sexta-feira, maio 28, 2004

Poema, com poema se paga

O Sandro William Junqueira, que citei no meu último post, devolveu "o meu apreço, nas palavras de Ramos Rosa", num abraço envolvido nas suas próprias palavras.

Eis o poema, inédito, do Sandro:


  • O sangue bateu relâmpagos no corpo.

    As luzes pontilharam a noite
    Enquanto o desejo sucumbia faminto e inflamado.

    Ainda assim sobra-nos o coração
    Este velho tambor que conta histórias.

Obrigado, Sandro.


quinta-feira, maio 27, 2004

O meu apreço, nas palavras de Ramos Rosa

Assisti a uma noite de poesia e música com José Louro, Sandro William Junqueira e Fernando Aires catalisados por António Ramos Rosa.
Aconteceu na passada segunda-feira, à noite, por ocasião da "Festa do Livro", em Lagoa. Vi os livros, mas perdi a festa; faltaram as pessoas.
Agradeço o bom momento que me proporcionastes e a mais alguns, poucos, apesar dos incómodos provocados por ruídos de trabalho que poderiam ter tido lugar em melhor hora, por crianças que há tempo deveriam estar a repousar e por adultos que, seguramente, não gostam de poesia, pois preferiram estar a conversar, em tom elevado, na sala ao lado.
Envio-vos o meu apreço, nas palavras de Ramos Rosa:

    Um signo
    talvez um lábio
    a cálida harmonia
    em que o mar concentra a sua imagem
    uma árvore dócil
    de abundância suave
    um anel voluptuoso
    um sossego de acaso
    uma anuência à matéria mágica
    de um minuto
    um crepúsculo de eternidade amada
    em volúvel confiança no silêncio

António Ramos Rosa
A Intacta Ferida
Relógio D'Água, Lisboa 1991



quarta-feira, maio 26, 2004

Um olhar, sob o impulso do vento

Houve mulheres, no passado fim-de-semana, que se tornaram, até hoje, tema recorrente dos meus pensamentos: Salomé, no filme "O Milagre, segundo Salomé" e Julieta, Inês de Castro, Medeia e Antígona, na peça de teatro "Antes que a noite venha", a que assisti no Teatro Lethes, em Faro.
A elas, e às suas intérpretes que lhe deram corpo, este poema:

  • A vista

    A quem é dado, pela janela entreaberta,
    ver mais de metade da vida, e em voz alta por puro gosto
    repetir o poema pensado,
    já os deuses escolheram.
    Mas se as folhas agitadas pelo vento ocultam,
    por vezes,
    o outro lado do muro, não é porque algo nos impede de olhar;
    mas porque o olhar,
    sob o impulso do vento,
    segue as correntes contraditórias até algures,
    na atmosfera,
    onde imobilizado perscruta e espera.

Nuno Júdice
Poesia Reunida (1967 - 2000)
Publicações D. Quixote, Lisboa 2000



terça-feira, maio 25, 2004

De Sara para Sara, por uma noite

Dedico à Sara, que se atreveu a abandonar a sua rota de cabotagem e mergulhar na noite, desnoiteando:

  • De Ibn Sara, de Santarém (? - 1123)

    ah, a noite que eu sem fim passei!...
    o tempo alargava a sua duração
    e dava-lhe o cerne do que na vida amei.
    comentaram alguns, pela noite fora,
    como se ia escoando a sua mansidão.
    mas a noite apenas consentia a aurora...

    das nuvens tão denso era o breu
    que já não se sabia o que era terra ou céu.
    ao longe o raio entre trevas se escondia:
    era um negro que entre lágrimas sorria.

    brandi alto o sabre da minha vontade
    e tingi o manto dessa mesma aurora
    ao ferir o colo da escuridade
    com o sangue da noite pela noite fora.

Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1998


P.S. Ibn Sara já constava da minha galeria de poetas, na coluna da direita, em Ibn Sara, de Santarém, com A Brisa e a Chuva.


segunda-feira, maio 24, 2004

O milagre, segundo Mário Barroso

© http://www.madragoafilmes.pt/salome/#
Madragoa Filmes

Observada pelo seu amante a partir de um outro compartimento, enquanto compõe as suas meias, eis Salomé.

O extremo cuidado posto nas imagens, na luz, na abordagem da câmara, como quem sugere leituras para além do imediatamente visível; a contenção emocional dos actores, conferindo-lhes uma maior profundidade; a caracterização da época sem insistência nem exagero nos pormenores, mas vivamente presente; o fluir suave da teia romanesca até à conclusão que se adivinha e se sugere; a apresentação do " milagre de Fátima" sem polemizar, dando lugar à interpretação subjectiva do espectador, como nos sucede na própria vida; a música, sem enfatizar; o som, natural e audível, como nunca antes sentira no cinema português.

Gostei muito, mesmo muito, sinceramente, e recomendo.


sexta-feira, maio 21, 2004

Prémio Camões 2004

Pode parecer que o texto que escolhi para homenagear Agustina Bessa-Luís, e que retirei de Vale Abraão, Guimarães Editores, 3ª edição, Lisboa, 1996, tenha a ver com a minha predilecção por motivos andalusinos (vocábulo utilizado por Adalberto Alves, o de O meu coração é árabe, quando se refere à civilização do Al-Ândalus, período da presença islâmica na Península Ibérica).
Pensando melhor, até talvez seja verdade.
Ocorreu-me este romance porque o mais divulgado e conhecido, via cinema e Manoel de Oliveira, e porque à memória me acudia uma determinada descrição do Vale do Douro que me teria particularmente agradado. Face ao texto, ficou-me a dúvida sobre o que me teria efectivamente despertado a memória. Será que este apelo pela descrição do Vale do Douro não estaria associado às referências mouriscas e à figura de Almansor? Nunca o saberei.

  • " (...) há na curva que apascenta o rio pelo rechão areento, ao sair da Régua, um vale ribeiro de produção ainda de vinhos de cheiro e que se estende, rumo à cidade de Lamego, comarca a que pertence, até às águas medicinais de Cambres. É o Vale Abraão, com as suas quintas e lugares de sombra que parecem acentuar a memória de um trânsito mourisco que de Granada trazia as mercadorias do Oriente e, porventura, os gostos de pomares de espinho e dos vergéis de puro remanso. Almansor teve residência em Lamego e escreveu aí a história da campanha com os seus aliados, os condes moçárabes. Talvez por isso, porque corre um fio de tinta desde a fronteira duriana até às águas do Tedo e do Távora, os poetas e os letrados obstinados produzem as suas obras naquele território que, antes do trato da Índia, conheceu verdadeiro esplendor agrícola e comercial.
    (...) "



quarta-feira, maio 19, 2004

A supressão do sol

Assim acendemos o n(é)on da futilidade:
peregrinando, inebriados pelo foguetório;
mergulhando na imbecilidade do anoitecer;
recusando-nos, incapazes da madrugada.