sexta-feira, dezembro 10, 2004

Actividade marítima ao tempo da civilização do Al-Ândalus

Astrolábio árabe, séc. XIII, Museu de História da Ciência, Oxford, © António Baeta Oliveira
Astrolábio árabe (séc. XIII)

Foi na sequência da fotografia do morabitino do post anterior, que me propus utilizar esta outra, também tirada na mesma ocasião.
Fica a ilustrar esta sugestão de leitura do texto de uma conferência do Prof. Doutor Christophe Picard (Universidade de Saint-Etienne, França), sob o título "Shilb e a actividade marítima dos muçulmanos no Oceano Atlântico".

Contém variadas menções a referências históricas à cidade de Silves, entre as quais o episódio da embaixada de Al-Ghazal junto dos Vikings, em representação da corte Omíada de Córdova e descreve Silves, o seu porto e os seus estaleiros de construção naval, como "um dos elos fundamentais para o desabrochar da navegação muçulmana no Oceano Atlântico".

Aqui fica uma breve citação:

  • Com efeito, Silves foi, na órbita de Sevilha, e tal como Huelva/Saltes, Faro, Alcácer do Sal ou Lisboa, um dos portos onde se enraizou toda uma vida marítima feita de comércio, de pirataria ou de actividades navais "oficiais". Esta animação pode ser evocada em dois sentidos. Por uma lado, um certo número de factos político-militares tiveram Silves por palco, permitindo dar a conhecer, mesmo que de forma incompleta, a evolução marítima da cidade; a maior parte das fontes é conhecida, mas pouco utilizada neste sentido. A outra fonte de informação refere um âmbito mais alargado, recolocando a evolução marítima de Silves no quadro geral da expansão da navegação atlântica.



sexta-feira, dezembro 03, 2004

Curta ausência

Irei ausentar-me por alguns dias.

Deixo-vos com uma fotografia que há algum tempo tirei no Ashmolean Museum, em Oxford, e que reproduz a imagem de um morabitino de D. Sancho I, uma valiosa moeda em ouro maciço (a nº 58 da colecção).

      Morabitino de D. Sancho I, Ashmolean Museum, Oxford, © António Baeta Oliveira

                Morabitino de D. Sancho I
          Se clicar na imagem obterá uma ampliação de um
          morabitino semelhante, com a devida vénia a
              http://moedamania.planetaclix.pt

A cunhagem de moeda era, ao tempo, uma importante forma de divulgação e publicitação da imagem do poder, e a utilização do morabitino de ouro (que reproduzia o modelo e o valor da moeda muçulmana) representava também, de certo modo, a afirmação de uma capacidade económica que se faz equivaler à da economia da civilização do al-Ândalus, ainda dominante, e que se prolongaria por mais algumas décadas depois da 1ª conquista de Silves por D. Sancho I, em Setembro de 1189.


quinta-feira, dezembro 02, 2004

A Padaria da Cooperativa

Padaria da Cooperativa, © António Baeta Oliveira, Agosto 2002

Aconteceu que andei a tirar fotografias à Padaria da Cooperativa (Cooperativa Operária "A Compensadora"), na tarde da passada sexta-feira, com a intenção de alertar para a necessidade de uma intervenção autárquica, no sentido de vir a considerar este edifício como de interesse municipal, quando, de regresso a casa me deparo com uma convocatória da cooperativa onde se refere o interesse da autarquia em adquirir o edifício.

É de facto um edifício notável, pela originalidade da sua planta (hexágono irregular, aparentando um pentágono), a sua inserção no cruzamento das ruas, sem conflitualidade,...
Padaria da Cooperativa, © António Baeta Oliveira, Novembro 2004 ... a harmonia das formas, a sua elegância e equilíbrio, os materiais utilizados, os elementos decorativos do telhado, a sua finalidade e a sua marca na história urbana da cidade.

Seria um enorme atentado se viesse a sofrer alterações no seu traçado e não viessem a ser respeitados alguns dos materiais que constituem o seu carácter único e insubstituível.

Recordo com prazer o encanto manifesto do Mestre Lagoa Henriques, num dia em que visitou Silves a convite da Escola Dr. Garcia Domingues (ao tempo ainda não tinha o nome do seu actual patrono), perante este mesmo edifício.

