Do enigmático edifício de vários pisos de Centum Celas, até à vetusta porta de pedra do Castelo de Belmonte, marcada pelo tempo, de onde se adivinha o harmonioso anfiteatro contemporâneo, imitando os gregos, passearam tantos olhos, como os meus, surpreendidos pelo equilíbrio das formas, pela perspectiva dos volumes, pela expressão artística do Homem na sua incessante procura do belo.
As minhas preocupações antes da saída de Marcelo Rebelo de Sousa continuam as mesmas depois da saída de Marcelo Rebelo de Sousa ou da sua eventual reentrada noutro canal de comunicação. Esta "política" continua.
Passar as portas da romana Civitas Igaeditanorum, velha de vinte séculos, ou da Egitânea visigoda do séc. VI. Saber que caminho sobre as mesmas lajes que outrora foram pisadas por outros pés, então vivos, que carregavam cuidados e afectos semelhantes aos meus, porque humanos, hoje, neste cenário arqueológico, despido de outra vida que não a minha, na tarde quente de um Outono por chegar, nestas terras de Idanha-a-Velha.
P.S. Pode aceder a mais das minhas fotos de Egitânea (Idanha-a-Velha) clicando aqui.
À margem do texto sobre a Egitânea, permitam-me que divulgue este alerta de uma amiga, a propósito do apelo de Kofi Annan, a todos os países membros das Nações Unidas, para que o apoiem nas decisões da Organização e sua implementação em todo o mundo. O Secretário-Geral pede apoio para agir.
O alerta agora é meu, para a leitura de Balanço Patriótico, em Almocreve das Petas, em tempo de comemorações do 5 de Outubro.
Pela quarta vez consecutiva, já la vão quatro anos, a Associação Oncológica do Algarve organizou a MamaMaratona, uma marcha de carácter lúdico e desportivo num percurso pedestre de extensão variada, conforme a opção dos marchadores.
O valor obtido com as inscrições, os donativos, os apoios das mais diversas empresas e instituições, a venda de T-shirts, bonés e outros materiais, servirá à construção de uma Unidade de Medicina Nuclear e à divulgação da necessidade do diagnóstico precoce do cancro da mama. E é uma festa, uma alegria, ver as ruas e os arredores cheios de gente (cerca de duas mil pessoas) de todas as idades, marchando "contra o cancro".
Este ano juntou-se à festa o 1º Passeio a Cavalo e Atrelagem, incluído numa interessante iniciativa da edilidade - a 1ª Mostra d'O Saber Fazer do Concelho - a emprestar um outro colorido, com este passeio de algumas dezenas de cavalos e respectivos cavaleiros e amazonas, que se cruzaram com os marchadores. Assim, apetece dizer que: "Silves tem mais encanto!"
Este será o meu último post de Setembro, pois irei ausentar-me até ao fim-de-semana por terras da Serra da Estrela. Não, não vou pelos desportos de Inverno. :-) Marcamos encontro aqui, no blog, na próxima segunda-feira.
Entretanto, deixo-vos com um poema de إبن حزم - Ibn Hazm (sécs. X-XI), de Córdova. Referindo-se à "Essência do Amor", no seu primeiro capítulo de "El collar de la paloma", fala-nos de um seu amigo caído nas malhas de uma absorvente e desesperada paixão e de quem, ao desejar-lhe o consolo divino, vendo-o assim tão triste, cabisbaixo e taciturno, não recebeu senão sinais de um marcante desagrado. Sobre uma situação semelhante teria, algum tempo antes, composto este poema:
Oh esperanza mía! Me deleito en el tormento que por ti sufro. Mientras viva, no me apartaré de ti. Si alguien me dice:«Ya te olvidarás de su amor», No le contesto más que com la ene y la o *.
P.S.* - “la ene y la o” quer dizer no, em castelhano, não, em português. No original está, naturalmente, “el lam y el alif”, o ل (l) e o ا (a) - لا (la), as letras que formam a negação. (Nota de edição, adaptada pelo a(post)ador).
المعتمد إبن عبّاد - Al-Mu'tamid Ibn 'Abbâd (1040-1095), nasceu em Beja, foi governador de Silves, rei de Sevilha e deportado para Aghmat, onde morreu. Nesta pequena localidade perto de Marraquexe, no Sul de Marrocos, ainda hoje, o seu túmulo é local de peregrinação. É ele o Sultão de Aghmat no poema de Mohamed Chacor.
El Sultán de Agmat
Agmat, dormido en el olvido, se incrusta, de súbito, en la historia. Peregrinar a este bosque de versos y suspiros, reverdece mis raíces del Sur. Pero no quiero sonrisas que lloran, ni cadáveres hechos de sueños rotos.
Quién salmodia aún una azora en la memoria del Rey Poeta? Acaso el hombre es un ángel ahogado en la desdicha? Es el recuerdo la única supervivencia? Si el tiempo no es favorable, no culpemos al destino. Nuestra existencia es destierro vitalicio.
La flor cautiva enciende soles ineclipsables y alumbra lunas llenas. En el oasis del silencio la poesia abre caminos de luz eterna. Ni siglos ni milenios destronarán al sultán que reina en el corazón del poema.
Outras "urgências" têm adiado este escrito sobre o meu regresso às salas de cinema, de que me afasto, habitualmente, durante a época de verão.
A minha rentrée teve lugar no "Terminal de Aeroporto".
Trata-se da recriação de um certo tipo de sociedade, em "universo fechado". Uma sociedade de direito que, fria e desafectuosamente, se rege por normas e onde os vazios legais atiram as decisões sobre os ombros de um responsável que, supostamente, tem o poder de decidir. Acontece que o acto de decidir não recai sobre os ombros de um qualquer, mas sobre os ombros de quem, ao longo de uma carreira serviu, fria e objectivamente, o rigoroso cumprimento de normas. Claro que há executivos mais ou menos frios e impessoais, com maior ou menor sentido de justiça, mas que, no momento da decisão, agirão sempre "conforme manda a sua consciência".
Também a massa anónima, a que, na obscuridade dos seus "papéis", faz funcionar toda a enorme trama organizativa do "grande aeroporto", se retrai perante a quebra de normas, o receio da perda do emprego e, no labirinto dos vazios legais, cada um tenta chamar si a sua oportunidade. Mas, face ao "herói", quando ele ganha a dimensão do mito e a todos une numa identificação comum, então é capaz de solidariedade e altruísmo.
O Equinócio de Outono, que hoje deve ocorrer pelas 16h30, segundo as informações que recolhi, é um tempo de mudança. A partir daquela hora o dia tornar-se-á mais breve do que a noite, até ao próximo equinócio, o da Primavera.
A palavra é curva Nunca atinge o alvo Só o silêncio é recto Mas a chama de um e de outro limpa a lepra do tempo e descobre a fonte branca como o desenho latente que na página respira
António Ramos Rosa Antologia Poética Publicações D. Quixote, Lisboa 2001
P.S.
Que Ramos Rosa me perdoe esta ligação do seu poema ao equinócio, mas nem eu sei bem por que fui tentado a fazê-lo.