terça-feira, novembro 30, 2004

Rua Bernardo Marques

Rua Bernardo Marques, © António Baeta Oliveira, Novembro 2004
Rua Bernardo Marques

FINALMENTE, a obra tem um ar terminado.

Digo finalmente reportando-me a um post onde comento o início desta obra, no dia 14 de Julho de 2003.


© www.carvoeiro.com   © Margarida Soares   © António Baeta Oliveira

Estas três fotos documentam os três diferentes aspectos que conheci desta rua: a primeira, antes de meados dos anos 70; a segunda, desde esse tempo até 14 de Julho de 2003; a terceira, actual, desde a semana passada.

Bem! Francamente, gosto.
Creio, no entanto, que são desnecessariamente elevadas as "floreiras" centrais. A propósito das árvores lá plantadas (não me refiro às outras plantas), ainda pequenas, não sei, mas receio que o seu porte possa vir a dificultar a visão do que mais gostava nesta rua, ao tempo da primeira das três fotografias: "o espaço, a amplidão do olhar, o simples pormenor de ver a rua toda, desanuviada...", e as duas torres albarrãs da antiga cerca da medina.

É uma opinião e o meu contributo de cidadão.

P.S.
Entretanto, já visitei o 7.º Itinerário de Arthur Rimbaud
.


segunda-feira, novembro 29, 2004

+ amigos

O Manuel foi o ano passado colocado numa escola em Silves. Conhecemo-nos e ganhámos uma amizade que se consolidou numa estadia em Marrocos, num curso de civilização árabe, no passado Verão. Um dia, ao almoço, numa mesa cheia de amigos em alegre convivência, ao mostrar-lhe algo que havia escrito a propósito das impressões daquela estadia, ele puxou do seu moleskine e revelou-me este poema, que escrevera havia algum tempo e que me surpreendeu, pois desconhecia a sua escrita poética.
Num destes últimos fins-de-semana, por email, surpreendeu-me de novo, ao oferecer-mo. Agora é meu. Posso partilhá-lo:

  • quando o dia terminar

    quando o dia terminar. quero
    que deixes a janela aberta
    ao riso das crianças. que
    teus passos continuem
    a iluminar cada canto da casa.
    quero de novo teu corpo
    junto ao meu. num repousar
    de sombras. num silêncio só nosso

    Manuel A. Domingos


Em Limites de Luz, pode apreciar poesia do Manuel.


sexta-feira, novembro 26, 2004

Os amigos

Torquato da Luz foi meu amigo de infância, em Alcantarilha.
Quando terminámos o ensino primário, rumámos a diferentes locais para continuar a estudar. Fomo-nos encontrando esporadicamente durante algum tempo, mas não nos vemos há bem mais de trinta anos.
Foi mais fácil para mim seguir o seu percurso do que ele o meu, pois jornalista em Faro, Lisboa e Porto, mais tarde director, de jornais e do 2º canal da RTP, ganhou uma visibilidade mediática que me permitiu ir sabendo coisas de si.

É curioso, agora que escrevo, pensar no porquê de uma amizade que deveria ter terminado aos 10 anos de idade, quando nos separámos. Quantos amigos ao longo da vida já terei esquecido? Quantos colegas não mais recordei ou conseguirei recordar? Porquê o Torquato e alguns mais dos meus tempos de infância, outros da adolescência, ficaram amigos para sempre, mesmo que não nos vejamos, nem saibamos por vezes do seu paradeiro?
É uma amizade como se nos conhecêssemos por dentro.
Nem me lembro já de que forma passamos a comunicar com alguma regularidade nestes últimos tempos, por email ou comentários aqui, no blog, mas a memória afectiva guarda a espontaneidade de uma amizade de há dezenas de anos, sem nos vermos, como num encontro de amigos que se tivessem visto no dia anterior.

Hoje é dia de mais um aniversário do Torquato.

Por isso, este seu poema dedicado à terra que o viu nascer:

  • Alcantarilha

    Aqui é que sou eu
    aqui é que estou certo.
    Regaço a que regresso
    natural e liberto
    neste chão que é o meu
    me recomeço.