Eu iria só propor o imóvel como de interesse municipal, mas assim fica melhor defendido, como património municipal.
Parabéns pela decisão.


terça-feira, novembro 30, 2004

Rua Bernardo Marques

Rua Bernardo Marques, © António Baeta Oliveira, Novembro 2004
Rua Bernardo Marques

FINALMENTE, a obra tem um ar terminado.

Digo finalmente reportando-me a um post onde comento o início desta obra, no dia 14 de Julho de 2003.


© www.carvoeiro.com   © Margarida Soares   © António Baeta Oliveira

Estas três fotos documentam os três diferentes aspectos que conheci desta rua: a primeira, antes de meados dos anos 70; a segunda, desde esse tempo até 14 de Julho de 2003; a terceira, actual, desde a semana passada.

Bem! Francamente, gosto.
Creio, no entanto, que são desnecessariamente elevadas as "floreiras" centrais. A propósito das árvores lá plantadas (não me refiro às outras plantas), ainda pequenas, não sei, mas receio que o seu porte possa vir a dificultar a visão do que mais gostava nesta rua, ao tempo da primeira das três fotografias: "o espaço, a amplidão do olhar, o simples pormenor de ver a rua toda, desanuviada...", e as duas torres albarrãs da antiga cerca da medina.

É uma opinião e o meu contributo de cidadão.

P.S.
Entretanto, já visitei o 7.º Itinerário de Arthur Rimbaud
.


segunda-feira, novembro 29, 2004

+ amigos

O Manuel foi o ano passado colocado numa escola em Silves. Conhecemo-nos e ganhámos uma amizade que se consolidou numa estadia em Marrocos, num curso de civilização árabe, no passado Verão. Um dia, ao almoço, numa mesa cheia de amigos em alegre convivência, ao mostrar-lhe algo que havia escrito a propósito das impressões daquela estadia, ele puxou do seu moleskine e revelou-me este poema, que escrevera havia algum tempo e que me surpreendeu, pois desconhecia a sua escrita poética.
Num destes últimos fins-de-semana, por email, surpreendeu-me de novo, ao oferecer-mo. Agora é meu. Posso partilhá-lo:

  • quando o dia terminar

    quando o dia terminar. quero
    que deixes a janela aberta
    ao riso das crianças. que
    teus passos continuem
    a iluminar cada canto da casa.
    quero de novo teu corpo
    junto ao meu. num repousar
    de sombras. num silêncio só nosso

    Manuel A. Domingos


Em Limites de Luz, pode apreciar poesia do Manuel.


sexta-feira, novembro 26, 2004

Os amigos

Torquato da Luz foi meu amigo de infância, em Alcantarilha.
Quando terminámos o ensino primário, rumámos a diferentes locais para continuar a estudar. Fomo-nos encontrando esporadicamente durante algum tempo, mas não nos vemos há bem mais de trinta anos.
Foi mais fácil para mim seguir o seu percurso do que ele o meu, pois jornalista em Faro, Lisboa e Porto, mais tarde director, de jornais e do 2º canal da RTP, ganhou uma visibilidade mediática que me permitiu ir sabendo coisas de si.

É curioso, agora que escrevo, pensar no porquê de uma amizade que deveria ter terminado aos 10 anos de idade, quando nos separámos. Quantos amigos ao longo da vida já terei esquecido? Quantos colegas não mais recordei ou conseguirei recordar? Porquê o Torquato e alguns mais dos meus tempos de infância, outros da adolescência, ficaram amigos para sempre, mesmo que não nos vejamos, nem saibamos por vezes do seu paradeiro?
É uma amizade como se nos conhecêssemos por dentro.
Nem me lembro já de que forma passamos a comunicar com alguma regularidade nestes últimos tempos, por email ou comentários aqui, no blog, mas a memória afectiva guarda a espontaneidade de uma amizade de há dezenas de anos, sem nos vermos, como num encontro de amigos que se tivessem visto no dia anterior.

Hoje é dia de mais um aniversário do Torquato.

Por isso, este seu poema dedicado à terra que o viu nascer:

  • Alcantarilha

    Aqui é que sou eu
    aqui é que estou certo.
    Regaço a que regresso
    natural e liberto
    neste chão que é o meu
    me recomeço.

