Eu não irei prosseguir com estas traduções do prólogo de "El collar de la paloma", nem porventura com transcrições de trechos dos vários capítulos do tratado de Ibn Hazm sobre o amor. Se o fizesse, envolver-me-ia num trabalho incomportável e inadequado a este meio de comunicação. Quero no entanto confessar-vos que, mesmo neste preciso momento em que vos escrevo, dificilmente resisto a não partilhar algumas ideias de Ortega y Gasset, plenas de saber e por vezes recheadas de fino e subtil humor, sobre a transferência e a integração de novas ideias, sobre a escolástica e, em especial, sobre o profundo significado da palavra "amor".
Sabiam que esta nossa palavra - amor - herdada do latim, não tem origem romana, mas etrusca, língua desconhecida, hoje? Pois Ortega y Gasset questiona-se sobre o porquê da adopção romana dessa palavra e produz curiosas elucubrações a propósito.
Eu não vos dizia que não consigo parar!?
Aconselho então, vivamente:
Ibn Hazm
El collar de la paloma
Versión de Emilio García Gómez
Alianza Editorial, Madrid 2004
quinta-feira, setembro 16, 2004
Ibn Hazm, García Gómez , Ortega y Gasset
quarta-feira, setembro 15, 2004
Ainda o prólogo de "El Collar de la Paloma"
"(...) A Idade Média europeia é, na sua realidade, inseparável da civilização islâmica, já que consiste precisamente na convivência, à sua vez positiva e negativa, de cristianismo e islamismo sobre uma área comum impregnada pela cultura greco-romana. (...) A própria religião islâmica procede da cristã, mas esta procedência nunca teria tido lugar se os povos europeus e os povos árabes não tivessem penetrado na área ocupada durante séculos pelo Império Romano. Os germanos e os árabes eram povos periféricos, alojados nas margens daquele império e a história da Idade Média é a história do que se passa com esses povos à medida que vão penetrando no mundo imperial romano, instalando-se nele e absorvendo porções da sua cultura rígida e já necrosificada. A Idade Média, de certa maneira, é o processo de uma gigantesca recepção, a da cultura antiga por povos de cultura primitiva. E a génese cristã do islamismo não é senão um caso particular dessa recepção, produzida pelo mesmo mecanismo histórico que levou os árabes do séc. IX a acolher Aristóteles, Hipócrates, Galeno, Euclides, Diofanto e Ptolomeu. Esquece-se demasiado que os árabes, antes de Maomé, viveram sete séculos rodeados por todos os lados de povos que estavam mais ou menos helenizados e que tinham vivido sob administração romana. Não é só da Síria que sopra sobre os árabes o grande vento da Antiguidade, mas também da Pérsia, da Bactriana e da Índia. Por sua vez a Europa, pelo seu lado norte, manteve-se livre das influências greco-romanas e pôde conservar por mais tempo intactas as raízes do seu primitivismo.
(...) A minha ideia é a de que, ao começar a chamada Idade Média, germanismo e arabismo são dois corpos históricos homogéneos no que concerne à situação básica da sua vida, e que só depois, a pouco e pouco, se vão diferenciando, até chegar nestes últimos séculos, a uma radical heterogeneidade.
A opinião contrária, que é a usual, surgiu por geração espontânea, irreflexivamente - coisa tão frequente nos historiadores - porque projectaram sobre aqueles primeiros séculos medievais a imagem de extrema heterogeneidade que hoje nos oferecem os dois grupos de povos. (...)"
terça-feira, setembro 14, 2004
"El Collar de la Paloma"
É o título do livro que me ocupa de momento (ainda não vertido para a língua portuguesa). Um tratado sobre o amor e os amantes. Esta obra é considerada como a melhor do seu autor - إبن حزم - Ibn Hazm (sécs. X-XI) - e de toda a literatura árabe do al-Andalus.
Quero compartilhar convosco algumas considerações produzidas por José Ortega y Gasset no prólogo desta versão espanhola de Emilio García Gómez, sobre a questão das nacionalidades e da herança cultural que nos foi legada:
"(...) É claro que ao chamar árabe "espanhol" a Ibn Hazm, atribuo-lhe a sério o arabismo e com informalidade a hispanidade.
Sem que pretenda estorvar que cada um proceda como lhe apraz, não estou disposto, por minha parte, a aventurar-me a chamar a sério "espanhol" a quem quer que nasça em território peninsular, mesmo que de sangue "indígena" e ainda que aqui tenha vivido toda a sua vida.
