quarta-feira, novembro 17, 2004

Vendéeglobe



O Eurico, de Um pouco mais de Sul, chamava outro dia a atenção para uma regata à volta do mundo, solitária, sem escala e sem assistência, num autêntico desafio à capacidade de resistência humana e à fúria dos elementos.
A curiosidade fez-me dar uma espreitadela ao site oficial da prova e fiquei entusiasmado com o rigor das coordenadas que localizam cada um dos concorrentes, a sua velocidade e direcção, a distância que os separa uns dos outros, as condições meteorológicas que se lhes oferecem, as cartas geográficas, os vídeos, as fotos e até a possibilidade de os contactar por email, assim, tão por dentro, podendo acompanhá-los na viagem, a partir do conforto das nossas casas.

Na noite passada, por volta das 19h00 (hora de Portugal), depois de nove dias de viagem, Norbert Sedlacek, vienense, viajava no seu Brother em latitudes próximas dos 20º N.

www.vendeeglobe.org   www.vendeeglobe.org
No conforto dos seus aposentos.     Em risco de saltar borda fora.

A referência a Norbert Sedlacek resulta do facto de ocupar, à hora a que escrevo, o último lugar da regata. A menos 4º de latitude, junto às ilhas de Cabo Verde, viajava a última das duas mulheres em competição - Anne Liardet, no Roxy. Em primeiro lugar avança Jean Le Cam, no Bonduelle, preparando-se para mudar de hemisfério, pois encontrava-se perto dos 5º de latitude, perseguido de "perto" por outros concorrentes.

Isto, e o mais que quiser saber, se for o caso, encontrará ao clicar no logo da regata Vendéeglobe, a encimar o post.

P.S.
Se visitou o site de Arthur Rimbaud, na passada quarta-feira, saiba que deverá ter hoje lugar a apresentação do 5º Itinerário.


terça-feira, novembro 16, 2004

XARAJÎB

Está em fase de acabamentos finais a sede do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves - CELAS - projecto que veio reabilitar o antigo Matadouro Municipal.

© António Baeta Oliveira, Uma das janelas do edifício sede do CELAS
Uma janela para o interior do edifício e
um olho para o exterior, reflectindo o mundo envolvente


XARAJÎB - شَرَاجِيبْ - (nome do palácio que Al-Mu'tamid evoca no poema "Saudação a Silves") é o título da revista do CELAS, agora na sua 4ª edição.

Na página de Introdução afirma Ana Maria Mira, Presidente do CELAS:

    "(...) Mas muito em breve, na nossa casa já reabilitada, poderemos alargar ainda mais o âmbito das nossas intervenções e sobretudo intensificar o debate, dissipador de brumas (apesar do impacto desestruturante das novas cruzadas), sobre as diversas problemáticas que nos preocupam, tendo sempre, como pano de fundo, o Al-Andalus a que pertencemos e as culturas mais longínquas que lhe estão subjacentes, na busca do saber, do entendimento e da amizade com esses povos, aos quais nos ligam afinidades ancestrais."


Do Sumário, além da Introdução, constam:

    - O Islamismo Sunita entre os africanos negros de Moçambique: Roteiro Histórico para algumas questões sócio-antropológicas, por Eduardo Medeiros
    - Muçulmanos e portugueses - Espaços de colaboração e conflitualidade no Sudeste Africano, por José Capela
    - A Administração portuguesa e o Islão, em Moçambique e na Guiné, nos anos 1960 a 1970: Comportamentos comparados, por Fernando Amaro Monteiro
    - Pele Negra, Memória Branca: O Padre Setecentista Manuel do Rosário Pinto e a sua História de São Tomé, por Arlindo Manuel Caldeira
    - O Pan-Africanismo nas Ilhas de Cabo Verde, por Manuel Brito-Semedo
    - Poder e comunidades no Sul da Índia, 1500-1663 - O caso dos Muçulmanos de Kerala - algumas perspectivas, por José Alberto Rodrigues da Silva Tavim
    - "Turquerie" na iconografia do século XVI, por Marília dos Santos Lopes
    - As praças marroquinas no século XV, por Valdemar Coutinho
    - Arabismo, instrução pública e relações luso-magrebinas no século XIX: Manuel Nunes Barbosa e António Caetano Pereira, por Rui Pereira
    - Origens e formação da população tunesina - (uçul al-xa'b al-tunisi ua-tamazúju-ha), por Áhmad Al-Hamrúni
    - Emblemática islâmica, simbologia muçulmana e vexilologia árabe (2ª parte), por António José Rodrigues
    - Ibn Darraj al-Qastalli - Le Chantre des Amirides, de la felicité et l'adversité, por Hamdane Hadjadji
    - Al-Mu'tamid - Poeta do Destino, de Adalberto Alves, (apresentação da 2ª edição), por Tiago Bensetil
    - Al-Mu'tamid - Poeta do Destino - A segunda edição que é uma terceira, por Adalberto Alves
    - Exposição "Da Letra ao Gesto" - Pintores Calígrafos de Marraquexe
    - De l'Art de la Calligraphie en Islam à la Création Contemporaine - Artistes Calligraphes de Marrakech, por Sakina Rharib-Skounti
    - Listagem dos livros oferecidos e adquiridos para a Bilioteca do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves


XARAJÎB
Centro de Estudos Luso-Árabes
Apartado 57
8300-999 Silves
Tel.: 96 634 59 76
Fax: 282 442 447
email: silveslusoarabe@hotmail.com

P.S.
Um comentário de Helder Raimundo alertou-me para a existência de um blog - Palácio dos Balcões - tradução para português do árabe "Xarajîb", que dá título ao meu post de hoje.



segunda-feira, novembro 15, 2004

Terminou o Ramadão

© António Baeta Oliveira, Velhos conversando, Xauen

Regresso ao tema da civilização do Al-Ândalus no dia que se segue a uma das maiores festividades do mundo islâmico - عِيدُالفِطْرِ - 'Idu al-Fitr - o 1º dia do mês de Xawwal, o mês que sucede ao Ramadão. É um dia em que todos se saúdam uns aos outros. É um dia de alegria.

É também cheio de alegria e humor o poema de At-Tulaytuli, que deve ter nascido ou vivido parte significativa da sua vida em Lisboa (séc. XI), pois também é conhecido como lisboeta - Al-Uxbuni.

    • A Formiga

      amplo quadril, esbeltez miúda,
      eis um talhe claramente exagerado.
      levando as provisões parece uma viúva,
      alguém que, sobre pinças, ao peso vai dobrado.
      olhem-na detrás: tal qual fresco pez!
      ou, melhor, um espesso borrão
      que negra tinta de um escrivão
      ao cair da pena ali lhe fez.


Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, 1999


sexta-feira, novembro 12, 2004

Arafat vai a sepultar

      www.cnn.com

Não sou maniqueísta e não tenho sobre o conflito do Médio Oriente nenhuma posição pró ou anti palestiniana e pró ou anti israelita mas, com sinceridade, também não sou completamente neutral, pois a minha formação e as circunstâncias que me fizeram, tal como sou hoje, inclinam o ponteiro da balança das minhas simpatias para um dos lados do conflito, que me dispenso de nomear porque, creio eu, é demasiado óbvio para quem me conhece ou para quem me lê.

Não defendo a concepção de que os judeus tenham direito de posse sobre qualquer dos territórios que constituem o Estado de Israel, mas reconheço que hoje, o Estado de Israel é um estado de direito, uma sociedade organizada e democrática.
Defendo que a Palestina seja definitivamente reconhecida como Estado soberano e reivindique como seus os territórios ocupados militarmente por Israel. Acordos posteriores sobre esta matéria serão da competência dos dois estados, soberanos e independentes.

Compreendo a luta dos palestinianos e a sua rebelião contra uma potência que usurpou parte do seu território e reconheço à sociedade israelita contemporânea o seu direito a organizar-se militarmente para defender a sua população e os seus haveres.

Sobre a Intifada, recordo as palavras de Casimiro de Brito (que aqui reproduzi em post com data de 22 de Outubro:

    "A maior parte dos mortos e feridos na Intifada são crianças ou adolescentes. Quem os fere, quem os mata? Quem os coloca na frente de combate ou quem atira a matar? Vão mais depressa para Alah, dizem. São abatidos duas vezes. (...)

Preocupa-me profundamente a situação de guerra permanente que há gerações se vive na Palestina, alimentada pelo ódio e pela intolerância religiosa, e em Israel, pelas mesmas circunstâncias.

Não me compete julgar o homem que hoje vai a sepultar, mas o líder Arafat foi, sem dúvida, um dos principais responsáveis pela degradada situação em que hoje se vive naquela região do mundo.

Mais do que a minha opinião (a que não me posso eximir, por consciência de quem escreve, publica e se expõe), quero indicar-vos este trabalho de James Bennet, jornalista de The New York Times, de que tomei conhecimento em Rua da Judiaria e que considero um trabalho sério de jornalismo, com adequado tratamento tecnológico de acesso pela Internet:


P.S.
Embora a data acima continue a ser a do dia 12 de Novembro, este post scriptum só foi editado a 13, em contenção respeitosa pela memória de Yasser Arafat, ontem sepultado.
Quero indicar um outro link para um outro trabalho multimédia de The New York Times, da responsabilidade do jornalista Greg Myre:

                 Yasir Arafat - Death of a Palestinian Leader (Clique no sublinhado)



quinta-feira, novembro 11, 2004

Um tempo em que a vida se vê de olhos vendados

Casimiro de Brito, a 11 de Novembro de 2000, falava de João César Monteiro e de Branca de Neve, de Álvaro de Campos, e deste nosso tempo a que ele chama negro e a que eu chamava cinzento há poucos dias atrás, mas que está seguramente bem mais preto do que Casimiro de Brito poderia imaginar, quatro anos passados:

