quarta-feira, junho 30, 2004

A MOSTRA que Silves não viu

Mostra de Jovens Criadores, Silves, Junho 2004, © António Baeta Oliveira
A MOSTRA que Silves não viu

Os silvenses terão hoje a última oportunidade para visitar a Mostra de Jovens Criadores, que mereceu a atenção elogiosa de grandes jornais nacionais, como o "Público", o "Expresso" e até o "Jornal de Letras".
Trata-se, de tal modo, de uma mostra diferente e inovadora, vanguardista, experimental e arrojada, ou não fosse uma MOSTRA juvenil, que me pergunto sobre o porquê da sua realização numa cidade do interior algarvio, onde a palavra cultura é identificada com "Festival da Cerveja" ou "Produções da Fábrica do Inglês" ou, talvez ainda, com o slogan eleitoral de "Silves, capital algarvia da cultura".
Há mais coisas, por certo, mas restringem-se à meia centena, um pouco mais ou um pouco menos, de pessoas atentas à oferta cultural de raiz local, afinal as mesmas que, além dos organizadores, jovens criadores, seus amigos e familiares, compareceram de forma regular, interessada e participada nos numerosos eventos que aqui tiveram lugar, particularmente os que decorreram até 12 de Junho.

Que contactos, laços, afinidades ou aprendizagens persistirão depois de terminada a MOSTRA?
Que preocupação houve em dar a conhecer, em fazer interessar, os agentes culturais locais?
Como se procedeu para animar e incentivar a participação dos jovens que aqui frequentam o 10º, 11º e 12º anos, nomeadamente os de cursos ligados à arte, ou os alunos do Instituto Piaget?

Esta MOSTRA passou ao lado da cidade.

Que venha de novo, que venha outra vez, que venha sempre, mas que venha para estruturar, para criar raízes, para gerar novos públicos, para que se transforme, realmente, num acto cultural de expressão local e não para impressionar quem, ao longe, através de jornais de expressão nacional, julgue tratar-se de descentralização cultural ou da realização da autarquia de uma pequena cidade de província, sem ligações à actual Secretaria de Estado da Juventude e Desportos que, curiosamente, também escolheu Silves como cidade anfitriã da exposição do "Euro '2004". Favorecimentos partidários?!

Aqui, a MOSTRA só ficou hospedada, não passou de turismo. Se era "só para o inglês ver", o "inglês" não viu.


terça-feira, junho 29, 2004

A invídia

Lamentava, outro dia (Junho 23, 2004), o desaparecimento de José Carlos Barros e a ausência da sua escrita em Um pouco mais de Sul, onde assinava como jcb.
Sensível a esse meu lamento ofereceu-me um poema inédito, que me dedicou:

  • A invídia
      Para o António


    Nunca adormeças à sombra das figueiras quando
    Todo o seu esforço se concentra em retirar da
    Luz da tarde as mais pequenas
    Vibrações do ar: nesses instantes pode

    Acontecer que os teus nomes e o da água do poço
    Se confundam ou multipliquem numa aritmética
    Sem retorno e só com as últimas manhãs de
    Novembro te seja possível regressar ao alpendre

    De onde saíras para adormecer à sombra das figueiras
    Ignorando que nada podia proteger-te da
    Excessiva luz do meio dia, do logro, das antigas
    Promessas de felicidade e da invídia.

            Cacela, 23 de Junho de 2004

P.S. Já me ofereceu um segundo poema, que prometo publicar brevemente.


segunda-feira, junho 28, 2004

Acédia

Não quero ser acusado de acédia, esse pecado capital a que o ABRUPTO se refere no post das 09h37 do dia 27.6.04, e creio mesmo que estamos perante um assunto de extrema gravidade, sobre o qual todos nos deveremos pronunciar - o da emergência da política-espectáculo, protagonizada pelo político do espectáculo.