A territorialidade e o plasma sanguíneo são os últimos atributos que podem qualificar a nacionalidade de um homem, isto é, a substância histórica de que é feito, e só têm eficácia quando antes se reúnam nele todos os outros. A prova simples e notória reside em que, vice-versa, se pode ser espanhol até ao grau mais superlativo sem que nunca se tenha visto terra espanhola e, igualmente, pode ser-se espanhol tendo muito pouco ou nenhum sangue da nossa casta. E isto, que é verdade agora, quando a Espanha há muito tempo atingiu a plenitude da sua nacionalidade, era-o muito mais nos séculos X e XI, quando a "coisa" a que chamamos Espanha começava simplesmente a germinar.
Todos estes qualificativos "nacionais" significam, com maior exactidão, a pertença substantiva a uma determinada sociedade, e a sociedade árabe do al-Andalus era distinta e diversa da sociedade ou sociedades não-árabes que nesse tempo habitavam Espanha.
Mas isto não impede que a nossa relação com os árabes do al-Andalus, ou "espanhóis", não implique para nós certos deveres no que respeita à sua memória; deveres que, em última análise, se fundamentam na vantagem que usufruímos ao cumpri-los, já que ao fazê-lo alimentamos a nossa própria substância, enriquecendo e aperfeiçoando a nossa hispanidade. (...)"
segunda-feira, setembro 13, 2004
Sophia, em Setembro
O "JL" acaba de editar, numa selecção de José Carlos Vasconcelos, "Cem poemas de Sophia".
Dionysos
Entre as árvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.
A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguia os deuses dos mortais.
sexta-feira, setembro 10, 2004
Gosta de códigos? (II)
Eu não gostei do código de Dan Brown.
Não o digo pela sua escrita que, apesar de cinematográfica, me empolgou como num romance policial por breves capítulos, de capítulo em capítulo, de mistério a enigma, em suspense, conduzido, quase subjugado acriticamente. Escrever assim não é fácil, mas é facilitista, e esse facilitismo fatigou-me e é abusivo.
É esse facilitismo que faz com que esta ficção se mascare de romance histórico, quando o não é:
- Não porque destoe do discurso oficial, antes porque carece da exigência do rigor a que um romance histórico não pode ceder, sem deixar de o ser (quem nos informa que o romance é histórico é o próprio autor, com a sua estranha página - Facto - a anteceder o Prólogo).
- Não porque me repugne aceitar o casamento de Jesus Cristo com Maria Madalena (que tanta polémica gerou, "inadvertidamente" publicitando o romance), mas antes porque o patriarcalismo e a atribuição de um papel secundário à mulher são conceitos e práticas judaicas, que o cristianismo herdou naturalmente, antes ainda da suposta reescrita bíblica de Constantino, como se sugere no romance.
Langdon, famoso simbologista, precisa de alguns capítulos para conseguir identificar o Homem de Vitrúvio, que me ocorreu imediatamente na sequência da descrição da posição do corpo de Jacques Saunière e não sou um especialista, nem simbologista, nem nada. (Espero que entendam que o problema não está em que eu o tenha identificado, mas sim na demora de tão excelsos especialistas em fazê-lo.)
Um simbologista, uma criptologista, e um profundo conhecedor do Priorado de Sião perdem um tempo inacreditável para conseguir identificar a escrita que se encontrava sob a rosa embutida e eu, antes ainda de iniciar a leitura do romance, simplesmente ao desfolhá-lo e ao deparar-me com aquele tipo de escrita, reconheci de imediato a escrita reflexa, dos códices de Leonardo Da Vinci, legíveis através de um espelho. (Não é por gabarolice minha e, mesmo que o fosse, essa escrita é perfeitamente identificável por qualquer leigo que alguma vez a tenha visto.) O que me espanta é que, no romance, essa escrita não é imediatamente identificada por especialistas e isso não é credível.
os especialistas, no romance, perdem horas e enredam-se em esquemas supostamente complexos para descobrir o código de abertura do criptex. Eu, na sequência da leitura do texto "Uma antiga palavra de sabedoria este rolo liberta...", apercebi-me logo de SOFIA. Só quem não estudou Filosofia ou não conhece o significado dessa palavra! Isto não é complexidade do enredo, como refere o editor na contracapa, é brincar com a eventual ignorância dos leitores e isso não é honesto.
