
Permitam-me que me lastime junto de vocês pelo acidente na minha perna esquerda, que me impede de estar hoje no Fórum Lisboa para ouvir Lhasa.
Ouçam-na aqui, em pequenos excertos.
Ibn 'Arabi, de Múrcia, famoso filósofo e místico sufi que, curiosamente, se referiu na sua obra a Ibn Qasi, de Silves, comentando um seu tratado de filosofia - "O Descalçar das Sandálias" - proclamava, em plena época almoada (séc. XII-XIII):
"O meu coração abriu-se a todas as formas: é uma pastagem para gazelas, um claustro para monges cristãos, um templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o Alcorão. Pratico a religião do Amor; qualquer que seja a direcção em que as caravanas avancem, a religião do Amor será sempre o meu credo e a minha fé."
O marcador que uso na minha agenda foi-me oferecido por um amigo no regresso de uma sua viagem a Granada. Dobra-se ao meio e prende-se à folha que se pretende marcar através de dois magnetes. Ostenta uma decoração que simula um azulejo mudéjar. De cada vez que o abro, deparo-me com uma bela frase de Az-Zubaidi, poeta do séc. X no Al-Ândalus, que vou transcrever em castelhano, tal como figura neste meu marcador:

Senhora da Rocha
Tu não estás como Vitória à proa
Nem abres no extremo do promontório as tuas asas
Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados
Nem desdobras o teu manto na escultura do vento
Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura
Mas no extremo do promontório
Em tua pequena capela rouca de silêncio
Imóvel muda inclinas sobre a prece
O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco
O reino dos antigos deuses não resgatou a morte
E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte
É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo
Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo
Tu sabes que para nós existe sempre
O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas
Os deuses de mármore afundam-se no mar
Homens e barcos pressentem o naufrágio
E por isso não caminhas cá fora com o vento
No grande espaço liso da luz branca
Nem habitas no centro da exaltação marinha
O antigo círculo dos deuses deslumbrados
Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros
Assaltada pelo clamor do mar e a vemência do vento
Inclinas o teu rosto
Imóvel muda atenta como antena

Silves assistiu ontem à aplicação de faixas publicitárias nos muros da alcáçova do seu Castelo, património nacional, seguramente mais belo na sua vetusta pedra vermelha - o grés de Silves - do que enfeitado com quaisquer acrescentos, que não representarão outra coisa que não seja um atentado à nossa memória colectiva.
Indignado dirigi um veemente protesto, por mensagem telefónica, à Senhora Presidente da Câmara e divulguei-o, com pedido de reenvio, junto dos muitos amigos que constam da minha lista.
Fui surpreendido por um telefonema pessoal da Sra. Presidente, no qual me agradecia por lhe ter chamado a atenção para o facto e informando-me de que aquele aparato não era do seu conhecimento. Teria até já dado ordens para que todo o material então colocado na muralha do Castelo fosse imediatamente retirado.
Fica assim esclarecido este episódio de mau gosto.
Atlântico
Mar
Metade da minha alma é feita de maresia
Sophia de Mello Breyner Andresen
MAR
Editorial Caminho, Lisboa 2001
Neste meu primeiro post de Julho, o mês em que, faz agora um ano, os blogs se encarregaram de nos aproximar, o prometido poema de José Carlos Barros: