De entre a prévia e abundante camada de estrume, bem putrefacto, irrompe já, possante e verde, a relva que, extravasando arenas, tudo cobre até ao horizonte, para além do deficit, agora feito défice, a integrar de pleno direito o quotidiano enriquecido da língua portuguesa.
Também lá estarei mal surja a hora do primeiro golo, alienado, mas embalado nesta ilusão de um Quinto Império por cumprir.
Sou português, mas sinto-me mais um homem do Mediterrâneo, de qualquer lugar da sua orla, do que propriamente um europeu do norte ou do centro-norte. Sinto-me assim, mas pouco tenho a ver com o Portugal de que irão falar amanhã ou com a Europa, a propósito da qual irão tentar encher-me os olhos e os ouvidos durante o próximo fim-de-semana.
Chegarão mesmo a falar dela; dessa Europa da qual nada têm dito? Estou em crer que o tema deste final de semana incidirá sobremaneira no tal Portugal em que me não revejo, protagonizado pelos que fazem este Portugal de que não gosto.
Na sequência do post de ontem ocorreu-me divulgar outra clássica referência a Silves. Desta feita falo de Luís de Camões e de Os Lusíadas.
Do Canto III, estrofes 86 - 88:
(...) Despois que foi por Rei alevantado, Havendo poucos anos que reinava, A cidade de Silves tem cercado, Cujos campos o Bárbaro lavrava. Foi das valentes gentes ajudado Da Germânica armada que passava, De armas fortes e gente apercebida, A recobrar Judeia já perdida.
Passavam a ajudar na santa empresa O roxo Federico, que moveu O poderoso exército, em defesa Da cidade onde Cristo padeceu, Quando Guido, co a gente em sede acesa, Ao grande Saladino se rendeu, No lugar onde aos Mouros sobejavam As águas que os de Guido desejavam.
Mas a fermosa armada, que viera Por contraste de vento àquela parte, Sancho quis ajudar na guerra fera, Já que em serviço vai do santo Marte. Assi como a seu pai acontecera Quando tomou Lisboa, da mesma arte Do Germano ajudado, Silves toma E o bravo morador destrui e doma. (...)
Há ainda uma outra referência no Canto VIII, estrofe 26:
(...) Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha Silves, que ele ganhou com força ingente: É Dom Paio Correia, cuja manha E grande esforço faz enveja à gente. Mas não passes os três que em França e Espanha Se fazem conhecer perpètuamente Em desafios, justas e tornéus, Nelas deixando públicos troféus. (...)
Notas (da edição): 86.3-4 “A cidade de Silves tem cercado”: com o auxílio da “Germânica armada” (flamengos e alemães) que formou a Terceira Cruzada (1189-1192) os Portugueses atacaram Silves; “Cujos campos o Bárbaro lavrava”; o Bárbaro é o Muçulmano. 87.2-5 “O roxo Federico, ...”: Frederico I, imperador da Alemanha (1123-1190), o Barba-Roxa ou Barba-Ruiva; “Quando Guido, co a gente em sede acesa”: Guido de Lusignan, último rei de Jerusalém, rendeu-se a Saladino, sultão do Egipto e da Síria, porque as suas tropas morriam de sede. A batalha de Tiberíade terminou pela captura de Guido. 88.1-4 “Mas a fermosa armada, ... / Já que em serviço vai do santo Marte”: a fermosa armada quis ajudar Sancho porque ia pelejar na Guerra Santa. Ort.: fermosa (por formosa).
26.1-8 “Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha / Silves, ...”: por meio de cilada. Desviando o governador de Silves para Paderne e indo por caminho desviado, foi lançar-se sobre Silves, tomando todas as portas da cidade e impedindo as forças do governador de entrarem e ele próprio (v. Rui de Pina, Cr. de D. Afonso III),, cap. IX); “Mas não passes os três que em França e Espanha”: Gonçalo Rodrigues Ribeiro, Vasco Anes e Fernando Martins de Santarém, que em tempo de D. Afonso IV andaram como cavaleiros andantes em justas e torneios (v. Rui de Pina, Cr. de D. Afonso IV, caps. XIV a XVI). Ort.: enveja (por inveja); tornéus, por causa da rima.
