quinta-feira, novembro 11, 2004

Um tempo em que a vida se vê de olhos vendados

Casimiro de Brito, a 11 de Novembro de 2000, falava de João César Monteiro e de Branca de Neve, de Álvaro de Campos, e deste nosso tempo a que ele chama negro e a que eu chamava cinzento há poucos dias atrás, mas que está seguramente bem mais preto do que Casimiro de Brito poderia imaginar, quatro anos passados:

  • João César Monteiro, menos libertino e mais cansado, apresenta um filme com poucas imagens. Setenta minutos ao negro, "aquela coisa horrivelmente obscura, aqui e acolá - o que deve agradar muito aos católicos - entrecortada por nesgas de céu azul", disse João. A perfeita metáfora deste tempo, um tempo em que a vida se vê de olhos vendados. É por isso que, exausto, ele diz "não" e pendura o casaco em cima da objectiva. O filme Branca de Neve, é paradigma do conto para crianças, que se julga ser colorido mas não é. Que bem negros são os dias da princesa, sempre com a bruxa da madrasta, repudiada pelo vaticínio do espelho mágico, a tentar envenená-la.
    (...)
    São cada vez mais negras as cores do buraco em que vivemos, as deste mundo real, o mesmo que se projecta nas histórias de encantar. Se abro um jornal, e já tenho os dedos manchados pelo negro da tinta e pela malícia dos títulos, percebo logo. E se ligo a televisão, com toda aquela policromia, ainda percebo melhor: é o negro que vejo, o inferno, a boçalidade do que me dizem ser a vida, embora ela, na sua omnipresença, se alimente de todas as cores. E depois o preto não é a morte das cores, mas pode ser esse momento em que as outras cores não nasceram ainda. Preto é o silêncio que rói entre pais e filhos adolescentes, ambos abandonados. E que cor tem um rio podre? Ou o leite das vacas loucas? Ou um menino (branco ou negro ou amarelo) sem infância? Quantos cegos somos, os invisuais e mais quantos. São pretos os lençóis dos amantes desavindos que teimam em dormir juntos. Preta, a política que já não fala de paz ou que invoca a paz e manda bombardear. O medo. O fracasso individual. A pornografia. A velhice. E alguma infância, recordo-me do poema de Álvaro de Campos, "Sonetos são infância, e, nesta hora, / A minha infância é só um ponto negro." Falta de respeito pelo público, disseram a João César. "Quero que o público se foda", respondeu.

    Casimiro de Brito
    Na Barca do Coração
    Campo das Letras, 2001



quarta-feira, novembro 10, 2004

La liberté libre

Uma amiga (Helena Monteiro) chamou-me a atenção para um site, de origem francesa, de homenagem a Arthur Rimbaud neste ano de comemoração do 150º aniversário do seu nascimento.
Trata-se de uma produção multimédia de extremo bom gosto, onde forma e conteúdo se equilibram de maneira notável.

Hoje, deve ficar disponível o 4º itinerário, dos oito que darão forma completa a este magnífico local na Internet.
Visitai-o! Eu irei visitá-lo também.

Entretanto deixo-vos com um seu poema, na língua original e numa tradução de Augusto de Campos (que me foi facultada num dos emails de divulgação de poesia, de Amélia Pais):






Voyelles

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu : voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes:
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d'ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides
Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges:
- O l'Oméga, rayon violet de Ses Yeux!


Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos;
- Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!



segunda-feira, novembro 08, 2004

Império

http://statue-of-liberty.visit-new-york-city.com
Agora, que os ânimos, o ritmo e o volume das análises vão acalmando e sei que Bush ganhou, é mais fácil não cair na tentação de acreditar que o imperialismo americano, apesar de ter podido apresentar uma outra face, pudesse vir a defender outros interesses que não os do cartel que o justifica e o sustenta.



