quarta-feira, maio 12, 2004

Eleições, de novo. Vêm aí os políticos!

Casimiro de Brito, no seu "diário" do ano 2000, Na Barca do Coração, Campo das Letras, Porto, 2001, na entrada que apresenta a data de 12 de Maio, escreve assim:


  • " Tempestades, todos os dias, nos copos de água suja que eles bebem. Que fazer? Como conviver, à distância que seja, com os políticos, quando só vão subindo aos galhos da pirâmide (neste tempo de relva e de areia) os mais medíocres? A violência ou o escárnio, diz Cossery, podem ajudar. Mas ajudam pouco. Também aí eles colhem comissões e dividendos: traficam-se armas e imagens como quem vai ao mercado comprar laranjas. Escravizam-se jovens tanto na produção como no consumo: roleta em que todos perdem, menos a banca, o múltiplo croupier. O desprezo talvez ajude, a indiferença dos peões, o desinteresse das plateias, a ironia dos intelectuais - mas isso que lhes importa? Numa sociedade democrática, os votos legitimam tudo, e eles dividem-nos maquiavelicamente. Ora governas tu e eu governo-me, ora governo eu e tu governas-te. E damos um pouco do que eles querem: pão (ma non tropo) e circo (o mais possível) - infalível! Terrível será o dia em que acordem a pensar que nada levarão consigo, nem o dinheiro, nem a maldade, nem as honrarias. Ficam imagens desvanecidas. Nem passam pelo "nada essencial" de que fala Heidegger. "



terça-feira, maio 11, 2004

Música, em vez de balas

Soube, pela Janela Indiscreta, deste artigo do Público, que nos conta como o maestro Daniel Barenboim decidiu oferecer, a um conservatório palestiniano de música, os 100 mil dólares referentes ao Wolf Prize, prémio israelita semelhante ao Nobel, que ontem lhe deve ter sido entregue no Parlamento de Israel.

Atitudes como esta, controversas necessariamente, colocam interrogações, fazem-nos pensar que é possível entendermo-nos sobre o que parece ser acessório e daí construir diálogos sobre o que parece ser fundamental.
É interessante saber que foi um músico a devolver esta "pedra", de onde habitualmente chovem balas.


segunda-feira, maio 10, 2004

Mil e uma noites

Assisti durante este fim-de-semana, em Silves, ao lançamento da 2ª edição de Al-Mu'tamid, poeta do destino, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, de Adalberto Alves, numa iniciativa do CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves).
Trata-se de uma edição revista e aumentada com novos poemas, novas versões de poemas e comentários.

A apresentação do autor e da obra esteve a cargo de Tiago Setil, licenciado em Estudos Árabes e Islâmicos, em Córdova, e que prosseguiu estudos superiores noutros países de língua árabe, nomeadamente na Tunísia. De regresso a Portugal, vê-se confrontado com a situação de não conseguir obter equivalência académica para os seus estudos, dada a ausência, em Portugal, de qualquer curso universitário completo na sua especialidade.
Insólita esta situação, num país com tão profusa e elevada herança cultural de proveniência árabe e islâmica.

Revelou-nos Adalberto Alves que Tiago, para sobreviver, trabalha num local onde nada pode oferecer da sua formação específica - uma sapataria.
Digam-me lá se não somos um país rico em capital humano, para se dar ao luxo de desperdiçar gente tão capacitada!?

O título do post tem a ver com um poema que Adalberto Alves nos deu o prazer de ouvir recitar, que consta das Mil e uma noites, precisamente das noites 180º e 866º, e nos fala de uma mulher do harém de Al-Mu'tamid que, por receio de quem espia, não se atreveu a visitá-lo naquela noite.

  • Inocultável

    por receio de quem espia
    com muita inveja a roer
    ela não veio nesse dia,
    pra assim traída não ser
    pla luz que do rosto esplende,
    plas jóias a tilintar,
    e plo perfume do âmbar
    a que o corpo lhe rescende.

    é que ao rosto, com o manto,
    tapá-lo 'inda poderia,
    e as jóias, entretanto,
    facilmente as tiraria,
    mas a fragrância do encanto
    pra ocultá-la que faria?


sexta-feira, maio 07, 2004

Um poema, em vez de um grito

Abu-l-Fadl Ibn al-A'lam, viveu em Santa Maria (Faro), no séc. XII, no tempo dos almorávidas.


