segunda-feira, setembro 27, 2004

A essência do amor

Este será o meu último post de Setembro, pois irei ausentar-me até ao fim-de-semana por terras da Serra da Estrela. Não, não vou pelos desportos de Inverno. :-)
Marcamos encontro aqui, no blog, na próxima segunda-feira.

Entretanto, deixo-vos com um poema de إبن حزم - Ibn Hazm (sécs. X-XI), de Córdova.
Referindo-se à "Essência do Amor", no seu primeiro capítulo de "El collar de la paloma", fala-nos de um seu amigo caído nas malhas de uma absorvente e desesperada paixão e de quem, ao desejar-lhe o consolo divino, vendo-o assim tão triste, cabisbaixo e taciturno, não recebeu senão sinais de um marcante desagrado. Sobre uma situação semelhante teria, algum tempo antes, composto este poema:


  • Oh esperanza mía! Me deleito en el tormento que por ti sufro.
    Mientras viva, no me apartaré de ti.
    Si alguien me dice:«Ya te olvidarás de su amor»,
    No le contesto más que com la ene y la o *.


P.S.* - “la ene y la o” quer dizer no, em castelhano, não, em português. No original está, naturalmente, “el lam y el alif”, o ل (l) e o ا (a) - لا (la), as letras que formam a negação. (Nota de edição, adaptada pelo a(post)ador).


sexta-feira, setembro 24, 2004

O Sultão de Aghmat

المعتمد إبن عبّاد - Al-Mu'tamid Ibn 'Abbâd (1040-1095), nasceu em Beja, foi governador de Silves, rei de Sevilha e deportado para Aghmat, onde morreu. Nesta pequena localidade perto de Marraquexe, no Sul de Marrocos, ainda hoje, o seu túmulo é local de peregrinação. É ele o Sultão de Aghmat no poema de Mohamed Chacor.

  • El Sultán de Agmat

    Agmat, dormido en el olvido, se incrusta,
    de súbito, en la historia. Peregrinar
    a este bosque de versos y suspiros, reverdece
    mis raíces del Sur. Pero no quiero sonrisas
    que lloran, ni cadáveres hechos de sueños rotos.

    Quién salmodia aún una azora en la memoria
    del Rey Poeta? Acaso el hombre es un ángel
    ahogado en la desdicha? Es el recuerdo
    la única supervivencia? Si el tiempo
    no es favorable, no culpemos al destino.
    Nuestra existencia es destierro vitalicio.

    La flor cautiva enciende soles ineclipsables
    y alumbra lunas llenas. En el oasis
    del silencio la poesia abre caminos de luz
    eterna. Ni siglos ni milenios destronarán
    al sultán que reina en el corazón del poema.


Mohamed Chacor
Latidos del Sur


quinta-feira, setembro 23, 2004

A ficção não reproduz a realidade, mas reflecte-a

Outras "urgências" têm adiado este escrito sobre o meu regresso às salas de cinema, de que me afasto, habitualmente, durante a época de verão.

A minha rentrée teve lugar no "Terminal de Aeroporto".

Trata-se da recriação de um certo tipo de sociedade, em "universo fechado". Uma sociedade de direito que, fria e desafectuosamente, se rege por normas e onde os vazios legais atiram as decisões sobre os ombros de um responsável que, supostamente, tem o poder de decidir. Acontece que o acto de decidir não recai sobre os ombros de um qualquer, mas sobre os ombros de quem, ao longo de uma carreira serviu, fria e objectivamente, o rigoroso cumprimento de normas.
Claro que há executivos mais ou menos frios e impessoais, com maior ou menor sentido de justiça, mas que, no momento da decisão, agirão sempre "conforme manda a sua consciência".

Também a massa anónima, a que, na obscuridade dos seus "papéis", faz funcionar toda a enorme trama organizativa do "grande aeroporto", se retrai perante a quebra de normas, o receio da perda do emprego e, no labirinto dos vazios legais, cada um tenta chamar si a sua oportunidade. Mas, face ao "herói", quando ele ganha a dimensão do mito e a todos une numa identificação comum, então é capaz de solidariedade e altruísmo.

http://www.theterminal-themovie.com/main.html
The Terminal - The Movie


Nos filmes, o mito identificador é sempre "o bom da fita", na vida real não é assim, até porque o "bom mito" de uns pode ser o "mau mito" de outros.

Conhece sociedades como esta, em "universo aberto"? Não!?

Procure-a então, apesar dos exageros da ficção e em "universo fechado", num qualquer "Terminal de Aeroporto" perto de si.


quarta-feira, setembro 22, 2004

Equinócio

O Equinócio de Outono, que hoje deve ocorrer pelas 16h30, segundo as informações que recolhi, é um tempo de mudança. A partir daquela hora o dia tornar-se-á mais breve do que a noite, até ao próximo equinócio, o da Primavera.


  • A palavra é curva Nunca atinge
    o alvo Só o silêncio
    é recto
    Mas a chama de um e de outro
    limpa a lepra do tempo
    e descobre a fonte branca
    como o desenho latente que na página respira


António Ramos Rosa
Antologia Poética
Publicações D. Quixote, Lisboa 2001

P.S.

Que Ramos Rosa me perdoe esta ligação do seu poema ao equinócio, mas nem eu sei bem por que fui tentado a fazê-lo.


terça-feira, setembro 21, 2004

O populismo de Santana Lopes

Recordo-me perfeitamente de ter lido este texto de Pacheco Pereira e concordado com o seu prenúncio do proceder populista do governo de Santana Lopes. Achei estranho que tivesse sido escrito no início de Agosto, como ele afirma, pois eu não estava em Portugal nessa altura. Fui verificar. Está na Internet desde 8 de Julho.(Creio que foi enganado por esta confusão com a leitura de datas, introduzida com a adesão à Comunidade Europeia, e que, francamente, não sei se é ou não respeitada pelos outros países. 8.7.04 quer dizer 7 de Agosto ou 8 de Julho?)


