quinta-feira, junho 17, 2004

Dá-me o teu sorriso!

Ar-Rashid Ibn 'Abbad, filho de al-Mu'tamid, após a morte de seu irmão mais velho, Siraj ad-Dawla (nascido em Silves), chegou a ser designado príncipe herdeiro. Foi alcaide de Sevilha e após a queda da dinastia abádida acompanhou seu pai no exílio em Marrocos.
O pequeno excerto que vos apresento foi extraído de um poema, que muito provavelmente teria dedicado a seu pai:


      (...)
      dá-me o teu sorriso!
      com ele dispensarei a luz da manhã
      e o próprio brilho da candeia.

Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1998



quarta-feira, junho 16, 2004

Há Porters, Gershwins... e Caetanos

Tenho andado na companhia de Caetano Veloso e A Foreign Sound.
Há dias, há momentos, há "coisas"... há Porters e Gershwins que nos brindam com uma maior intensidade de viver.
São muito ricas estas interpretações de Caetano sobre temas bem conhecidos noutras vozes, noutras orquestras, noutras sonoridades, mas a que ele confere uma calma, requintada e personalíssima vivência.
Não me canso de ouvir So in love, Body and soul, The man I love, Smoke gets in your eyes, Summertime, Cry me a river, ou ainda Diana (a outra, a do Paul Anka), Come as you are, Detached ou Manhattan, a fechar, antes que aqui reproduza todo o conteúdo do CD.

Vocês já experimentaram? Vão por mim, se Porter, Gershwin ou Caetano vos dizem alguma coisa!


terça-feira, junho 15, 2004

"Poetas-espiões" no al-Ândalus

Relia algumas das comunicações apresentadas no I Colóquio Internacional "História e Cultura Luso-Árabes", de Outubro de 1998, em Silves, nomeadamente uma comunicação de Teresa Garulo, professora da Universidade Complutense de Madrid, sob o título " Poesia árabe em Portugal", (in XARAJÎB, Revista do Centro de Estudos Luso-Árabes, Silves - Portugal - Nº 1/2000), quando fui surpreendido pela figura de Ibn al-Asili.
Ibn Bassam, de Santarém, já aqui referido por mais de uma vez, escreveu sobre Ibn al-Asili, que conheceu em Lisboa como secretário de um governador (qa'id) de nome al-Mansur. Poeta originário de Saragoça, muito provavelmente, manteve curiosas relações com a zona do al-Ândalus que é hoje Portugal. Conta-nos Ibn Bassam, que Ibn al-Asili esteve em Coimbra, pouco depois da conquista de Afonso VI (1072), disfarçado de mendigo profissional. Servindo com trabalhos de informação os interesses de alguns monarcas da época, que se não coibiam de utilizar os serviços destes mendigos profissionais para estas missões, tanto em Coimbra, como depois noutras cidades do sul de Portugal, nomeadamente Beja, Silves, Santa Maria (Faro) e ainda outras cidades da costa de Huelva, Ibn al-Asili não se teria saído muito bem.
O poema de Ibn al-Asili, que mantenho em castelhano porque não arrisco uma tradução, retrata o seu sentimento durante a sua permanência em Coimbra:

  • (...)
    Vine a Coimbra lleno de esperanza
    Y no encontré buen trato ni comodidades.
    Me privaron de todo, cual si fuera
    Menos que un ser humano
    y estuviese pidiendo lo imposible.
    Quise volver, mas quién me ayudaría
    si me habían cerrado tantas puertas?
    Cuando rondó mi mente la añoranza
    las lágrimas me ahogaran
    - era lo inevitable -.
    Podré volver, amigos, a vosotros?
    Podremos, algún dia, reencontarnos?
    Después de separarnos permanezco
    en el mar de las penas, luchando por no ahogarme.
    Aunque tengo ambición y voluntad,
    me he convertido en un desecho
    en poder de los cristianos (...)



segunda-feira, junho 14, 2004

Rua de Portugal

  • Rua de Portugal

    Já não existe a casa
    vinte o
    número
    da trémula muralha térrea
    defensora
    duma pátria começando
    quase sem luz
    no céu com o sentido que lhe davam
    sombras fixas
    Para lá
    do tecto indefinido a
    luz criava como
    uma onda
    a casa sobre o mar


Gastão Cruz
Rua de Portugal
Assírio & Alvim, Lisboa 2002



sexta-feira, junho 11, 2004

O circo chegou à cidade

Estádio do Algarve
Estádio do Algarve

"Alea jacta est!"

