O marcador que uso na minha agenda foi-me oferecido por um amigo no regresso de uma sua viagem a Granada. Dobra-se ao meio e prende-se à folha que se pretende marcar através de dois magnetes. Ostenta uma decoração que simula um azulejo mudéjar. De cada vez que o abro, deparo-me com uma bela frase de Az-Zubaidi, poeta do séc. X no Al-Ândalus, que vou transcrever em castelhano, tal como figura neste meu marcador:
Todas las tierras en su diversidad son una, y los hombres todos son vecinos y hermanos.
Promontório e Ermida da Senhora da Rocha, Lagoa, Algarve
Senhora da Rocha
Tu não estás como Vitória à proa Nem abres no extremo do promontório as tuas asas Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados Nem desdobras o teu manto na escultura do vento Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura
Mas no extremo do promontório Em tua pequena capela rouca de silêncio Imóvel muda inclinas sobre a prece O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco
O reino dos antigos deuses não resgatou a morte E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo
Tu sabes que para nós existe sempre O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas Os deuses de mármore afundam-se no mar Homens e barcos pressentem o naufrágio
E por isso não caminhas cá fora com o vento No grande espaço liso da luz branca Nem habitas no centro da exaltação marinha O antigo círculo dos deuses deslumbrados
Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros Assaltada pelo clamor do mar e a vemência do vento Inclinas o teu rosto
Imóvel muda atenta como antena
Sophia de Mello Breyner Andresen Mar Editorial Caminho, Lisboa 2001
Silves assistiu ontem à aplicação de faixas publicitárias nos muros da alcáçova do seu Castelo, património nacional, seguramente mais belo na sua vetusta pedra vermelha - o grés de Silves - do que enfeitado com quaisquer acrescentos, que não representarão outra coisa que não seja um atentado à nossa memória colectiva. Indignado dirigi um veemente protesto, por mensagem telefónica, à Senhora Presidente da Câmara e divulguei-o, com pedido de reenvio, junto dos muitos amigos que constam da minha lista.
Fui surpreendido por um telefonema pessoal da Sra. Presidente, no qual me agradecia por lhe ter chamado a atenção para o facto e informando-me de que aquele aparato não era do seu conhecimento. Teria até já dado ordens para que todo o material então colocado na muralha do Castelo fosse imediatamente retirado.
Fica assim esclarecido este episódio de mau gosto.
Neste meu primeiro post de Julho, o mês em que, faz agora um ano, os blogs se encarregaram de nos aproximar, o prometido poema de José Carlos Barros:
A nostalgia
Um tempo houve em que estendíamos os frutos Na esteira das açoteias como se fosse ainda Possível acrescentar à tarde uma outra luz que a Tarde exasperadamente procurava nas
Suas frases do estio, enquanto as crianças Corriam nos lancis dos canais de rega, Mergulhavam no tanque ou se levantavam em Equilíbrio nas cumeadas distantes. Então as mulheres
Erguiam-se das cadeiras de esparto e vinham Também elas ao pátio, deslumbradas, a olhar as Labaredas imensas e a esconder com o lenço Na cara as lágrimas duma nostalgia sem nome.
Cacela, 24 de Junho de 2004
P.S. Queiram desculpar esta intromissão na poesia, mas neste momento de elevada gravidade política não posso deixar de chamar a atenção de quem me visita para este texto de Pacheco Pereira no Público de 1 de Julho. (Clique aqui)
Os silvenses terão hoje a última oportunidade para visitar a Mostra de Jovens Criadores, que mereceu a atenção elogiosa de grandes jornais nacionais, como o "Público", o "Expresso" e até o "Jornal de Letras". Trata-se, de tal modo, de uma mostra diferente e inovadora, vanguardista, experimental e arrojada, ou não fosse uma MOSTRA juvenil, que me pergunto sobre o porquê da sua realização numa cidade do interior algarvio, onde a palavra cultura é identificada com "Festival da Cerveja" ou "Produções da Fábrica do Inglês" ou, talvez ainda, com o slogan eleitoral de "Silves, capital algarvia da cultura". Há mais coisas, por certo, mas restringem-se à meia centena, um pouco mais ou um pouco menos, de pessoas atentas à oferta cultural de raiz local, afinal as mesmas que, além dos organizadores, jovens criadores, seus amigos e familiares, compareceram de forma regular, interessada e participada nos numerosos eventos que aqui tiveram lugar, particularmente os que decorreram até 12 de Junho.
Que contactos, laços, afinidades ou aprendizagens persistirão depois de terminada a MOSTRA? Que preocupação houve em dar a conhecer, em fazer interessar, os agentes culturais locais? Como se procedeu para animar e incentivar a participação dos jovens que aqui frequentam o 10º, 11º e 12º anos, nomeadamente os de cursos ligados à arte, ou os alunos do Instituto Piaget?
Esta MOSTRA passou ao lado da cidade.
Que venha de novo, que venha outra vez, que venha sempre, mas que venha para estruturar, para criar raízes, para gerar novos públicos, para que se transforme, realmente, num acto cultural de expressão local e não para impressionar quem, ao longe, através de jornais de expressão nacional, julgue tratar-se de descentralização cultural ou da realização da autarquia de uma pequena cidade de província, sem ligações à actual Secretaria de Estado da Juventude e Desportos que, curiosamente, também escolheu Silves como cidade anfitriã da exposição do "Euro '2004". Favorecimentos partidários?!
Aqui, a MOSTRA só ficou hospedada, não passou de turismo. Se era "só para o inglês ver", o "inglês" não viu.
Lamentava, outro dia (Junho 23, 2004), o desaparecimento de José Carlos Barros e a ausência da sua escrita em Um pouco mais de Sul, onde assinava como jcb. Sensível a esse meu lamento ofereceu-me um poema inédito, que me dedicou:
A invídia
Para o António
Nunca adormeças à sombra das figueiras quando Todo o seu esforço se concentra em retirar da Luz da tarde as mais pequenas Vibrações do ar: nesses instantes pode
Acontecer que os teus nomes e o da água do poço Se confundam ou multipliquem numa aritmética Sem retorno e só com as últimas manhãs de Novembro te seja possível regressar ao alpendre
De onde saíras para adormecer à sombra das figueiras Ignorando que nada podia proteger-te da Excessiva luz do meio dia, do logro, das antigas Promessas de felicidade e da invídia.
Cacela, 23 de Junho de 2004
P.S. Já me ofereceu um segundo poema, que prometo publicar brevemente.