segunda-feira, maio 10, 2004

Mil e uma noites

Assisti durante este fim-de-semana, em Silves, ao lançamento da 2ª edição de Al-Mu'tamid, poeta do destino, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, de Adalberto Alves, numa iniciativa do CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves).
Trata-se de uma edição revista e aumentada com novos poemas, novas versões de poemas e comentários.

A apresentação do autor e da obra esteve a cargo de Tiago Setil, licenciado em Estudos Árabes e Islâmicos, em Córdova, e que prosseguiu estudos superiores noutros países de língua árabe, nomeadamente na Tunísia. De regresso a Portugal, vê-se confrontado com a situação de não conseguir obter equivalência académica para os seus estudos, dada a ausência, em Portugal, de qualquer curso universitário completo na sua especialidade.
Insólita esta situação, num país com tão profusa e elevada herança cultural de proveniência árabe e islâmica.

Revelou-nos Adalberto Alves que Tiago, para sobreviver, trabalha num local onde nada pode oferecer da sua formação específica - uma sapataria.
Digam-me lá se não somos um país rico em capital humano, para se dar ao luxo de desperdiçar gente tão capacitada!?

O título do post tem a ver com um poema que Adalberto Alves nos deu o prazer de ouvir recitar, que consta das Mil e uma noites, precisamente das noites 180º e 866º, e nos fala de uma mulher do harém de Al-Mu'tamid que, por receio de quem espia, não se atreveu a visitá-lo naquela noite.

  • Inocultável

    por receio de quem espia
    com muita inveja a roer
    ela não veio nesse dia,
    pra assim traída não ser
    pla luz que do rosto esplende,
    plas jóias a tilintar,
    e plo perfume do âmbar
    a que o corpo lhe rescende.

    é que ao rosto, com o manto,
    tapá-lo 'inda poderia,
    e as jóias, entretanto,
    facilmente as tiraria,
    mas a fragrância do encanto
    pra ocultá-la que faria?


sexta-feira, maio 07, 2004

Um poema, em vez de um grito

Abu-l-Fadl Ibn al-A'lam, viveu em Santa Maria (Faro), no séc. XII, no tempo dos almorávidas.


  • para beijá-la avancei
    e o desejo não se vergou ao medo.
    ela disse: vais desonrar-te cedo!
    respondi: é pecado, sei!
    mas algo supera essa mágoa:
    é morrer de sede dentro d'água.

ALVES, Adalberto
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

quinta-feira, maio 06, 2004

Um grito, em vez de um poema

Hoje, em vez do poema luso-árabe que faço por manter na primeira página deste meu blog, quero trazer-vos um texto, como um grito, de Borges Coelho, o historiador de Portugal na Espanha Árabe, Editorial Caminho, Lisboa, 1989:


  • " Aceita-se, geralmente, a contribuição do Islão na propagação das técnicas de rega, da bússola, do papel e no aumento do pomar peninsular sem se ousarem conclusões necessárias. A fisionomia do Portugal agrário moldou-se em boa parte pelo arquétipo do Ândalus mourisco, mesmo quando não é ele o autor das técnicas, mas o seu último transmissor.
    Apaguem-se por um momento dos campos de Portugal as sombras do pessegueiro, do limoeiro, da laranjeira, da nespereira, da ameixoeira, da alfarrobeira; recue-se para Sul a oliveira, suprimindo a comercialização do azeite e da azeitona; rareiem-se as amendoeiras e as folhas largas das figueiras com o seu almeixar; suprimam-se as noras, os alambiques, as alquitarras; intensifique-se a vinha no Alentejo e no Algarve; retire-se da periferia das cidades a mancha verde das hortas, dos meloais, das forragens; castrem-se os cavalos de Alter; afoguem as azenhas ou calem o canto dos moinhos de vento (...); abatam a camartelo as muralhas do Centro e do Sul cujo risco, para lá das reparações e dos acrescentos posteriores, foi obra dos seus alarifes ou arquitectos; desmontem as almenas, as abóbadas do chamado gótico alentejano, as fontes abobadadas; piquem as taipas, os estuques, destruam as casas de adobe caiadas de branco por dentro e por fora; enterrem os azulejos; queimem as esteiras, as alcofas, os capachos, os tapetes; rachem os alguidares; tentem destruir os couros, os arreios, as grades geométricas. Que nos fica? "