Já depois de ter terminado este escrito algo sentencioso, lembrei-me, recorri à minha biblioteca e transcrevo:

  • "(...)
    - O senhor exagera a sua importância, Sr. Hearst.
    - O senhor não compreende nada, Sr. Roosevelt.
    - Compreendo isto. Você, o dono... não, não, o pai do país, não conseguiu que os democratas o elegessem candidato à presidência, nem sequer num ano em que não havia a menor possibilidade de eles ganharem. Como explica isso?
    Os olhos de Hearst, muito claros e profundamente implantados, fitavam agora Roosevelt a direito; o efeito era ciclópico, intimidante. - Em primeiro lugar, dir-lhe-ei que não tem a menor importância quem é que se senta nessa cadeira. O país é governado pelos trusts, como você gosta de nos recordar. Eles compraram tudo e todos, incluindo você. A mim não me podem comprar. Eu sou rico. Por isso sou livre de fazer o que quero, e você não. Geralmente, alinho com eles apenas para manter o povo dócil, por agora. Faço-o através da imprensa. Mas você apenas desempenha um cargo. Em breve sairá daqui, e será o seu fim. Mas eu continuo sempre descrevendo o mundo em que vivemos, que assim se transforma naquilo que eu digo que ele é. (...)"

    Gore Vidal
    Império
    Editorial Presença, 1989


sexta-feira, novembro 05, 2004

No Porto nasceu Sophia, em 1919

Faria amanhã 85 anos.

        • Aqui

          Aqui, deposta enfim a minha imagem,
          Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
          No interior das coisas canto nua.

          Aqui livre sou eu - eco da lua
          E dos jardins, os gestos recebidos
          E o tumulto dos gestos pressentidos,
          Aqui sou eu em tudo quanto amei.

          Não por aquilo que só atravessei,
          Não p'lo meu rumor que só perdi
          Não p'los incertos actos que vivi,

          Mas por tudo de quanto ressoei
          E em cujo amor de amor me eternizei.

      Sophia de Mello Breyner Andresen
      Dia do Mar, 1947


P.S.
Quero deixar registado o meu lamento pelo desaparecimento do mais belo de entre os blogs que conheço - Janela Indiscreta


quinta-feira, novembro 04, 2004

Este meu país, provinciano e irreformável

É uma visão cinzenta sobre um país provinciano e irreformável, o que perpassa na leitura dos textos que ultimamente venho lendo.

Há poucos minutos uma amiga escrevia-me: "Não visto o cinzento deste tempo... Entristece-me."

Há mais de cem anos atrás, este mesmo olhar transparecia nos escritos dos "Vencidos da Vida".

Também eu sinto o frio a instalar-se e o meu olhar regista esse tom monocromático.

P.S.
Mais um alerta a propósito da situação degradante que se vem vivendo na comunicação social: José António Barreiros abandona o Diário de Notícias e inicia um blog - A Revolta das Palavras.
Queira inteirar-se do que se passa, seguindo o link.
Eu fui alertado através do blog de Pacheco Pereira.


quarta-feira, novembro 03, 2004

A Feira

A feira terminou e nada me importou. Já não me importa mais. É, para mim, uma coisa do passado; já só vive na nostalgia da minha juventude.
Por isso gostaria de recordar convosco o que o ano passado aqui escrevi (com data de 31 de Outubro):



terça-feira, novembro 02, 2004

SONETO

Terminada a evocação dos poetas de Poesia 61, permitam-me ficar, um pouco mais, com um poeta deste meu Algarve, que me fez companhia, com os seus poemas, numa daquelas tardes chuvosas da semana que findou.

Nuno Júdice

        • SONETO

          Durante estes anos, outonos e invernos,
          na melancolia de tardes de piano e alaúde,
          a chuva caiu com os seus vagares eternos,
          fez-se noite como cai um tampo de ataúde.

          E dediquei-me a registar estas mudanças,
          a ver a diferença entre negro e cinzento,
          ouvindo a música de um choro de crianças
          e o eco sombrio de um fundo lamento.

          Talvez o amor me servisse de horizonte
          se não fosse esta névoa sobre o mar.
          Poderia a manhã nascer de qualquer lugar

          como se a luz brotasse de alguma fonte.
          Acordo a alma com um brusco empurrão,
          e mostro-lhe a vida num aceno de mão.

      Nuno Júdice
      Rimas e Contas, 2000