Casimiro de Brito, a 11 de Novembro de 2000, falava de João César Monteiro e de Branca de Neve, de Álvaro de Campos, e deste nosso tempo a que ele chama negro e a que eu chamava cinzento há poucos dias atrás, mas que está seguramente bem mais preto do que Casimiro de Brito poderia imaginar, quatro anos passados:
João César Monteiro, menos libertino e mais cansado, apresenta um filme com poucas imagens. Setenta minutos ao negro, "aquela coisa horrivelmente obscura, aqui e acolá - o que deve agradar muito aos católicos - entrecortada por nesgas de céu azul", disse João. A perfeita metáfora deste tempo, um tempo em que a vida se vê de olhos vendados. É por isso que, exausto, ele diz "não" e pendura o casaco em cima da objectiva. O filme Branca de Neve, é paradigma do conto para crianças, que se julga ser colorido mas não é. Que bem negros são os dias da princesa, sempre com a bruxa da madrasta, repudiada pelo vaticínio do espelho mágico, a tentar envenená-la.
(...)
São cada vez mais negras as cores do buraco em que vivemos, as deste mundo real, o mesmo que se projecta nas histórias de encantar. Se abro um jornal, e já tenho os dedos manchados pelo negro da tinta e pela malícia dos títulos, percebo logo. E se ligo a televisão, com toda aquela policromia, ainda percebo melhor: é o negro que vejo, o inferno, a boçalidade do que me dizem ser a vida, embora ela, na sua omnipresença, se alimente de todas as cores. E depois o preto não é a morte das cores, mas pode ser esse momento em que as outras cores não nasceram ainda. Preto é o silêncio que rói entre pais e filhos adolescentes, ambos abandonados. E que cor tem um rio podre? Ou o leite das vacas loucas? Ou um menino (branco ou negro ou amarelo) sem infância? Quantos cegos somos, os invisuais e mais quantos. São pretos os lençóis dos amantes desavindos que teimam em dormir juntos. Preta, a política que já não fala de paz ou que invoca a paz e manda bombardear. O medo. O fracasso individual. A pornografia. A velhice. E alguma infância, recordo-me do poema de Álvaro de Campos, "Sonetos são infância, e, nesta hora, / A minha infância é só um ponto negro." Falta de respeito pelo público, disseram a João César. "Quero que o público se foda", respondeu.
Casimiro de Brito
Na Barca do Coração
Campo das Letras, 2001