Diria ao Borges Coelho que ainda não conseguimos acabar com tudo, mas temos feito um bom trabalho. Lá isso temos!

quarta-feira, maio 05, 2004

90 anos

Não é todos os dias que um familiar comemora o seu 90º aniversário, tanto mais quanto se trata do nosso último tio.
Estive ausente, por terras do Baixo Tâmega, para o poder abraçar e integrar a festa que lhe promoveram. Foi bom vê-lo assim, lúcido e de aparência saudável.
Também foi bom voltar ao Tâmega e às recordações das férias de verão da minha juventude, e de sempre, pois nunca abandonei esta minha insistência em manter viva a raiz nortenha, que é parte integrante de mim e que senti tão viva na afabilidade das pessoas que me conhecem e me reconhecem, nos odores que perfumam o ar, na presença constante da água, corrente, na paisagem onde o horizonte é a montanha da outra margem do rio, pintada de verde e casario. Ah, e os foguetes, que parece que rebentam sempre que lá estou, como que para me receber.

sábado, maio 01, 2004

Maio, Maduro Maio


  • Maio maduro Maio
    Quem te pintou
    Quem te quebrou o encanto
    Nunca te amou
    Raiava o Sol já no Sul
    E uma falua vinha
    Lá de Istambul

    Sempre depois da sesta
    Chamando as flores
    Era o dia da festa
    Maio de amores
    Era o dia de cantar
    E uma falua andava
    Ao longe a varar

    Maio com meu amigo
    Quem dera já
    Sempre depois do trigo
    Se cantará
    Qu'importa a fúria do mar
    Que a voz não te esmoreça
    Vamos lutar

    Numa rua comprida
    El-rei pastor
    Vende o soro da vida
    Que mata a dor
    Venham ver, Maio nasceu
    Que a voz não te esmoreça
    A turba rompeu


Zeca Afonso

sexta-feira, abril 30, 2004

Homenagem a Gastão Cruz

Gastão Cruz foi de entre os poetas contemporâneos algarvios o que primeiro identifiquei, já lá vão umas dezenas de anos, como meu conterrâneo. Estou a referir-me ao Algarve e não a Silves. Neste meu blog, embora sempre tivesse um lugar reservado para ele, umas vezes por uma coisa, outras vezes por outra, não tinha ainda tido o ensejo de publicar um dos seus poemas. Mesmo ontem, quando já era conhecedor do seu Grande Prémio de Poesia, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, o preteri, em função da continuidade dos poemas de Luiza Neto Jorge.

O poema que escolhi, de Rua de Portugal, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002, precisamente a obra premiada, lembra-me, pela temática, alguns dos escritos do meu amigo José Carlos Barros, de Um pouco mais de Sul:

  • Duas Hortas (Estoi)

    Havia a horta havia
    um limoeiro
    ao fundo alfarrobeiras à frente as
    oliveiras, no muro uma passagem
    depois de atravessarmos
    a estrada

    Na horta atrás da casa laranjeiras
    figueiras e uma
    romãzeira junto à nora

    Às vezes vagarosa a mula com antolhos
    rodava toda a tarde
    fazendo os alcatruzes despejar
    incessantemente água


Não consigo resistir. Tenho aqui um outro. (Também não é todos os dias que se ganha um grande prémio de poesia)
  • ALGARVE

    A luz amadurece as
    pedras e os figos nos lados dos caminhos
    adoça as alfarrobas fende a casca
    cinzenta das
    amêndoas e desprende-as
    varejamos
    as que ficam presas de leve
    aos ramos;
    no armazém da casa amontoadas
    descascar as
    amêndoas o verão

quinta-feira, abril 29, 2004

Silves EM CENA (II)

Continuo EM CENA, com Luiza Neto Jorge e mais três poemas que dedicou a Silves:


  • Lá está ainda na muralha
    a pedra moira
    que esfarela nos muros
    da minha casa


    • Mão de ferro finada
      a bateres à porta
      de quem vive embutido
      nas traseiras


      • O rio secou.
        Subi leve à nascente
        que falece.

        Descesse, e era
        o mar.

Estes poemas, na revista, ficam enquadrados por fotografias, de Sara Navarro, que nos falam de Silves como os poemas que ilustram.