Ainda do "diário" de Casimiro de Brito, que já aqui usei variadíssimas vezes, retirei, com data de 18 de Maio de 2000:
" O meu corpo sabe mais do que eu. Quando penso para onde quero ir, vou para lugares errados. Mas quando me deixo levar pelo corpo, ele segue a brisa ou um veio de água, um cheiro, uma palavra, uma mulher. Assim devia ser. "
Em post de 26 de Abril, Mordomias da GNR, 30 anos depois, cujo conteúdo remeti para o Comando da GNR e para o Ministério da Administração Interna, criticava a utilização abusiva do adro da Ermida de Santo António, em Armação de Pêra, como parque de estacionamento das viaturas dos agentes da GNR local e seus amigos.
Este fim-de-semana, de volta a Armação, não detectei a presença abusiva de tais viaturas. Fosse por mera coincidência ou por atitude face ao reconhecimento do erro, apraz-me verificar a melhoria da situação.
As ravinas podem cair com o peso da chuva: por entre as fendas, revelam-se grutas, caminhos para o centro que outrora se sonhou. Não importa que esses túneis estejam fechados; e que os grandes lagos subterrâneos guardem, intacta, a luz negra da origem. Ao ver a terra que escorre, devagar, ameaçando as casas em baixo, uma antiga inquietação me impede de avançar, em direcção ao fim da estrofe: como se, também aqui, o movimento das vogais iniciasse o brusco desmoronar do verso.
Nuno Júdice Poesia Reunida (1967-2000) D. Quixote, Lisboa, 2000
Casimiro de Brito, no seu "diário" do ano 2000, Na Barca do Coração, Campo das Letras, Porto, 2001, na entrada que apresenta a data de 12 de Maio, escreve assim:
" Tempestades, todos os dias, nos copos de água suja que eles bebem. Que fazer? Como conviver, à distância que seja, com os políticos, quando só vão subindo aos galhos da pirâmide (neste tempo de relva e de areia) os mais medíocres? A violência ou o escárnio, diz Cossery, podem ajudar. Mas ajudam pouco. Também aí eles colhem comissões e dividendos: traficam-se armas e imagens como quem vai ao mercado comprar laranjas. Escravizam-se jovens tanto na produção como no consumo: roleta em que todos perdem, menos a banca, o múltiplo croupier. O desprezo talvez ajude, a indiferença dos peões, o desinteresse das plateias, a ironia dos intelectuais - mas isso que lhes importa? Numa sociedade democrática, os votos legitimam tudo, e eles dividem-nos maquiavelicamente. Ora governas tu e eu governo-me, ora governo eu e tu governas-te. E damos um pouco do que eles querem: pão (ma non tropo) e circo (o mais possível) - infalível! Terrível será o dia em que acordem a pensar que nada levarão consigo, nem o dinheiro, nem a maldade, nem as honrarias. Ficam imagens desvanecidas. Nem passam pelo "nada essencial" de que fala Heidegger. "
Soube, pela Janela Indiscreta, deste artigo do Público, que nos conta como o maestro Daniel Barenboim decidiu oferecer, a um conservatório palestiniano de música, os 100 mil dólares referentes ao Wolf Prize, prémio israelita semelhante ao Nobel, que ontem lhe deve ter sido entregue no Parlamento de Israel.
Atitudes como esta, controversas necessariamente, colocam interrogações, fazem-nos pensar que é possível entendermo-nos sobre o que parece ser acessório e daí construir diálogos sobre o que parece ser fundamental. É interessante saber que foi um músico a devolver esta "pedra", de onde habitualmente chovem balas.
Assisti durante este fim-de-semana, em Silves, ao lançamento da 2ª edição de Al-Mu'tamid, poeta do destino, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, de Adalberto Alves, numa iniciativa do CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves). Trata-se de uma edição revista e aumentada com novos poemas, novas versões de poemas e comentários.
A apresentação do autor e da obra esteve a cargo de Tiago Setil, licenciado em Estudos Árabes e Islâmicos, em Córdova, e que prosseguiu estudos superiores noutros países de língua árabe, nomeadamente na Tunísia. De regresso a Portugal, vê-se confrontado com a situação de não conseguir obter equivalência académica para os seus estudos, dada a ausência, em Portugal, de qualquer curso universitário completo na sua especialidade. Insólita esta situação, num país com tão profusa e elevada herança cultural de proveniência árabe e islâmica.
Revelou-nos Adalberto Alves que Tiago, para sobreviver, trabalha num local onde nada pode oferecer da sua formação específica - uma sapataria. Digam-me lá se não somos um país rico em capital humano, para se dar ao luxo de desperdiçar gente tão capacitada!?
O título do post tem a ver com um poema que Adalberto Alves nos deu o prazer de ouvir recitar, que consta das Mil e uma noites, precisamente das noites 180º e 866º, e nos fala de uma mulher do harém de Al-Mu'tamid que, por receio de quem espia, não se atreveu a visitá-lo naquela noite.
Inocultável
por receio de quem espia com muita inveja a roer ela não veio nesse dia, pra assim traída não ser pla luz que do rosto esplende, plas jóias a tilintar, e plo perfume do âmbar a que o corpo lhe rescende.
é que ao rosto, com o manto, tapá-lo 'inda poderia, e as jóias, entretanto, facilmente as tiraria, mas a fragrância do encanto pra ocultá-la que faria?