terça-feira, agosto 17, 2004

O encanto das primeiras impressões

Uma rua em Xauen, Marrocos, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira
Deixo os óxidos amarelos da Igreja de Santiago, em Tavira, para vos apresentar os azuis de Xauen.
Do registo de memórias retiro este trecho das minhas primeiras impressões:

  • (...)
    Resguardada no interior das montanhas do Rif, Xauen tem esse encanto de um passado que se confunde com o meu, quando menino, na pequena aldeia de Alcantarilha, brincando pela tarde, até ao toque das "Trindades", aqui o canto do almuadem, numa rua recheada de crianças, experienciando o mundo envolvente e as cercanias.
    Crianças em Xauen, Marrocos, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira
    As gentes de Xauen têm essa meninice simpática e deslumbrada, curiosa com o que lhe é estranho, sorrindo, cumprimentando, tentando aproximar-se de quem os visita, recebendo e acolhendo com uma sinceridade que não é isenta de algum interesse, se bem que venial e cativantemente inocente.



segunda-feira, agosto 16, 2004

Regressei

Deixei, junto às memórias de viagem que fui registando, um texto final em jeito de síntese:

  • O que mais me surpreendeu nesta minha viagem a Xauen, no Norte de Marrocos, não foi o exótico ou o que de oriental tem a cultura muçulmana, mas antes aquilo com que me identifico e que me é mais próximo, afinal o que me motivou para a viagem, e tem a ver com o passado comum e esta idiossincrasia mediterrânica.

Igreja de Santiago, Tavira, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira

Este final de semana, de passeio por Tavira, o que me surprendeu o olhar foi a Igreja de Santiago, a do apóstolo da Península Ibérica e padroeiro da "Reconquista".

O seu arquitecto deixou marcas evidentes do seu gosto mediterrânico, quase bizantino diria eu, "traindo" o visigodo "reconquistador" de Tavira e a sua Ordem de Santiago, que pouco ou nada deveria apreciar destas terras e destas gentes do Sul, que tanto gostam destes óxidos amarelos (e azuis) que se desenham na alvura da cal.


sexta-feira, julho 23, 2004

O repouso do blog

Vou de férias!
Vou em busca de mais memórias da civilização do Al-Ândalus, que a Lua, em cima, pretende simbolizar. Vou até Marrocos, num curso de verão que me é proporcionado pela Fundação Al-Idrisi, conhecer, mais de perto, os testemunhos ainda vivos desses antepassados que habitaram antes esta terra a que hoje chamo minha e cuja herança convive comigo, todos os dias, na arquitectura, na poesia e até na tonalidade da minha pele.
Regressarei lá para meados de Agosto.
Deixo-vos com esta evocação de Silves, que o Helder Raimundo generosa e simpaticamente me ofereceu.

  • SILVES

    Olho o que resta do rio,
    ao fundo do vale,
    correndo entre os canaviais que o escondem,
    como se fosse um encantamento de sede.
    E recordo
    as belas palavras do poeta árabe Ibn ' Ammar,
    fazendo deslizar, suavemente, os seus poemas
    entre o castelo, a praça e o rio Arade.
    Breve instante,
    a miríade gasosa de acidez da laranja baía,
    convoca-me os dedos e os lábios para o seu amargo sabor doce,
    entre as argilas barrentas do rio, as enguias caracoleantes e os rouxinóis.
    Que saudades, de subir as íngremes histórias da cidade,
    sentindo a frescura dos laranjais e as vozes dos poetas de Silves.

              Fevereiro de 2004
              Um abraço do Helder F. Raimundo


P.S. Se, por acaso, tiver acessso à Internet, poderei, assim, graças ao Helder, matar saudades da minha terra.
Obrigado, Helder!


quinta-feira, julho 22, 2004

Ainda os símbolos e a preocupação com a imagem

+

Na sequência do que aqui escrevi sobre a "nova imagem de Silves", propôs-se também escrever Helder Raimundo, no seu Contrasenso, a propósito da recente mudança do símbolo de Loulé, desta moda dos novos símbolos e do que a mudança dos símbolos quer significar.
Aconselho vivamente a leitura do seu post, a que é possível aceder clicando na palavra sublinhada - Contrasenso - apesar desta transcrição de um excerto que considero significativo:

    (...) A preocupação é a imagem, o vestuário, o embrulho, no fundo, o símbolo. Mas nunca o símbolo precedeu o facto social. Sempre foi o contrário. Por isso apostar numa simbologia, sem factos, é como chover no molhado. Melhor seria, lembrando Ralf Dahrendorf, construir o território social em actos antes de falar em símbolos abstractos.



quarta-feira, julho 21, 2004

Esta alegria que vem não sei de onde, nem porquê

Três posts sucessivos com Casimiro de Brito!?
Estes três posts também representam três dias sucessivos do seu diário e o que eles me dizem, e que convosco pretendo partilhar, tornou-se mais urgente do que as outras coisas que eu, porventura, poderia querer dizer. A 21 de Julho de 2000, Casimiro escrevia:

    Não direi que esqueci os rostos de que não me lembro. Que não permanecem algures no meu ouvido os poemas que esqueci. Que deixei de amar quem amei. Não direi que perdi as veredas por onde caminhei na infância, lembro-me de alguma coisa, não sei de quê, um fio de água que se perdeu na terra do ser quando a terra do ser foi fresca. Há esconderijos que desconheço, raízes, cisternas cobertas de relva, há, é preciso que haja alguma coisa escondida para que se possa explicar esta alegria que vem não sei de onde, nem porquê.



terça-feira, julho 20, 2004

Uma luz que dói

Retorno a Casimiro de Brito. Hoje, na página do seu diário com data de 20 de Julho:

    Ensino à menina: os castelos que fazemos na areia desmoronam-se em poucas horas. Não chores. As casas onde moramos duram um pouco mais. E nós, pai? Umas vezes um pouco mais, outras vezes um pouco menos.

    Escrever é como se fosse na areia. As palavras têm a intensidade de uma concha na palma da mão - uma concha que tivesse também um coração. Vem depois uma onda, um rebanho de ondas que levam a concha para longe. O mistério do coração.

    A poesia de Sophia. Tanta serenidade. Parece que há só luz. A luz de uma escrita que "transcreve" o essencial da vida, ao lado e longe e dentro e ainda longe do sujo, embora o aceite, embora o resuma. Uma luz que dói. Uma dor que ela parece aceitar como se fosse apenas o mundo a mudar, o corpo. Assim é.

      • Sophia de Mello Breyner Andresen
        (Porto, 1919)

        Meditação do Duque de Gândia sobre a morte de Isabel de Portugal

        Nunca mais
        A tua face será pura limpa e viva
        Nem o teu andar como onda fugitiva
        Se poderá nos passos do tempo tecer.
        E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

        Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
        A luz da tarde mostra-me os destroços
        Do teu ser. Em breve a podridão
        Beberá os teus olhos e os teus ossos
        Tomando a tua mão na sua mão.

        Nunca mais servirei quem não possa viver
        Sempre,
        Porque eu amei como se fossem eternos
        A glória, a luz e o brilho do teu ser,
        Amei-te em verdade e transparência
        E nem sequer me resta a tua ausência,
        És um rosto de nojo e negação
        E eu fecho os olhos para não te ver.

        Nunca mais servirei senhor que possa morrer.



segunda-feira, julho 19, 2004

Os olhos com que nós vemos

Faz tempo que não partilho convosco algumas das reflexões que Casimiro de Brito publicou, em forma de diário do ano 2000, n'A Barca do Coração, Campo das Letras, Porto 2001.
Com data de 19 de Julho, faz hoje quatro anos, escrevia:

    Esta manhã vi sardinheiras na janela do vizinho. Ou eram buganvílias? E vi uma ninhada de gatinhos no terreno vago diante da casa. O facto de ter visto o que vi - vi também que são verdes e tristes os olhos da jovem que sobe a rua, quando a desço - quererá dizer que estou a reaprender a olhar? Ou que nunca olhei? Ou que só vi o que desejava ver? Vou olhar melhor. E lembrei-me, não sei porquê, que posso guardar um livro, jamais um corpo, por mais amado que seja. E que não amo só quando amo - e quem diz amar diz lembrar ou esquecer ou sentir repulsa, medo, angústia. Vou pensar melhor.


P.S. Acabei de chegar do concerto dos Terracota e Da Weasel, em Lagoa.