  • João César Monteiro, menos libertino e mais cansado, apresenta um filme com poucas imagens. Setenta minutos ao negro, "aquela coisa horrivelmente obscura, aqui e acolá - o que deve agradar muito aos católicos - entrecortada por nesgas de céu azul", disse João. A perfeita metáfora deste tempo, um tempo em que a vida se vê de olhos vendados. É por isso que, exausto, ele diz "não" e pendura o casaco em cima da objectiva. O filme Branca de Neve, é paradigma do conto para crianças, que se julga ser colorido mas não é. Que bem negros são os dias da princesa, sempre com a bruxa da madrasta, repudiada pelo vaticínio do espelho mágico, a tentar envenená-la.
    (...)
    São cada vez mais negras as cores do buraco em que vivemos, as deste mundo real, o mesmo que se projecta nas histórias de encantar. Se abro um jornal, e já tenho os dedos manchados pelo negro da tinta e pela malícia dos títulos, percebo logo. E se ligo a televisão, com toda aquela policromia, ainda percebo melhor: é o negro que vejo, o inferno, a boçalidade do que me dizem ser a vida, embora ela, na sua omnipresença, se alimente de todas as cores. E depois o preto não é a morte das cores, mas pode ser esse momento em que as outras cores não nasceram ainda. Preto é o silêncio que rói entre pais e filhos adolescentes, ambos abandonados. E que cor tem um rio podre? Ou o leite das vacas loucas? Ou um menino (branco ou negro ou amarelo) sem infância? Quantos cegos somos, os invisuais e mais quantos. São pretos os lençóis dos amantes desavindos que teimam em dormir juntos. Preta, a política que já não fala de paz ou que invoca a paz e manda bombardear. O medo. O fracasso individual. A pornografia. A velhice. E alguma infância, recordo-me do poema de Álvaro de Campos, "Sonetos são infância, e, nesta hora, / A minha infância é só um ponto negro." Falta de respeito pelo público, disseram a João César. "Quero que o público se foda", respondeu.

    Casimiro de Brito
    Na Barca do Coração
    Campo das Letras, 2001



quarta-feira, novembro 10, 2004

La liberté libre

Uma amiga (Helena Monteiro) chamou-me a atenção para um site, de origem francesa, de homenagem a Arthur Rimbaud neste ano de comemoração do 150º aniversário do seu nascimento.
Trata-se de uma produção multimédia de extremo bom gosto, onde forma e conteúdo se equilibram de maneira notável.

Hoje, deve ficar disponível o 4º itinerário, dos oito que darão forma completa a este magnífico local na Internet.
Visitai-o! Eu irei visitá-lo também.

Entretanto deixo-vos com um seu poema, na língua original e numa tradução de Augusto de Campos (que me foi facultada num dos emails de divulgação de poesia, de Amélia Pais):






Voyelles

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu : voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes:
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d'ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d'ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d'animaux, paix des rides
Que l'alchimie imprime aux grands fronts studieux;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges:
- O l'Oméga, rayon violet de Ses Yeux!


Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos;
- Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!



segunda-feira, novembro 08, 2004

Império

http://statue-of-liberty.visit-new-york-city.com
Agora, que os ânimos, o ritmo e o volume das análises vão acalmando e sei que Bush ganhou, é mais fácil não cair na tentação de acreditar que o imperialismo americano, apesar de ter podido apresentar uma outra face, pudesse vir a defender outros interesses que não os do cartel que o justifica e o sustenta.



Já depois de ter terminado este escrito algo sentencioso, lembrei-me, recorri à minha biblioteca e transcrevo:

  • "(...)
    - O senhor exagera a sua importância, Sr. Hearst.
    - O senhor não compreende nada, Sr. Roosevelt.
    - Compreendo isto. Você, o dono... não, não, o pai do país, não conseguiu que os democratas o elegessem candidato à presidência, nem sequer num ano em que não havia a menor possibilidade de eles ganharem. Como explica isso?
    Os olhos de Hearst, muito claros e profundamente implantados, fitavam agora Roosevelt a direito; o efeito era ciclópico, intimidante. - Em primeiro lugar, dir-lhe-ei que não tem a menor importância quem é que se senta nessa cadeira. O país é governado pelos trusts, como você gosta de nos recordar. Eles compraram tudo e todos, incluindo você. A mim não me podem comprar. Eu sou rico. Por isso sou livre de fazer o que quero, e você não. Geralmente, alinho com eles apenas para manter o povo dócil, por agora. Faço-o através da imprensa. Mas você apenas desempenha um cargo. Em breve sairá daqui, e será o seu fim. Mas eu continuo sempre descrevendo o mundo em que vivemos, que assim se transforma naquilo que eu digo que ele é. (...)"

    Gore Vidal
    Império
    Editorial Presença, 1989