Durante a minha estada no Rif - as montanhas do Norte de Marrocos, sobre o Mediterrâneo - tive o ensejo de entrar em contacto com a poesia de Mohamed Chakor, já falecido, mas que me foi dada a conhecer por um seu amigo pessoal. Dela ressumam as grandes preocupações e as urgentes aspirações dos que habitam a sua terra. É esta a mesma gente que, deste lado do Mediterrâneo, nós confundimos por entre as generalidades que comportam as palavras árabe ou muçulmano, e que a histeria xenófoba e agressiva classifica como inimigos do Ocidente ou potenciais terroristas. O povo anónimo não aspira senão à paz e à melhoria das suas condições de vida, e é tão permeável como qualquer outro às mistificações do seu tempo e da sua sociedade.
Mediterráneo: mar de pasiones
Un poeta que estuviera satisfecho del mundo en que vive, no seria poeta. Giovanni Papini
Pueblos ribereños del Mediterráneo, uníos! Pugnas fratricidas empañan las aguas cristalinas. En la cuna de la Sagrada Escritura y Alcorán consuman holocaustos como Próximo Oriente, Balcanes... Y en la era, de Derechos Humanos degüellan a los pueblos, que caen víctima de la doble moral de los amos del mundo. El terrorismo no es el camino de la paz. No puede serlo. Enemigos implacables se oponen a la convivencia de la Estrella de David, de la Meca y de la Cruz. Sin el pluralismo, la tolerancia y el amor, nuestro mar de pasiones es herida sangrante. Versos y claveles han de relevar a los misiles. El legado cultural es el tesoro del Mediterráneo, donde eclosionaron religiones, democracia, derecho... donde deben reinar libres la idea y la palavra.
Eu não irei prosseguir com estas traduções do prólogo de "El collar de la paloma", nem porventura com transcrições de trechos dos vários capítulos do tratado de Ibn Hazm sobre o amor. Se o fizesse, envolver-me-ia num trabalho incomportável e inadequado a este meio de comunicação. Quero no entanto confessar-vos que, mesmo neste preciso momento em que vos escrevo, dificilmente resisto a não partilhar algumas ideias de Ortega y Gasset, plenas de saber e por vezes recheadas de fino e subtil humor, sobre a transferência e a integração de novas ideias, sobre a escolástica e, em especial, sobre o profundo significado da palavra "amor".
Sabiam que esta nossa palavra - amor - herdada do latim, não tem origem romana, mas etrusca, língua desconhecida, hoje? Pois Ortega y Gasset questiona-se sobre o porquê da adopção romana dessa palavra e produz curiosas elucubrações a propósito.
Eu não vos dizia que não consigo parar!?
Aconselho então, vivamente:
Ibn Hazm El collar de la paloma Versión de Emilio García Gómez Alianza Editorial, Madrid 2004
"(...) A Idade Média europeia é, na sua realidade, inseparável da civilização islâmica, já que consiste precisamente na convivência, à sua vez positiva e negativa, de cristianismo e islamismo sobre uma área comum impregnada pela cultura greco-romana. (...) A própria religião islâmica procede da cristã, mas esta procedência nunca teria tido lugar se os povos europeus e os povos árabes não tivessem penetrado na área ocupada durante séculos pelo Império Romano. Os germanos e os árabes eram povos periféricos, alojados nas margens daquele império e a história da Idade Média é a história do que se passa com esses povos à medida que vão penetrando no mundo imperial romano, instalando-se nele e absorvendo porções da sua cultura rígida e já necrosificada. A Idade Média, de certa maneira, é o processo de uma gigantesca recepção, a da cultura antiga por povos de cultura primitiva. E a génese cristã do islamismo não é senão um caso particular dessa recepção, produzida pelo mesmo mecanismo histórico que levou os árabes do séc. IX a acolher Aristóteles, Hipócrates, Galeno, Euclides, Diofanto e Ptolomeu. Esquece-se demasiado que os árabes, antes de Maomé, viveram sete séculos rodeados por todos os lados de povos que estavam mais ou menos helenizados e que tinham vivido sob administração romana. Não é só da Síria que sopra sobre os árabes o grande vento da Antiguidade, mas também da Pérsia, da Bactriana e da Índia. Por sua vez a Europa, pelo seu lado norte, manteve-se livre das influências greco-romanas e pôde conservar por mais tempo intactas as raízes do seu primitivismo. (...) A minha ideia é a de que, ao começar a chamada Idade Média, germanismo e arabismo são dois corpos históricos homogéneos no que concerne à situação básica da sua vida, e que só depois, a pouco e pouco, se vão diferenciando, até chegar nestes últimos séculos, a uma radical heterogeneidade. A opinião contrária, que é a usual, surgiu por geração espontânea, irreflexivamente - coisa tão frequente nos historiadores - porque projectaram sobre aqueles primeiros séculos medievais a imagem de extrema heterogeneidade que hoje nos oferecem os dois grupos de povos. (...)"