  • para beijá-la avancei
    e o desejo não se vergou ao medo.
    ela disse: vais desonrar-te cedo!
    respondi: é pecado, sei!
    mas algo supera essa mágoa:
    é morrer de sede dentro d'água.

ALVES, Adalberto
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

quinta-feira, maio 06, 2004

Um grito, em vez de um poema

Hoje, em vez do poema luso-árabe que faço por manter na primeira página deste meu blog, quero trazer-vos um texto, como um grito, de Borges Coelho, o historiador de Portugal na Espanha Árabe, Editorial Caminho, Lisboa, 1989:


  • " Aceita-se, geralmente, a contribuição do Islão na propagação das técnicas de rega, da bússola, do papel e no aumento do pomar peninsular sem se ousarem conclusões necessárias. A fisionomia do Portugal agrário moldou-se em boa parte pelo arquétipo do Ândalus mourisco, mesmo quando não é ele o autor das técnicas, mas o seu último transmissor.
    Apaguem-se por um momento dos campos de Portugal as sombras do pessegueiro, do limoeiro, da laranjeira, da nespereira, da ameixoeira, da alfarrobeira; recue-se para Sul a oliveira, suprimindo a comercialização do azeite e da azeitona; rareiem-se as amendoeiras e as folhas largas das figueiras com o seu almeixar; suprimam-se as noras, os alambiques, as alquitarras; intensifique-se a vinha no Alentejo e no Algarve; retire-se da periferia das cidades a mancha verde das hortas, dos meloais, das forragens; castrem-se os cavalos de Alter; afoguem as azenhas ou calem o canto dos moinhos de vento (...); abatam a camartelo as muralhas do Centro e do Sul cujo risco, para lá das reparações e dos acrescentos posteriores, foi obra dos seus alarifes ou arquitectos; desmontem as almenas, as abóbadas do chamado gótico alentejano, as fontes abobadadas; piquem as taipas, os estuques, destruam as casas de adobe caiadas de branco por dentro e por fora; enterrem os azulejos; queimem as esteiras, as alcofas, os capachos, os tapetes; rachem os alguidares; tentem destruir os couros, os arreios, as grades geométricas. Que nos fica? "


Diria ao Borges Coelho que ainda não conseguimos acabar com tudo, mas temos feito um bom trabalho. Lá isso temos!

quarta-feira, maio 05, 2004

90 anos

Não é todos os dias que um familiar comemora o seu 90º aniversário, tanto mais quanto se trata do nosso último tio.
Estive ausente, por terras do Baixo Tâmega, para o poder abraçar e integrar a festa que lhe promoveram. Foi bom vê-lo assim, lúcido e de aparência saudável.
Também foi bom voltar ao Tâmega e às recordações das férias de verão da minha juventude, e de sempre, pois nunca abandonei esta minha insistência em manter viva a raiz nortenha, que é parte integrante de mim e que senti tão viva na afabilidade das pessoas que me conhecem e me reconhecem, nos odores que perfumam o ar, na presença constante da água, corrente, na paisagem onde o horizonte é a montanha da outra margem do rio, pintada de verde e casario. Ah, e os foguetes, que parece que rebentam sempre que lá estou, como que para me receber.

sábado, maio 01, 2004

Maio, Maduro Maio


  • Maio maduro Maio
    Quem te pintou
    Quem te quebrou o encanto
    Nunca te amou
    Raiava o Sol já no Sul
    E uma falua vinha
    Lá de Istambul

    Sempre depois da sesta
    Chamando as flores
    Era o dia da festa
    Maio de amores
    Era o dia de cantar
    E uma falua andava
    Ao longe a varar

    Maio com meu amigo
    Quem dera já
    Sempre depois do trigo
    Se cantará
    Qu'importa a fúria do mar
    Que a voz não te esmoreça
    Vamos lutar

    Numa rua comprida
    El-rei pastor
    Vende o soro da vida
    Que mata a dor
    Venham ver, Maio nasceu
    Que a voz não te esmoreça
    A turba rompeu


Zeca Afonso