Folheando a História Luso-Árabe, de Garcia Domingues, de Silves, numa edição da Empresa Editora Pro Domo, Limitada, Lisboa 1945, decidi revelar-vos alguns trechos de Dona Branca, de Almeida Garrett, a cujo poema é possível aceder através do primeiro dos links que coloquei atrás, num excelente serviço que nos é prestado pela Biblioteca Nacional Digital, da Biblioteca Nacional.
O poema, que tem o subtítulo A Conquista do Algarve, fala dos lendários amores de Ibn Mahfot (Aben-Afan), último dos reis árabes de Silves, por Dona Branca, filha de D. Afonso III. Um primeiro trecho (ortografia da época), onde Garrett nos traça o perfil de Aben-Afan:
(...) Quem é êste inimigo generoso, Que alma tão nobre em peito infiel encerra? Quem é êste guerreiro muçulmano, Que tão gentil, tão majestoso brilha Nas picturescas árabes alfaias Que o talhe heróico, o altivo porte, a graça, Esbelta, de marcial beleza arreiam? (...)
Ainda um outro excerto (ortografia da época), onde Garrett descreve a conquista de Silves:
(...) Ai de ti, Silves, de tuas nobres tôrres, Teu alcácer tão forte! Quem resiste Às espadas terríveis de Santiago? Já derredor dos muros, que de lanças, De frechas, de bèsteiros se coroam, Suas tendas assentou, suas azes(1) posta O invencível mestre. Já trabucos Assestam, catapultas vêm de rôjo, Máquinas, ígneas tôrres; e se dobram Acobertados couros, protectores De escaladas e assaltos. Mas de dentro Dos muros os cercados se apercebem Para a defesa: ardentes alcanzias(2), Duros cantos, ferradas longas varas Que os incendiários fachos arremessam Às inimigas fábricas. Redobra Coragem em uns e noutros o perigo Pregam no campo frades indulgências, Na cidade os imãs novas promessas Fazem de huris(3) e paraísos: folga Entanto a morte, e para a ceifa crua C'o um pérfido sorriso a fouce afia. (...)
Notas (do apostador): (1) Az, s.f. (do lat. acie-). (...) || Arraial, acampamento. || (...), inGrande Dicionário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Tomo II, Amigos do Livro e Sociedade de Língua Portuguesa (2) Alcanzia, s.f. (do ar. al-kanzia). (...) || Panela de barro, que continha matéria explosiva e se usava nas guerras antigas. || (...), inGrande Dicionário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Tomo I, Amigos do Livro e Sociedade de Língua Portuguesa (3) Huri, s.f. (do fr. houri). No paraíso de Mafoma, mulher formosa, de natureza angélica e dispondo de eterna juventude e beleza, que Mafoma prometera como recompensa aos seus fiéis, quando alcançassem a bem-aventurança., inGrande Dicionário da LínguaPortuguesa, José Pedro Machado, Tomo VI, Amigos do Livro e Sociedade de Língua Portuguesa
Quem não conhece a lenda dos amores de Al-Mu'tamid, o príncipe árabe de Silves, por Gilda, a princessa nórdica, saudosa da neve da sua terra!? Não. Infelizmente não são amendoeiras cobrindo de flores o chão como um manto de neve. São choupos, cujo pólen cobre a terra como uma espessa camada de algodão.
