De A Barca do Coração, de Casimiro de Brito, Campo das Letras, Porto, 2001.
Com data de 15 de Abril:
" (...) Algo de mim regressa sempre às praias desertas, ou quase, e neste quase reside o caos voluptuoso do lugar onde me cumpro: a pata das gaivotas desenhadas na areia, o nó das ondas por desatar, e, já desatados e humildes a meus pés, o filtro de um cigarro fumado onde quando por quem?, um botão entre as conchinhas, "olha, esta é violeta", um bicho-de-conta categórico na sua passagem do sol para a sombra, tufos de plantas de que não sei o nome, o pescador Filipe sabia, o pescador Filipe já morreu, era também um homem do campo, caroços de cereja, estame de jacto no azul do céu, uma lata de Coca-Cola, um cão que mastiga profano a brisa que vem do mar, outro botão, uma lâmpada, inseparáveis resíduos urbanos, o tacão de um sapato, um jornal amarelo onde se diz que "a democracia travou às quatro rodas", não leio mais nada, o que leio é no alto e no chão, o belo enigma em desassossego das praias desertas, a que volto sempre, à minha cabana de ar salgado, e tenho na minha mão a tua mão, as tuas mãos que me refrescam as costas com um pouco de creme, "vamos comer ostras?", e há ainda o que já não há, neste pedaço de praia. Ali houve uma armação de atum, partiam barcos que depois apodreceram, os cascos foram comprados pelos fundos comunitários, vês aquelas âncoras? Os pescadores vendem agora, de uma maneira ou de outra, sol, sol aos europeus do norte, quando a praia já não é um paraíso deserto, para mim ainda é, deito-me junto às âncoras e a restos de leme, memórias roídas por mil marés. Regressam já as gaivotas, picaram e ganharam, atestaram os estômagos, mas nunca as vi dormir. Um cão salta-lhes em cima, e falha, quantas vozes tem o meu deserto? Começo a lembrar histórias da infância, mas o melhor é olhar, cheirar. A espuma das ondas, o sexo do sal que me penetra a carne toda. Mijo para o ar. Vamos às conquilhas. Nem tudo está perdido. (...) "