Abominaria ver Santana Lopes a liderar os destinos do país mas, desculpem o meu maquiavelismo, preferiria vê-lo por dois anos, sem o apoio de um sufrágio, do que por quatro anos com votação popular, saindo o "tiro pela culatra".
Pior quadro ainda seria ter que aceitá-lo por seis anos, por ausência de uma oposição competente.
Prefiro dois, a quatro ou a seis. "Confio" no homem que deixou a direcção do Sporting para ser presidente da câmara da Figueira, que trocou a câmara da Figueira pela de Lisboa e que agora se prepara para abandonar a câmara de Lisboa e liderar o governo. Talvez isso o impeça de se tornar Presidente da República.

P. S. Complemente esta sua leitura com estoutra, No Arame, sob o título Early Morning Blogs.


sexta-feira, junho 25, 2004

Os ouvidos têm paredes

O título, acima, é uma das máximas que se tornou célebre pelo Maio de 68.
Já a frase que se segue, em baixo, é minha, embora possa ter já sido pronunciada por muitos outros:

  • Em terra de milagres, quem não tem olho não vê.


quinta-feira, junho 24, 2004

Esta euforia deprime-me!

Esta vaga de euforia deprime-me.
Estou a precisar de umas marchas populares, de uma noite com tunas estudantis, de umas eleições com muitos brindes, de um serão no sofá em frente da TVI ou até de um grande jogo de futebol; melhor ainda, talvez, de uma noite de fado, mas sobretudo de um milagre.

Já que, apesar desta euforia, passei por aqui, quero deixar-vos este endereço para o texto, agora aprovado, da Constituição Europeia. É que convém conhecê-la antes de votá-la.


quarta-feira, junho 23, 2004

O olhar atento de quem ama o Sul

Entristece-me esta súbita partida do Zé Carlos; deste amigo que os blogs me trouxeram, aproximando-nos, de afinidade em afinidade, até à amizade pessoal.

Enquanto não regressar vou sentir a ausência da sua escrita, tecida com o sal da maresia e com a cal que guarda a luz e o calor do Sol até um outro dia:

  • Luísa ficou por algum tempo a olhar de longe a curva do caminho e o telhado de casa a adivinhar-se devagar a esta luz do lento amanhecer de fins de Setembro, esta luz coada da alba a desprender-se das árvores e dos matos, esta leve exalação do ar humedecido a levantar-se nos muros virados ao nascente como se o mundo não tivesse acabado e o alvor pudesse ainda trazer por instantes a memória da cal e da água do tanque, o voo das aves, o rumor contínuo da sombra nas encostas da umbria. O tempo não avança. Esta mesma luz subia da praia quando Luísa compreendeu que ficara sozinha na esplanada das dunas e ouvia, como ouve agora à distância, o marulhar do levante na maré-vaza. A mesma luz do parque de estacionamento, noite ainda, poisada no tejadilho dos carros a anunciar um dia quase de Verão. A mesma luz que fazia brilhar pequenos seixos na linha de rebentação quando correu pelo areal deserto e deixou de ver o mar.
    (...)


José Carlos Barros
O dia em que o mar desapareceu
Prémio Manuel Teixeira Gomes - 2002
Edições Colibri/Câmara Municipal de Portimão
Lisboa 2003


sexta-feira, junho 18, 2004

Nocturno

Na sequência do 8º aniversário da morte de David Mourão Ferreira quero compartilhar um seu poema, que tem muito a ver com estas noites quentes do verão que se aproxima e que considero um dos mais eróticos que conheço, se bem que estas coisas do erotismo estejam carregadas de subjectividade.
Retirei-o da Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, de Eugénio de Andrade, numa edição de Campo das Letras, Porto 1999, que "me ofereci" pelo meu aniversário, em 2002.

  • NOCTURNO

    Eram, na rua, passos de mulher.
    Era o meu coração que os soletrava.
    Era, na jarra, além do malmequer,
    espectral o espinho de uma rosa brava...

    Era, no copo, além do gim, o gelo;
    além do gelo, a roda de limão...
    Era a mão de ninguém no meu cabelo.
    Era a noite mais quente deste verão.

    Era, no gira-discos, o Martírio
    de São Sebastião
    , de Debussy...
    Era, na jarra, de repente, um lírio!
    Era a certeza de ficar sem ti.

    Era o ladrar dos cães na vizinhança.
    Era, na sombra, um choro de criança...