sexta-feira, novembro 05, 2004

No Porto nasceu Sophia, em 1919

Faria amanhã 85 anos.

        • Aqui

          Aqui, deposta enfim a minha imagem,
          Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
          No interior das coisas canto nua.

          Aqui livre sou eu - eco da lua
          E dos jardins, os gestos recebidos
          E o tumulto dos gestos pressentidos,
          Aqui sou eu em tudo quanto amei.

          Não por aquilo que só atravessei,
          Não p'lo meu rumor que só perdi
          Não p'los incertos actos que vivi,

          Mas por tudo de quanto ressoei
          E em cujo amor de amor me eternizei.

      Sophia de Mello Breyner Andresen
      Dia do Mar, 1947


P.S.
Quero deixar registado o meu lamento pelo desaparecimento do mais belo de entre os blogs que conheço - Janela Indiscreta


quinta-feira, novembro 04, 2004

Este meu país, provinciano e irreformável

É uma visão cinzenta sobre um país provinciano e irreformável, o que perpassa na leitura dos textos que ultimamente venho lendo.

Há poucos minutos uma amiga escrevia-me: "Não visto o cinzento deste tempo... Entristece-me."

Há mais de cem anos atrás, este mesmo olhar transparecia nos escritos dos "Vencidos da Vida".

Também eu sinto o frio a instalar-se e o meu olhar regista esse tom monocromático.

P.S.
Mais um alerta a propósito da situação degradante que se vem vivendo na comunicação social: José António Barreiros abandona o Diário de Notícias e inicia um blog - A Revolta das Palavras.
Queira inteirar-se do que se passa, seguindo o link.
Eu fui alertado através do blog de Pacheco Pereira.


quarta-feira, novembro 03, 2004

A Feira

A feira terminou e nada me importou. Já não me importa mais. É, para mim, uma coisa do passado; já só vive na nostalgia da minha juventude.
Por isso gostaria de recordar convosco o que o ano passado aqui escrevi (com data de 31 de Outubro):



terça-feira, novembro 02, 2004

SONETO

Terminada a evocação dos poetas de Poesia 61, permitam-me ficar, um pouco mais, com um poeta deste meu Algarve, que me fez companhia, com os seus poemas, numa daquelas tardes chuvosas da semana que findou.

Nuno Júdice

        • SONETO

          Durante estes anos, outonos e invernos,
          na melancolia de tardes de piano e alaúde,
          a chuva caiu com os seus vagares eternos,
          fez-se noite como cai um tampo de ataúde.

          E dediquei-me a registar estas mudanças,
          a ver a diferença entre negro e cinzento,
          ouvindo a música de um choro de crianças
          e o eco sombrio de um fundo lamento.

          Talvez o amor me servisse de horizonte
          se não fosse esta névoa sobre o mar.
          Poderia a manhã nascer de qualquer lugar

          como se a luz brotasse de alguma fonte.
          Acordo a alma com um brusco empurrão,
          e mostro-lhe a vida num aceno de mão.

      Nuno Júdice
      Rimas e Contas, 2000



sexta-feira, outubro 29, 2004

Faro 1952

Encerrando o périplo por Poesia 61, num regresso a Faro, 1952, e ao velho Aliança.

Gastão Cruz

        • Faro 1952

          O café, do outro lado a livraria
          essa a meta da tarde
          quando esfria a pele sem que
          frio fique o dia,
          as linguagens regressam às cúpulas
          de folhas
          e os treze nocturnos ainda nos esperam
          sob o inerte
          torreão do fim da infância,
          escutaremos alguns
          no pobre piano íntimo, o sexto
          repetido como alma dos
          dias,
          percorremos a rua
          até onde entra nela a aragem da ria,
          e o café dum lado, do
          outro a livraria,
          à porta o chapéu largo e a barba
          branca
          dum poeta do passado

      Gastão Cruz
      Rua de Portugal, 2002



quinta-feira, outubro 28, 2004

Os silêncios da fala

Em tempo de encontro com os poetas de Poesia 61.

Maria Teresa Horta

        • Os silêncios da fala

          São tantos
          os silêncios da fala

          De sede
          De saliva
          De suor

          Silêncios de silex
          no corpo do silêncio

          Silêncios de vento
          de mar
          e de torpor

          De amor

          Depois, há as jarras
          com rosas de silêncio

          Os gemidos
          nas camas

          As ancas
          O sabor

          O silêncio que posto
          em cima do silêncio
          usurpa do silêncio o seu magro labor.

      Maria Teresa Horta
      Vozes e olhares no feminino, 2001



quarta-feira, outubro 27, 2004

Urbanização

Ainda na rota de Poesia 61.

Fiama Hasse Pais Brandão

        • Urbanização

          Tudo o que vivêramos
          um dia fundiu-se com o que estava
          a ser vivido.
          Não na memória
          mas no puro espaço
          dos cinco sentidos.
          Havíamos estado no mundo, raso,
          um campo vazio de tojo seco.

          Depois, alguém
          urbanizou o vazio,
          e havia casas e habitantes
          sobre o tojo. E eu,
          que estivera sempre presente,
          vi a dupla configuração de um campo,
          ou a sós em silêncio
          ou narrando esse meu ver.

      Fiama Hasse Pais Brandão
      As Fábulas, 2002



Atenção: Coisas graves estão a passar-se no Diário de Notícias.
Leiam o Comunicado do Conselho de Redacção do DN e saibam do aumento exagerado do orçamento do gabinete de Morais Sarmento.