Um outro seu poema ainda, a Silves, a terra de quatro gerações de familiares que me antecederam (que eu saiba, pelo menos):

  • Silves

    Para além desta porta não há nada
    e esta escada
    pára de súbito no ar.

    E que dizer da janela
    também ela
    que já não dá para o mar?

    Nada diremos
    nada.

    Na memória arruinada
    só persiste o apelo:
    reter nas mãos o momento
    bebê-lo até ao fim
    bebê-lo lento
    no esplêndido ondular do teu cabelo.


quarta-feira, novembro 24, 2004

A cidade corticeira

Clique para ampliar - © Henrique Martins
Silves, anos 30

A História local não tem lugar no currículo escolar, salvo por iniciativa pessoal deste ou daquele professor de História, e o conhecimento do passado de qualquer localidade do nosso país restringe-se a um núcleo reduzido de estudiosos ou de curiosos.
Se o conhecimento da História local ou regional tem importância, então é importante que se reveja esta situação, de forma a que os currículos venham a incluir esse estudo, que mais não seja através de trabalhos de consulta das obras indicadas numa bibliografia de referência.

O que sobre a História de Silves mais facilmente chega ao comum dos cidadãos limita-se à ideia de que no passado "Silves foi conquistada aos árabes", Diogo de Silvese sobre a gesta da Expansão Portuguesa, creio ser possível assegurar que a maioria da população nunca ouviu falar de Diogo de Silves, o descobridor dos Açores, com direito ao seu reconhecimento por parte dos açorianos, homenagem na filatelia nacional, com nome de rua em Odivelas (vá-se lá saber porquê) e, penitencio-me se peco por erro, sem ter sequer uma simples placa toponímica na sua própria cidade.

Há, ainda, um outro período histórico de particular relevância, marcado no tecido urbano pela expansão da cidade para Nascente, patente na rua Cândido dos Reis, e em todas as cercas de fábricas abandonadas ou utilizadas em mais ou menos recentes urbanizações e requalificações: a Silves da indústria corticeira.
Essa Silves permanece ainda em toda a baixa da cidade e nos seus edifícios de maior porte, nos prédios oitocentistas que serviram todo o comércio local e até nos majestosos edifícios dos Paços do Concelho ou do Palacete Grade.
Clique para ampliar - © Henrique Martins   Clique para ampliar - © Henrique Martins
Apesar da recente intervenção de requalificação urbana da baixa citadina e dos novos edifícios e bairros a nascente e poente da cidade, Silves mantém ainda, além da sua silhueta (que parece não sofrer alteração desde os anos 30, de acordo com as fotos), as características arquitectónicas e urbanísticas dessa época, mescladas com as benfeitorias da moda e os remendos do tempo.

Aproveito o blog para estabelecer a ligação a um trabalho de João Madeira (Mestre em História do séc. XX), publicado no nº 12 de O Mirante, Dezembro de 1997 (orgão da Associação de Estudos e Defesa do Património Histórico-Cultural de Silves), sob o título Da alvorada do século ao Estado Novo.
Terá acesso a breve informação estatística, referências à formação da Associação de Classe dos Corticeiros (edifício de dois pisos na Rua da Sé, onde estão instalados alguns serviços camarários) e da Cooperativa Operária "A Compensadora" (ainda em funcionamento), notas sobre a luta pela redução da jornada de trabalho das 12 para as 10 horas diárias, relato da greve de 1924, que registou um morto e vários feridos (fez agora 80 anos a 22 de Junho), e outro relato, mais alongado, sobre os eventos de 18 de Janeiro de 1934, a crise do anarco-sindicalismo e a emergência do PCP, ainda referências ao jornal Voz do Sul, com sede no local onde ainda hoje há uma tipografia, na rua 5 de Outubro.

P.S.

Foi com surpresa que vi o Local & Blogal ser considerado o Blog do dia.
"De e sobre Silves. Muito interessante e original pela constante referência às nossas raízes e tradições árabes", citando Gabriel Silva, em Blasfémias, um blog com uma média superior a mil visitantes por dia.
Obrigado!

Atenção! Já está online o 6º itinerário de Arthur Rimbaud.