O acto de "fazer a dobra", numa tabela, para decifrar o atbash, e que conduz à descoberta da chave - SOFIA - para a abertura do criptex, merece rasgados elogios de Teabing, que exclama:"Fico contente por verificar que os rapazes de Holloway estão a fazer o seu trabalho". Eu aprendi a "fazer a dobra", (aquela dobra e não a dos lençóis) no quartel da Trafaria, durante a instrução militar e aprendizagem de cifras, mesmo sem frequentar o Royal Holloway, supostamente um famoso colégio. E esse conhecimento é elementar, se me permitem a informação.
Langdon até acha que Teabing é um fenómeno de sabedoria porque conhece de memória as 22 letras do alfabeto hebraico, como se fosse algo particularmente meritório e chega a comentar a excelente pronúncia de Teabing quando lê o hebraico. Logo ele, Langdon, que não conhece sequer de memória o tal supostamente difícil alfabeto.
- Não porque não me encantem os mistérios, os rituais, os jogos secretos dos Templários, dos Rosacruz, da Maçonaria e quejandos, bem como os códices, os códigos, os enigmas, as cifras, as cabalas, que aprecio (q.b.), mas antes a sua quase ridícula inconsistência:
Enfastiei-me, fatiguei-me, "arrastei-me" até à desilusão do desenlace final (que certamente irá ser corrigido na versão para cinema, que já se sugere e adivinha).
Eu gosto de códigos, fascinam-me os códices de Da Vinci, mas detesto esta literatura cinematográfica, facilitista, desonesta, abusiva, de top de vendas, de "O Código de Da Vinci".
P.S. Desculpem a extensão do texto, pouco prática neste ambiente de leitura, mas dá para um fim-de-semana, que desejo muito agradável para todos.
quinta-feira, setembro 09, 2004
Gosta de códigos? (I)
Como se exprime quem tem pouco vocabulário? Naturalmente que em discurso directo: eu disse, ele disse, o outro disse, reproduzindo um diálogo.
O discurso directo é, literariamente, um recurso simplista, se bem que passível de gerar uma escrita viva, espontânea, dinâmica, emocional e afectivamente atraente.
O discurso directo está na base da escrita dramática, como a do autor de teatro. O que está para além do que dizem os actores, intui-se a partir das suas interpretações, da cenografia, de toda a envolvência e códigos de comunicação de que se serviu o encenador.
No cinema é também o discurso directo do argumentista que serve a linguagem dos actores e é a base de trabalho dos técnicos de estúdio, dos da iluminação, dos da câmara, de toda a panóplia de recursos e códigos de comunicação de que se serve o realizador.
A literatura, só por si, não pode recorrer aos actores, nem aos encenadores, cenógrafos, realizadores... tem um código próprio e é um trabalho de autor.
Exige menos esforço ver televisão ou cinema do que teatro, que já não tem a mediação da câmara a facultar um outro olhar que não o nosso, ou do que a literatura, onde o envolvimento é criado por descrições mais ou menos longas, enriquecidas por recursos estilísticos ou de vocabulário, a exigir um percurso anterior, uma aprendizagem, uma certa regularidade, até mesmo, talvez, hábitos de escrita.
O cinema e a televisão trouxeram ao grande público a capacidade de captar os ritmos, os movimentos, as sugestões, quase como na vida real, gerando reminiscências que permitem vivenciar com maior facilidade a literatura do discurso directo.
A literatura do discurso directo é a base da escrita cinematográfica.
A escrita cinematográfica é de leitura fácil, poderia ser barata e dá milhões.
- (Continua em breve, neste blog perto de si)
quarta-feira, setembro 08, 2004
A poesia árabe "pré-peninsular" (III)
Culminando esta incursão pela poesia árabe clássica, que não tem outra pretensão senão a de vos despertar a eventual curiosidade, venho hoje na companhia daquele que alguns costumam referenciar como "o maior poeta dos árabes" - Al-Mutanabbi (séc. X).
Aquele século, marcado pela descentralização do poder califal e decomposição do império, marca também, no mundo da poesia, o retorno aos modelos antigos, do classicismo, ao domínio dos valores beduínos sobre os urbanos.
- Lo bueno de la civilización urbana siempre viene de fuera;
lo bueno es, en cambio, consustancial a la vida beduina.
- Sé humilde ante ella.
Esté lejos o cerca, sométete,
pues quien no ama no se humilla ni se somete.
- Los caballeros y la noche me conocen.
Me conoce el desierto,
me conoce la guerra.
Y el papel y la pluma me conocen también.
- Yo soy aquél cuyas palabras lee el ciego y escucha el sordo.
- Los caballeros y la noche me conocen.
- Sé humilde ante ella.