Por onde andarão as amendoeiras? Sei que não são árvores de sombra, nem árvores ditas decorativas, mas são certamente património do nosso Algarve e, por via da lenda frequentemente atribuída a Silves, um património local. Não haverá um sítio apropriado, uma pequena área, onde se possa colocar algumas amendoeiras? Que bem que ficariam na encosta Norte da Alcáçova! Imagino-as já, na Primavera, iludindo de neve os olhos saudosos dos europeus do Norte que nos visitam, os nostálgicos olhos dos algarvios e dos silvenses que todos os anos as buscam e cada vez as vêem menos, os tristes olhos dos portugueses, que aqui vêm na rota dos mistérios e das belezas do Sol e do Sul. Património não é só o do passado remoto; é também aquele que a "civilização", no seu passo impiedoso vai destruindo. Saibamos nós mantê-lo, por respeito aos nossos avós e a nós próprios.
Não passo pelos blogs sem visitar Um pouco mais de Sul. Não é uma obrigação, antes a satisfação de um desejo que se cumpre na leitura dos escritos do jcb, que ali quase diariamente me deixa, para que as colha, pequenas sínteses de vivências com sabor a poesia. Este fim-de-semana, mais exactamente no domingo à tarde, fiquei preso por longo tempo num seu poema, daqueles que ele nos deu a conhecer e que sentimos correr como a água de que falam, que tratam pelos seus nomes os animais e as árvores, que evocam utensílios que vão perdendo o uso, que arrastam aromas de ervas de que se fazem chás ou mezinhas e paladares esquecidos nos muros brancos, abandonados, que demarcavam quintas onde havia dessa água, dessas árvores, desses cheiros e sabores que quase só restam na memória.
Da janela vê-se ao fundo a bruma que levanta, os primeiros nomes do mundo oscilam pelos muros altos, não tarda sobre as águas a calhandra, o fósforo da pedra à luz caiada da manhâ. Raparigas passarão descalças na linha da margem com maçãs e nozes, cântaros castanhos à cabeça, rosas que os cabelos não seguram muito tempo. O dia claro inunda como um sopro as folhas do negrilho antigo, mistura os seus declives ao odor dos púcaros suspensos da parede: melancólico dia sem outros fios que os de prender o caminho à casa e ao silêncio o corpo quebrado nas horas tardias.
José Carlos Barros Uma Abstracção Inútil editorial declives Évora 1991 Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 1990
Antes de sair não posso deixar de agradecer a referência elogiosa que me deixou o Helder Raimundo no seu Contrasenso. Obrigado!
Andei a arrumar coisas. Uma delas foi precisamente a coluna direita deste blog, que estava a ficar demasiado comprida. Conservei os poetas luso-árabes e ganhei espaço para repor os seus nomes, como anteriormente. Remeti os outros poetas para outro lugar, a que se pode facilmente aceder, terminada a lista dos poetas andalusinos, através de um link que diz POESIA ... de outros poetas. Afinal é só uma questão de facilidade de acesso. Eles encontram-se ao fundo desta página.
Também andei a arrumar jornais e outra papelada e deu-me para partilhar convosco o excerto de uma entrevista que há algum tempo concedi ao Postal do Algarve e em que à questão:
- Quanto a si o que é que mais poderia ser feito em prol do teatro?
respondia:
- As necessidades do teatro são as necessidades da cultura. Vivemos uma época típica de uma sociedade em mudança, que já não é o que era, mas também ainda não é outra coisa. As pessoas estão mais disponíveis para a frivolidade, para os espectáculos inebriantes de luz e cor, para as coisas fáceis de aceitar, sem grandes elaborações mentais e que possam vir a ser motivo de conversa e de aceitação e identificação social. É o tempo das grandes massas e das empresas voltadas para a satisfação desses desejos fáceis: as televisões, o futebol, o dia-a-dia das grandes e efémeras vedetas, que quase nem têm tempo de chegar a sê-lo. Não estamos em tempo de reflexão, de criação, de honestidade intelectual e o teatro e a cultura vivem precisamente da reflexão, da criatividade e da honestidade intelectual. Tem uma clientela reduzida e, necessariamente, apoios reduzidos. Somos o reflexo da sociedade em que vivemos.