  • "Existe em certos sectores da direita e da esquerda intelectual portuguesa a ilusão que um governo Santana Lopes será um governo que prosseguirá políticas liberais, ou, como pejorativamente agora se diz, “neo-liberais”. Enganam-se completamente. Se há coisa que em Portugal sofrerá com o populismo é o discurso genuinamente liberal. O populismo é nacionalista, defensor da closed shop, “social” e clientelar. O populismo será alicerçado em duas coisas muito próximas na vida política portuguesa: um discurso social, que pode mesmo chegar a ser socializante, e na gestão de clientelas. É uma fórmula muito eficaz em Portugal, potenciada agora pela forma como actuam os media. (...)"


A sua leitura aqui, neste local, não impede, antes estimula, a percepção do contexto em que este escrito de Pacheco Pereira foi produzido:

    Ingenuidades às 10h18 de 8.Jul.04, Levar às 14h14 do dia 19.AGO.04 (com saída para o texto de João Pedro Henriques, no Público) e Levar 2 às 01h37 de 20.AGO.04.


Particularmente no que se refere a Ingenuidades, do dia 8.JUL.04, atrevo-me a aconselhar que suba até ao menu do browser, faça Editar > Localizar e aí procure por "Santana Lopes".


segunda-feira, setembro 20, 2004

O apedeutismo e a inscícia

Há algum tempo atrás fui alertado por alguns amigos, via email e contacto pessoal, para a imagem e texto da página inicial do site da Câmara Municipal de Silves (www.cm-silves.pt), que abaixo reproduzo:



O alerta incidia sobre a palavra "Remodulação" (assinalada a vermelho pelo autor de um dos emails).
Respondi-lhes, dizendo que se pretendiam evidenciar um erro ortográfico estavam enganados, pois "remodulação" existe como sinónimo de "remodelação" (Veja-se, José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Sociedade de Língua Portuguesa, Lisboa 1981: Remodulação, s. f. O m. q. remodelação, transformação, restauração).

Na passada sexta-feira, por curiosidade, visitei o site da Câmara, para ver se já funcionava. Deparei-me com o seguinte: (A palavra "Remodelação" foi circundada por mim, a vermelho)



Ora! Agora é que a "coisa" se complicou!
Uma arreliante gralha ou um precipitado erro ortográfico sucede a todos - errar é próprio da condição humana - mas o apedeutismo(1) é um caso mais grave.

    Ao emendar o que não era um erro, porque erradamente supôs que era um erro, a Câmara* errou, revelando e relevando o seu erro.
    A inscícia(2), nos primeiros passos de um novo site, é já o trilhar de algum descrédito.


P.S.
Pode parecer que há por aqui algum "ressaibo", já que o autor deste blog foi o responsável pelo site da Câmara, há uns anos, mas quero esclarecer que não é de todo o caso, pois prescindi dessa função por iniciativa pessoal. Falo neste assunto simplesmente porque não quero que essa situação me iniba de comentar o que me apetece.

* Quando digo a Câmara, quero mesmo dizer a Câmara, ou mais exactamente a sua Presidente, pois, em última análise, é ela a responsável pelo que se escreve ou não escreve no site oficial da instituição que dirige.

(1) e (2) O uso destes dois termos - apedeutismo e inscícia - é maldade minha, para vos obrigar a ir ao dicionário, que é coisa que não faz mal a ninguém, antes pelo contrário. (rima e é verdade)


P.S.(2)
Embora sem ligação com o assunto acima, quero agradecer a recente, simpática e elogiosa referência a este blog, em Povo de Bahá. (Clique no nome sublinhado)



sexta-feira, setembro 17, 2004

Mediterrâneo: mar de paixões

Durante a minha estada no Rif - as montanhas do Norte de Marrocos, sobre o Mediterrâneo - tive o ensejo de entrar em contacto com a poesia de Mohamed Chakor, já falecido, mas que me foi dada a conhecer por um seu amigo pessoal. Dela ressumam as grandes preocupações e as urgentes aspirações dos que habitam a sua terra. É esta a mesma gente que, deste lado do Mediterrâneo, nós confundimos por entre as generalidades que comportam as palavras árabe ou muçulmano, e que a histeria xenófoba e agressiva classifica como inimigos do Ocidente ou potenciais terroristas. O povo anónimo não aspira senão à paz e à melhoria das suas condições de vida, e é tão permeável como qualquer outro às mistificações do seu tempo e da sua sociedade.

  • Mediterráneo: mar de pasiones

                  Un poeta que estuviera satisfecho
                  del mundo en que vive,
                  no seria poeta.
                  Giovanni Papini
    Pueblos ribereños del Mediterráneo, uníos!
    Pugnas fratricidas empañan las aguas cristalinas.
    En la cuna de la Sagrada Escritura y Alcorán
    consuman holocaustos como Próximo Oriente, Balcanes...
    Y en la era, de Derechos Humanos degüellan a los pueblos,
    que caen víctima de la doble moral de los amos del mundo.
    El terrorismo no es el camino de la paz. No puede serlo.
    Enemigos implacables se oponen a la convivencia
    de la Estrella de David, de la Meca y de la Cruz.
    Sin el pluralismo, la tolerancia y el amor,
    nuestro mar de pasiones es herida sangrante.
    Versos y claveles han de relevar a los misiles.
    El legado cultural es el tesoro del Mediterráneo,
    donde eclosionaron religiones, democracia, derecho...
    donde deben reinar libres la idea y la palavra.

    Mediterráneo, querida patria luminosa!


Mohamed Chakor
Latidos del Sur