Um outro seu poema ainda, a Silves, a terra de quatro gerações de familiares que me antecederam (que eu saiba, pelo menos):

  • Silves

    Para além desta porta não há nada
    e esta escada
    pára de súbito no ar.

    E que dizer da janela
    também ela
    que já não dá para o mar?

    Nada diremos
    nada.

    Na memória arruinada
    só persiste o apelo:
    reter nas mãos o momento
    bebê-lo até ao fim
    bebê-lo lento
    no esplêndido ondular do teu cabelo.


quarta-feira, novembro 24, 2004

A cidade corticeira

Clique para ampliar - © Henrique Martins
Silves, anos 30

A História local não tem lugar no currículo escolar, salvo por iniciativa pessoal deste ou daquele professor de História, e o conhecimento do passado de qualquer localidade do nosso país restringe-se a um núcleo reduzido de estudiosos ou de curiosos.
Se o conhecimento da História local ou regional tem importância, então é importante que se reveja esta situação, de forma a que os currículos venham a incluir esse estudo, que mais não seja através de trabalhos de consulta das obras indicadas numa bibliografia de referência.

O que sobre a História de Silves mais facilmente chega ao comum dos cidadãos limita-se à ideia de que no passado "Silves foi conquistada aos árabes", Diogo de Silvese sobre a gesta da Expansão Portuguesa, creio ser possível assegurar que a maioria da população nunca ouviu falar de Diogo de Silves, o descobridor dos Açores, com direito ao seu reconhecimento por parte dos açorianos, homenagem na filatelia nacional, com nome de rua em Odivelas (vá-se lá saber porquê) e, penitencio-me se peco por erro, sem ter sequer uma simples placa toponímica na sua própria cidade.

Há, ainda, um outro período histórico de particular relevância, marcado no tecido urbano pela expansão da cidade para Nascente, patente na rua Cândido dos Reis, e em todas as cercas de fábricas abandonadas ou utilizadas em mais ou menos recentes urbanizações e requalificações: a Silves da indústria corticeira.
Essa Silves permanece ainda em toda a baixa da cidade e nos seus edifícios de maior porte, nos prédios oitocentistas que serviram todo o comércio local e até nos majestosos edifícios dos Paços do Concelho ou do Palacete Grade.
Clique para ampliar - © Henrique Martins   Clique para ampliar - © Henrique Martins
Apesar da recente intervenção de requalificação urbana da baixa citadina e dos novos edifícios e bairros a nascente e poente da cidade, Silves mantém ainda, além da sua silhueta (que parece não sofrer alteração desde os anos 30, de acordo com as fotos), as características arquitectónicas e urbanísticas dessa época, mescladas com as benfeitorias da moda e os remendos do tempo.

Aproveito o blog para estabelecer a ligação a um trabalho de João Madeira (Mestre em História do séc. XX), publicado no nº 12 de O Mirante, Dezembro de 1997 (orgão da Associação de Estudos e Defesa do Património Histórico-Cultural de Silves), sob o título Da alvorada do século ao Estado Novo.
Terá acesso a breve informação estatística, referências à formação da Associação de Classe dos Corticeiros (edifício de dois pisos na Rua da Sé, onde estão instalados alguns serviços camarários) e da Cooperativa Operária "A Compensadora" (ainda em funcionamento), notas sobre a luta pela redução da jornada de trabalho das 12 para as 10 horas diárias, relato da greve de 1924, que registou um morto e vários feridos (fez agora 80 anos a 22 de Junho), e outro relato, mais alongado, sobre os eventos de 18 de Janeiro de 1934, a crise do anarco-sindicalismo e a emergência do PCP, ainda referências ao jornal Voz do Sul, com sede no local onde ainda hoje há uma tipografia, na rua 5 de Outubro.

P.S.

Foi com surpresa que vi o Local & Blogal ser considerado o Blog do dia.
"De e sobre Silves. Muito interessante e original pela constante referência às nossas raízes e tradições árabes", citando Gabriel Silva, em Blasfémias, um blog com uma média superior a mil visitantes por dia.
Obrigado!

