a imponente serra de Monchique a fechar o horizonte. Em direcção a nascente sucedem-se os cerros de xisto, que lembram gigantescos montículos de toupeira, carecas ou cobertos de esteva (Cistus ladanifer). Para Sul, Silves e o Barrocal com os seus geométricos pomares de citrinos. Para Sudoeste, ao longe, Portimão.
    (...)


Fica aqui esta sugestão para o fim-de-semana da Páscoa.

quarta-feira, abril 07, 2004

A minha primeira desilusão do 25 de Abril

http://www.instituto-camoes.pt/bases/25abril/progrjunta.htm
Esta imagem, que vi no televisor de um café da minha rua na noite de 25 de Abril de 1974, foi a minha primeira desilusão do 25 de Abril.

Passados trinta anos, o poder, agora desfardado, mais ou menos colorido, continua a passar-me a mesma imagem parda, tristonha, distante, de gente que nada tem a ver com a minha (interpretação da) realidade, mas que se alimenta dela.

terça-feira, abril 06, 2004

A rapariga com brinco de pérola

http://www.girlwithapearlearringmovie.com
A surpresa da luz natural.
Avistei-a domingo à noite na sala 7 do Algarve Shopping. Serena e lânguida. Longa como o tempo que passa devagar e nos apetece reter. Ficou comigo até agora.
Por quanto tempo mais conseguirei mantê-la afastada daquela zona cobiçosa da minha mente, continuamente ávida de novas impressões?!