sexta-feira, setembro 10, 2004

Gosta de códigos? (II)

Eu não gostei do código de Dan Brown.
Não o digo pela sua escrita que, apesar de cinematográfica, me empolgou como num romance policial por breves capítulos, de capítulo em capítulo, de mistério a enigma, em suspense, conduzido, quase subjugado acriticamente. Escrever assim não é fácil, mas é facilitista, e esse facilitismo fatigou-me e é abusivo.

É esse facilitismo que faz com que esta ficção se mascare de romance histórico, quando o não é:

    - Não porque destoe do discurso oficial, antes porque carece da exigência do rigor a que um romance histórico não pode ceder, sem deixar de o ser (quem nos informa que o romance é histórico é o próprio autor, com a sua estranha página - Facto - a anteceder o Prólogo).

    - Não porque me repugne aceitar o casamento de Jesus Cristo com Maria Madalena (que tanta polémica gerou, "inadvertidamente" publicitando o romance), mas antes porque o patriarcalismo e a atribuição de um papel secundário à mulher são conceitos e práticas judaicas, que o cristianismo herdou naturalmente, antes ainda da suposta reescrita bíblica de Constantino, como se sugere no romance.

    - Não porque não me encantem os mistérios, os rituais, os jogos secretos dos Templários, dos Rosacruz, da Maçonaria e quejandos, bem como os códices, os códigos, os enigmas, as cifras, as cabalas, que aprecio (q.b.), mas antes a sua quase ridícula inconsistência:

    • Langdon, famoso simbologista, precisa de alguns capítulos para conseguir identificar o Homem de Vitrúvio, que me ocorreu imediatamente na sequência da descrição da posição do corpo de Jacques Saunière e não sou um especialista, nem simbologista, nem nada. (Espero que entendam que o problema não está em que eu o tenha identificado, mas sim na demora de tão excelsos especialistas em fazê-lo.)

    • Um simbologista, uma criptologista, e um profundo conhecedor do Priorado de Sião perdem um tempo inacreditável para conseguir identificar a escrita que se encontrava sob a rosa embutida e eu, antes ainda de iniciar a leitura do romance, simplesmente ao desfolhá-lo e ao deparar-me com aquele tipo de escrita, reconheci de imediato a escrita reflexa, dos códices de Leonardo Da Vinci, legíveis através de um espelho. (Não é por gabarolice minha e, mesmo que o fosse, essa escrita é perfeitamente identificável por qualquer leigo que alguma vez a tenha visto.) O que me espanta é que, no romance, essa escrita não é imediatamente identificada por especialistas e isso não é credível.

    • os especialistas, no romance, perdem horas e enredam-se em esquemas supostamente complexos para descobrir o código de abertura do criptex. Eu, na sequência da leitura do texto "Uma antiga palavra de sabedoria este rolo liberta...", apercebi-me logo de SOFIA. Só quem não estudou Filosofia ou não conhece o significado dessa palavra! Isto não é complexidade do enredo, como refere o editor na contracapa, é brincar com a eventual ignorância dos leitores e isso não é honesto.

    • O acto de "fazer a dobra", numa tabela, para decifrar o atbash, e que conduz à descoberta da chave - SOFIA - para a abertura do criptex, merece rasgados elogios de Teabing, que exclama:"Fico contente por verificar que os rapazes de Holloway estão a fazer o seu trabalho". Eu aprendi a "fazer a dobra", (aquela dobra e não a dos lençóis) no quartel da Trafaria, durante a instrução militar e aprendizagem de cifras, mesmo sem frequentar o Royal Holloway, supostamente um famoso colégio. E esse conhecimento é elementar, se me permitem a informação.
      Langdon até acha que Teabing é um fenómeno de sabedoria porque conhece de memória as 22 letras do alfabeto hebraico, como se fosse algo particularmente meritório e chega a comentar a excelente pronúncia de Teabing quando lê o hebraico. Logo ele, Langdon, que não conhece sequer de memória o tal supostamente difícil alfabeto.