Os "estádios" estão lançados!

De entre a prévia e abundante camada de estrume, bem putrefacto, irrompe já, possante e verde, a relva que, extravasando arenas, tudo cobre até ao horizonte, para além do deficit, agora feito défice, a integrar de pleno direito o quotidiano enriquecido da língua portuguesa.

Também lá estarei mal surja a hora do primeiro golo, alienado, mas embalado nesta ilusão de um Quinto Império por cumprir.

Amanhã, haverá pão?


quarta-feira, junho 09, 2004

Há um Portugal de que não gosto

Sou português, mas sinto-me mais um homem do Mediterrâneo, de qualquer lugar da sua orla, do que propriamente um europeu do norte ou do centro-norte.
Sinto-me assim, mas pouco tenho a ver com o Portugal de que irão falar amanhã ou com a Europa, a propósito da qual irão tentar encher-me os olhos e os ouvidos durante o próximo fim-de-semana.

Chegarão mesmo a falar dela; dessa Europa da qual nada têm dito? Estou em crer que o tema deste final de semana incidirá sobremaneira no tal Portugal em que me não revejo, protagonizado pelos que fazem este Portugal de que não gosto.


terça-feira, junho 08, 2004

Silves n'Os Lusíadas

Na sequência do post de ontem ocorreu-me divulgar outra clássica referência a Silves. Desta feita falo de Luís de Camões e de Os Lusíadas.

Do Canto III, estrofes 86 - 88:

  • (...)
    Despois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o Bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército, em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, co a gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    Mas a fermosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assi como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado, Silves toma
    E o bravo morador destrui e doma.
    (...)


Há ainda uma outra referência no Canto VIII, estrofe 26:
  • (...)
    Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha
    Silves, que ele ganhou com força ingente:
    É Dom Paio Correia, cuja manha
    E grande esforço faz enveja à gente.
    Mas não passes os três que em França e Espanha
    Se fazem conhecer perpètuamente
    Em desafios, justas e tornéus,
    Nelas deixando públicos troféus.
    (...)

Notas (da edição):
86.3-4 “A cidade de Silves tem cercado”: com o auxílio da “Germânica armada” (flamengos e alemães) que formou a Terceira Cruzada (1189-1192) os Portugueses atacaram Silves; “Cujos campos o Bárbaro lavrava”; o Bárbaro é o Muçulmano.
87.2-5 “O roxo Federico, ...”: Frederico I, imperador da Alemanha (1123-1190), o Barba-Roxa ou Barba-Ruiva; “Quando Guido, co a gente em sede acesa”: Guido de Lusignan, último rei de Jerusalém, rendeu-se a Saladino, sultão do Egipto e da Síria, porque as suas tropas morriam de sede. A batalha de Tiberíade terminou pela captura de Guido.
88.1-4 “Mas a fermosa armada, ... / Já que em serviço vai do santo Marte”: a fermosa armada quis ajudar Sancho porque ia pelejar na Guerra Santa.
Ort.: fermosa (por formosa).

26.1-8 “Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha / Silves, ...”: por meio de cilada. Desviando o governador de Silves para Paderne e indo por caminho desviado, foi lançar-se sobre Silves, tomando todas as portas da cidade e impedindo as forças do governador de entrarem e ele próprio (v. Rui de Pina, Cr. de D. Afonso III),, cap. IX); “Mas não passes os três que em França e Espanha”: Gonçalo Rodrigues Ribeiro, Vasco Anes e Fernando Martins de Santarém, que em tempo de D. Afonso IV andaram como cavaleiros andantes em justas e torneios (v. Rui de Pina, Cr. de D. Afonso IV, caps. XIV a XVI).
Ort.: enveja (por inveja); tornéus, por causa da rima.