É o título do livro que me ocupa de momento (ainda não vertido para a língua portuguesa). Um tratado sobre o amor e os amantes. Esta obra é considerada como a melhor do seu autor - إبن حزم - Ibn Hazm (sécs. X-XI) - e de toda a literatura árabe do al-Andalus.
Quero compartilhar convosco algumas considerações produzidas por José Ortega y Gasset no prólogo desta versão espanhola de Emilio García Gómez, sobre a questão das nacionalidades e da herança cultural que nos foi legada:
"(...) É claro que ao chamar árabe "espanhol" a Ibn Hazm, atribuo-lhe a sério o arabismo e com informalidade a hispanidade. Sem que pretenda estorvar que cada um proceda como lhe apraz, não estou disposto, por minha parte, a aventurar-me a chamar a sério "espanhol" a quem quer que nasça em território peninsular, mesmo que de sangue "indígena" e ainda que aqui tenha vivido toda a sua vida. A territorialidade e o plasma sanguíneo são os últimos atributos que podem qualificar a nacionalidade de um homem, isto é, a substância histórica de que é feito, e só têm eficácia quando antes se reúnam nele todos os outros. A prova simples e notória reside em que, vice-versa, se pode ser espanhol até ao grau mais superlativo sem que nunca se tenha visto terra espanhola e, igualmente, pode ser-se espanhol tendo muito pouco ou nenhum sangue da nossa casta. E isto, que é verdade agora, quando a Espanha há muito tempo atingiu a plenitude da sua nacionalidade, era-o muito mais nos séculos X e XI, quando a "coisa" a que chamamos Espanha começava simplesmente a germinar. Todos estes qualificativos "nacionais" significam, com maior exactidão, a pertença substantiva a uma determinada sociedade, e a sociedade árabe do al-Andalus era distinta e diversa da sociedade ou sociedades não-árabes que nesse tempo habitavam Espanha.
Mas isto não impede que a nossa relação com os árabes do al-Andalus, ou "espanhóis", não implique para nós certos deveres no que respeita à sua memória; deveres que, em última análise, se fundamentam na vantagem que usufruímos ao cumpri-los, já que ao fazê-lo alimentamos a nossa própria substância, enriquecendo e aperfeiçoando a nossa hispanidade. (...)"
O "JL" acaba de editar, numa selecção de José Carlos Vasconcelos, "Cem poemas de Sophia".
Dionysos
Entre as árvores escuras e caladas O céu vermelho arde, E nascido da secreta cor da tarde Dionysos passa na poeira das estradas.
A abundância dos frutos de Setembro Habita a sua face e cada membro Tem essa perfeição vermelha e plena, Essa glória ardente e serena Que distinguia os deuses dos mortais.
Eu não gostei do código de Dan Brown. Não o digo pela sua escrita que, apesar de cinematográfica, me empolgou como num romance policial por breves capítulos, de capítulo em capítulo, de mistério a enigma, em suspense, conduzido, quase subjugado acriticamente. Escrever assim não é fácil, mas é facilitista, e esse facilitismo fatigou-me e é abusivo.
É esse facilitismo que faz com que esta ficção se mascare de romance histórico, quando o não é:
- Não porque destoe do discurso oficial, antes porque carece da exigência do rigor a que um romance histórico não pode ceder, sem deixar de o ser (quem nos informa que o romance é histórico é o próprio autor, com a sua estranha página - Facto - a anteceder o Prólogo).
- Não porque me repugne aceitar o casamento de Jesus Cristo com Maria Madalena (que tanta polémica gerou, "inadvertidamente" publicitando o romance), mas antes porque o patriarcalismo e a atribuição de um papel secundário à mulher são conceitos e práticas judaicas, que o cristianismo herdou naturalmente, antes ainda da suposta reescrita bíblica de Constantino, como se sugere no romance.
- Não porque não me encantem os mistérios, os rituais, os jogos secretos dos Templários, dos Rosacruz, da Maçonaria e quejandos, bem como os códices, os códigos, os enigmas, as cifras, as cabalas, que aprecio (q.b.), mas antes a sua quase ridícula inconsistência:
Langdon, famoso simbologista, precisa de alguns capítulos para conseguir identificar o Homem de Vitrúvio, que me ocorreu imediatamente na sequência da descrição da posição do corpo de Jacques Saunière e não sou um especialista, nem simbologista, nem nada. (Espero que entendam que o problema não está em que eu o tenha identificado, mas sim na demora de tão excelsos especialistas em fazê-lo.)
