quarta-feira, julho 07, 2004

Lhasa de Sela

http://mapage.noos.fr/weblhasa/v2/portrait/fr_portrait.html

 

 

 

 

Permitam-me que me lastime junto de vocês pelo acidente na minha perna esquerda, que me impede de estar hoje no Fórum Lisboa para ouvir Lhasa.


Ouçam-na aqui, em pequenos excertos.

 



A fraternidade no Al-Ândalus

Ibn 'Arabi, de Múrcia, famoso filósofo e místico sufi que, curiosamente, se referiu na sua obra a Ibn Qasi, de Silves, comentando um seu tratado de filosofia - "O Descalçar das Sandálias" - proclamava, em plena época almoada (séc. XII-XIII):


  • "O meu coração abriu-se a todas as formas: é uma pastagem para gazelas, um claustro para monges cristãos, um templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o Alcorão. Pratico a religião do Amor; qualquer que seja a direcção em que as caravanas avancem, a religião do Amor será sempre o meu credo e a minha fé."


P. S. Tradução de Adalberto Alves


terça-feira, julho 06, 2004

O espírito universalista do séc. X

O marcador que uso na minha agenda foi-me oferecido por um amigo no regresso de uma sua viagem a Granada. Dobra-se ao meio e prende-se à folha que se pretende marcar através de dois magnetes. Ostenta uma decoração que simula um azulejo mudéjar. De cada vez que o abro, deparo-me com uma bela frase de Az-Zubaidi, poeta do séc. X no Al-Ândalus, que vou transcrever em castelhano, tal como figura neste meu marcador:


  • Todas las tierras en su diversidad son una, y los hombres todos son vecinos y hermanos.


segunda-feira, julho 05, 2004

Sophia, ainda uma outra vez

Promontório e Ermida da Senhora da Rocha, © Escola Secundária Padre António Martins de Oliveira
Promontório e Ermida da Senhora da Rocha, Lagoa, Algarve
  • Senhora da Rocha

    Tu não estás como Vitória à proa
    Nem abres no extremo do promontório as tuas asas
    Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados
    Nem desdobras o teu manto na escultura do vento
    Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura

    Mas no extremo do promontório
    Em tua pequena capela rouca de silêncio
    Imóvel muda inclinas sobre a prece
    O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco

    O reino dos antigos deuses não resgatou a morte
    E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte
    É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo
    Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo

    Tu sabes que para nós existe sempre
    O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas
    Os deuses de mármore afundam-se no mar
    Homens e barcos pressentem o naufrágio

    E por isso não caminhas cá fora com o vento
    No grande espaço liso da luz branca
    Nem habitas no centro da exaltação marinha
    O antigo círculo dos deuses deslumbrados

    Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros
    Assaltada pelo clamor do mar e a vemência do vento
    Inclinas o teu rosto

    Imóvel muda atenta como antena


Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar
Editorial Caminho, Lisboa 2001


sábado, julho 03, 2004

Não é assim que quero "Viver Silves"

Publicidade de empresa privada no Castelo de Silves, Julho 2004 © Manuel Ramos
Publicidade no Castelo de Silves

Silves assistiu ontem à aplicação de faixas publicitárias nos muros da alcáçova do seu Castelo, património nacional, seguramente mais belo na sua vetusta pedra vermelha - o grés de Silves - do que enfeitado com quaisquer acrescentos, que não representarão outra coisa que não seja um atentado à nossa memória colectiva.
Indignado dirigi um veemente protesto, por mensagem telefónica, à Senhora Presidente da Câmara e divulguei-o, com pedido de reenvio, junto dos muitos amigos que constam da minha lista.

Fui surpreendido por um telefonema pessoal da Sra. Presidente, no qual me agradecia por lhe ter chamado a atenção para o facto e informando-me de que aquele aparato não era do seu conhecimento. Teria até já dado ordens para que todo o material então colocado na muralha do Castelo fosse imediatamente retirado.

Fica assim esclarecido este episódio de mau gosto.


sexta-feira, julho 02, 2004

Sophia

  • Atlântico

    Mar
    Metade da minha alma é feita de maresia


Sophia de Mello Breyner Andresen
MAR
Editorial Caminho, Lisboa 2001


P. S. Há mais Sophia ao fundo desta página e muito mais ainda aqui.


A nostalgia

Neste meu primeiro post de Julho, o mês em que, faz agora um ano, os blogs se encarregaram de nos aproximar, o prometido poema de José Carlos Barros:

  • A nostalgia

    Um tempo houve em que estendíamos os frutos
    Na esteira das açoteias como se fosse ainda
    Possível acrescentar à tarde uma outra luz que a
    Tarde exasperadamente procurava nas

    Suas frases do estio, enquanto as crianças
    Corriam nos lancis dos canais de rega,
    Mergulhavam no tanque ou se levantavam em
    Equilíbrio nas cumeadas distantes. Então as mulheres

    Erguiam-se das cadeiras de esparto e vinham
    Também elas ao pátio, deslumbradas, a olhar as
    Labaredas imensas e a esconder com o lenço
    Na cara as lágrimas duma nostalgia sem nome.

            Cacela, 24 de Junho de 2004

P.S. Queiram desculpar esta intromissão na poesia, mas neste momento de elevada gravidade política não posso deixar de chamar a atenção de quem me visita para este texto de Pacheco Pereira no Público de 1 de Julho.
(Clique aqui)