Atenção! Já está online o 6º itinerário de Arthur Rimbaud.


segunda-feira, novembro 22, 2004

Julião Quintinha

Jornalista e escritor, Julião Quintinha foi uma figura ilustre da vida silvense e da vida lisboeta da sua época (1886-1968). Assumiu um papel importante na direcção das associações que vieram a instalar-se no prédio da Rua do Loreto, em Lisboa, e deram origem à Casa da Imprensa.

Convém recordar esta figura do passado da minha terra que tende a cair no esquecimento, enterrada na lápide do nome de uma rua, e chamar a atenção para o valor da sua obra, apelar à sua eventual republicação.


É o que faço ao remeter-vos para O Pató, um pequeno conto, com a cidade de Silves como cenário, ao fundo.

Não resisto a atrair a vossa atenção, com um pequeno excerto que retrata esse mundo dos anos 20/30, do anarco-sindicalismo, da organização operária dos corticeiros, de que ouvia falar em surdina, quando miúdo, sem entender, mas que sempre me atraiu pela curiosidade que me desencadeava:

  • " (...) O mês corria tumultuoso, triste, faminto: os operários tinham protestado contra a miséria do salário; estalara, violenta, vermelha, ruidosa, a greve! O patrão mantinha-se irredutível, em guarda dos seus interesses, e o governo - como suprema solução - mandara tropa, soldados, cavalaria que guardava vinhedos e figueirais, que guardava tudo... Era raro o dia em que não havia "cenas" com a tropa, e depois, gente presa, gente ferida, muita gente sobressaltada. (...)"

Remeto-vos ainda para a divulgação de uma outra importante figura de Silves, da mesma época, que ilustrou o livro de Julião Quintinha, na imagem acima - Bernardo Marques (1899-1962), ilustrador e pintor, homenageado em Silves e Lisboa por ocasião do centenário do seu nascimento.

P.S.
Atrevo-me a aconselhar os meus leitores de Silves a guardar estes textos que sugiro, usando a impressora, e divulgá-los junto dos amigos, dos pais ou dos avós. É um serviço que se presta à memória de Julião Quintinha e Bernardo Marques e também à cidade de Silves.


sexta-feira, novembro 19, 2004

Aos amigos

A sua barba ainda era preta, bem preta, quando pela primeira vez o li.
Abro hoje um espaço para a sua poesia, percursora da modernidade que desemboca nos anos 60, nomeadamente pela pena dos poetas de Poesia 61, que ainda há pouco aqui evoquei.

Herberto Helder

        • Aos Amigos

          Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
          Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
          com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
          Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
          dentro do fogo.
          - Temos um talento doloroso e obscuro.
          Construímos um lugar de silêncio.
          De paixão.


      Herberto Helder
      Ou o Poema Contínuo
      Assírio & Alvim, 2004


quinta-feira, novembro 18, 2004

Globalização

Talvez seja esta a ultima transcrição que farei de Na Barca do Coração, de Casimiro de Brito, deste seu diário do ano 2000, a chegar ao fim.
Com data de 18 de Novembro:

  • "Globalização: a miséria dos países mais pobres e das classes mais pobres dos países ricos - já não comove. Já não surpreende ninguém. Banalizou-se. A não ser que haja (ou se fabrique no centro das imagens) um fait divers. Que se monte um espectáculo. É desolador. Uma espécie de prazer da indiferença? Do "não me vêem, não me fazem mal"? É o tempo da iliteracia e das seitas e dos mágicos para todos os gostos. Eles não querem morrer, querem é dormir, esquecer. Querem não ser. Amnésia. Uma árvore onde os pequenos galhos se multiplicam. E saltam de um galho para outro, silenciosos, videirinhos. A multidão está no chão, convulsa, compacta, esmagando-se."


Afinal não resisto a outra transcrição, dado que, como comentou Casimiro:
"(...) O maldito ofício de poeta. Resumir, com palavras mortas, a matéria viva (crua, cruel) do mundo.(...)"

Com data de 16 de Novembro:

  • "Às armas de Israel responderemos com as nossas almas", disse Arafat. Almas/armas, não sei se funciona em árabe, mas em português já li "almas brancas" por "armas brancas". E, não sei onde, "almas armadilhadas".