Um simbologista, uma criptologista, e um profundo conhecedor do Priorado de Sião perdem um tempo inacreditável para conseguir identificar a escrita que se encontrava sob a rosa embutida e eu, antes ainda de iniciar a leitura do romance, simplesmente ao desfolhá-lo e ao deparar-me com aquele tipo de escrita, reconheci de imediato a escrita reflexa, dos códices de Leonardo Da Vinci, legíveis através de um espelho. (Não é por gabarolice minha e, mesmo que o fosse, essa escrita é perfeitamente identificável por qualquer leigo que alguma vez a tenha visto.) O que me espanta é que, no romance, essa escrita não é imediatamente identificada por especialistas e isso não é credível.
os especialistas, no romance, perdem horas e enredam-se em esquemas supostamente complexos para descobrir o código de abertura do criptex. Eu, na sequência da leitura do texto "Uma antiga palavra de sabedoria este rolo liberta...", apercebi-me logo de SOFIA. Só quem não estudou Filosofia ou não conhece o significado dessa palavra! Isto não é complexidade do enredo, como refere o editor na contracapa, é brincar com a eventual ignorância dos leitores e isso não é honesto.
O acto de "fazer a dobra", numa tabela, para decifrar o atbash, e que conduz à descoberta da chave - SOFIA - para a abertura do criptex, merece rasgados elogios de Teabing, que exclama:"Fico contente por verificar que os rapazes de Holloway estão a fazer o seu trabalho". Eu aprendi a "fazer a dobra", (aquela dobra e não a dos lençóis) no quartel da Trafaria, durante a instrução militar e aprendizagem de cifras, mesmo sem frequentar o Royal Holloway, supostamente um famoso colégio. E esse conhecimento é elementar, se me permitem a informação. Langdon até acha que Teabing é um fenómeno de sabedoria porque conhece de memória as 22 letras do alfabeto hebraico, como se fosse algo particularmente meritório e chega a comentar a excelente pronúncia de Teabing quando lê o hebraico. Logo ele, Langdon, que não conhece sequer de memória o tal supostamente difícil alfabeto.
Enfastiei-me, fatiguei-me, "arrastei-me" até à desilusão do desenlace final (que certamente irá ser corrigido na versão para cinema, que já se sugere e adivinha).
Eu gosto de códigos, fascinam-me os códices de Da Vinci, mas detesto esta literatura cinematográfica, facilitista, desonesta, abusiva, de top de vendas, de "O Código de Da Vinci".
P.S. Desculpem a extensão do texto, pouco prática neste ambiente de leitura, mas dá para um fim-de-semana, que desejo muito agradável para todos.
Como se exprime quem tem pouco vocabulário? Naturalmente que em discurso directo: eu disse, ele disse, o outro disse, reproduzindo um diálogo. O discurso directo é, literariamente, um recurso simplista, se bem que passível de gerar uma escrita viva, espontânea, dinâmica, emocional e afectivamente atraente. O discurso directo está na base da escrita dramática, como a do autor de teatro. O que está para além do que dizem os actores, intui-se a partir das suas interpretações, da cenografia, de toda a envolvência e códigos de comunicação de que se serviu o encenador. No cinema é também o discurso directo do argumentista que serve a linguagem dos actores e é a base de trabalho dos técnicos de estúdio, dos da iluminação, dos da câmara, de toda a panóplia de recursos e códigos de comunicação de que se serve o realizador. A literatura, só por si, não pode recorrer aos actores, nem aos encenadores, cenógrafos, realizadores... tem um código próprio e é um trabalho de autor.
Exige menos esforço ver televisão ou cinema do que teatro, que já não tem a mediação da câmara a facultar um outro olhar que não o nosso, ou do que a literatura, onde o envolvimento é criado por descrições mais ou menos longas, enriquecidas por recursos estilísticos ou de vocabulário, a exigir um percurso anterior, uma aprendizagem, uma certa regularidade, até mesmo, talvez, hábitos de escrita.
O cinema e a televisão trouxeram ao grande público a capacidade de captar os ritmos, os movimentos, as sugestões, quase como na vida real, gerando reminiscências que permitem vivenciar com maior facilidade a literatura do discurso directo. A literatura do discurso directo é a base da escrita cinematográfica.
A escrita cinematográfica é de leitura fácil, poderia ser barata e dá milhões.