Enfastiei-me, fatiguei-me, "arrastei-me" até à desilusão do desenlace final (que certamente irá ser corrigido na versão para cinema, que já se sugere e adivinha).

Eu gosto de códigos, fascinam-me os códices de Da Vinci, mas detesto esta literatura cinematográfica, facilitista, desonesta, abusiva, de top de vendas, de "O Código de Da Vinci".

P.S. Desculpem a extensão do texto, pouco prática neste ambiente de leitura, mas dá para um fim-de-semana, que desejo muito agradável para todos.


quinta-feira, setembro 09, 2004

Gosta de códigos? (I)

Como se exprime quem tem pouco vocabulário? Naturalmente que em discurso directo: eu disse, ele disse, o outro disse, reproduzindo um diálogo.
O discurso directo é, literariamente, um recurso simplista, se bem que passível de gerar uma escrita viva, espontânea, dinâmica, emocional e afectivamente atraente.
O discurso directo está na base da escrita dramática, como a do autor de teatro. O que está para além do que dizem os actores, intui-se a partir das suas interpretações, da cenografia, de toda a envolvência e códigos de comunicação de que se serviu o encenador.
No cinema é também o discurso directo do argumentista que serve a linguagem dos actores e é a base de trabalho dos técnicos de estúdio, dos da iluminação, dos da câmara, de toda a panóplia de recursos e códigos de comunicação de que se serve o realizador.
A literatura, só por si, não pode recorrer aos actores, nem aos encenadores, cenógrafos, realizadores... tem um código próprio e é um trabalho de autor.

Exige menos esforço ver televisão ou cinema do que teatro, que já não tem a mediação da câmara a facultar um outro olhar que não o nosso, ou do que a literatura, onde o envolvimento é criado por descrições mais ou menos longas, enriquecidas por recursos estilísticos ou de vocabulário, a exigir um percurso anterior, uma aprendizagem, uma certa regularidade, até mesmo, talvez, hábitos de escrita.

O cinema e a televisão trouxeram ao grande público a capacidade de captar os ritmos, os movimentos, as sugestões, quase como na vida real, gerando reminiscências que permitem vivenciar com maior facilidade a literatura do discurso directo.
A literatura do discurso directo é a base da escrita cinematográfica.

A escrita cinematográfica é de leitura fácil, poderia ser barata e dá milhões.

      (Continua em breve, neste blog perto de si)


quarta-feira, setembro 08, 2004

A poesia árabe "pré-peninsular" (III)

Culminando esta incursão pela poesia árabe clássica, que não tem outra pretensão senão a de vos despertar a eventual curiosidade, venho hoje na companhia daquele que alguns costumam referenciar como "o maior poeta dos árabes" - Al-Mutanabbi (séc. X).

Aquele século, marcado pela descentralização do poder califal e decomposição do império, marca também, no mundo da poesia, o retorno aos modelos antigos, do classicismo, ao domínio dos valores beduínos sobre os urbanos.

  • Lo bueno de la civilización urbana siempre viene de fuera;
    lo bueno es, en cambio, consustancial a la vida beduina.

    • Sé humilde ante ella.
      Esté lejos o cerca, sométete,
      pues quien no ama no se humilla ni se somete.

      • Los caballeros y la noche me conocen.
        Me conoce el desierto,
        me conoce la guerra.
        Y el papel y la pluma me conocen también.

        • Yo soy aquél cuyas palabras lee el ciego y escucha el sordo.


terça-feira, setembro 07, 2004

A poesia árabe "pré-peninsular" (II)

Este post de hoje foi-me praticamente sugerido pelo regresso de ontem à poesia luso-árabe, de que andava arredio desde o passado mês de Julho, e vem na sequência de um outro aqui publicado, a propósito da poesia árabe clássica.

Assim como aconteceu quando da deslocação da sede do califado omíada para Damasco (661-750) (como refiro no post atrás citado), gerando um período muito vivo de criatividade e inovação, acontece também com a emergência do califado abássida e a transferência da sua sede para Bagdad.
Os novos povos incorporados no império - com particular destaque para os persas, que passam a ocupar elevados cargos ao nível da administração central e ganham relevância na criação literária - são portadores de novas culturas não árabes, se bem que arabizadas e islamizadas pela assimilação neste novo império e nesta nova sociedade sedentária, urbana, culta e próspera.

Bassar ibn Burd (séc. VIII), é um óptimo representante da nova tendência poética, de que vos trago dois poemas: o primeiro pela sua carga de nacionalismo anti-árabe (Bassar é iraniano) e o segundo pelas novas imagens da sua nova retórica.

  • Acusación

    Oh, Ibn Nahiya, una cabeza es ya mucho peso como para soportar dos.
    Sirvan otros a dos señores, que a mí con uno me basta.

      • La noche

        Ya sen ellos,
        cuando la noche se me hace eterna,
        me pregunto si a la noche sucederá el día.
        Mis ojos, como si los párpados les quedasen pequeños,
        ya no se cierran.
        Su corazón parece una pelota brincando en vano
        sin conseguir unirlos.


segunda-feira, setembro 06, 2004

Um poeta de Loulé

Abu-l-Rabi Sulayman ibn 'Isa al-Kuthayyir é natural de al-'Ulia (Loulé). Viveu no séc. XIII.

  • na hora do adeus, o corvo as asas vi bater
    e julguei que no voar levava o meu coração.
    só ele foi alegre naquele entardecer,
    e não falso ao mostrar luto então.

      • o que me dá prazer não é o vinho, não!
        nem a música, nem o canto.
        só os livros são o meu encanto
        e a pena, espada sempre à mão.

Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1998


sexta-feira, setembro 03, 2004

Um edifício feito para o silêncio

Satisfiz, finalmente, uma das curiosidades que me assaltava de cada vez que subia até às margens do Tâmega: a igreja de Marco de Canaveses, de Siza Vieira.

Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira

Chegado ao local apercebi-me de que já antes havia avistado aquele edifício, que supunha tratar-se da nova Câmara Municipal, dadas a sua dimensão, a simplicidade surpreendente da contemporaneidade das suas linhas e a austeridade do muro de pedra, de suporte e porte institucionais. Ainda a forma como se integrava tão naturalmente na malha urbana.

Rodeei todo o local, feito de cantos e recantos de silêncio.

Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira
Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira
Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira


Atrevi-me a entrar.

S I L Ê N C I O.

É uma catedral de silêncio.
Alta. Ampla. Nua.

Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira


Onde, até o corrrer da água da pia baptismal afirma o silêncio e a nudez límpidos do local.

Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta OliveiraMarco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira


Onde o mobiliário é o minimamente indispensável ao(s) oficiante(s) e seus fiéis.

Marco de Canaveses, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira


Onde até uma longa fresta, aberta sobre a cidade e o campo que a envolve, lembra que há todo um mundo ali ao lado, tão próximo que é possível avistar, a justificar o silêncio e a meditação.


quinta-feira, setembro 02, 2004

Ao encontro das raízes

Moinhos de Maré do Seixal, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira

Sair ao encontro das raízes é também avistar o Mar da Palha e passear pela Margem Esquerda, da Piedade ao Seixal e ao Barreiro, para onde partiram, em ondas migratórias sucessivas, os operários corticeiros que um dia construíram esta Silves industrial de que só restam muros e quintais de fábricas abandonadas, topónimos que soam a gente endinheirada, com Mascarenhas e Vilarinhos, ou de gente indiscriminada, com operários e corticeiros, edifícios que se degradam e entristecem feitos blocos, anónimos, de apartamentos, e que rara, mas exemplarmente, vão merecendo a sorte de um restauro ou de uma requalificação.

Seixal, Agosto 2004, © António Baeta Oliveira

O mesmo se passa aqui neste mar quedo de destroços de uma sociedade que morreu, esquecida nas traseiras dos novos bairros, e de que só ficaram os mais velhos, a nostalgia e os escombros, e a lembrarão os museus e a História.