quinta-feira, janeiro 13, 2005

Líricos algarvios

Garcia Domingues, arabista silvense, refere-se na Introdução à sua História Luso-Árabe (1945) aos poetas algarvios, dizendo: "(...) Nalguns deles chega a surgir com bastante realidade a imagem do arabismo passado e por vezes ela sedu-los completamente, sobrepondo-se à própria representação do presente. (...)"

Da minha lista de poetas, ao fundo da página, e referindo-me aos que o arabista silvense conhecia, ao tempo em que publicou a sua obra, já constam dois líricos algarvios - João de Deus (Messines - Silves) e João Lúcio (Marim - Olhão).

Chegou a hora de Cândido Guerreiro (Alte - Loulé).

      • Nostalgia

        Naquela torre, alcácer de reis mouros
        Entram fantasmas por ocultas sendas
        Torre de encantamentos e d'agouros
        Torres de histórias, mas, torre de lendas.

        Por essa noite aos altos miradoiros
        Vêm assomar aparições tremendas
        Tingem punhais, há gritos e contendas
        E reza a fama que ali há tesoiros.

        Fui lá ter uma vez a horas mortas
        E, intemerato, o coração valente,
        Bradei: «Filhos d'Agar abri-me as portas»

        Quero viver convosco o sonho do passado
        Ser sombra como vós, porque o presente,
        É ermo onde eu ando desterrado.

P.S.
Os que quiserem colaborar nesta mostra de líricos do Algarve serão bem-vindos. Deixo aqui o meu endereço para o efeito: Local & Blogal (basta clicar).
Para evitar que o meu programa anti-spam remeta os emails para uma pasta indesejada, aconselho que coloquem "Liricos algarvios" como "assunto" da mensagem .


quarta-feira, janeiro 12, 2005

O lado reluzente das laranjeiras

      • Ficas toda perfumada de passar por baixo do vento que vem
        do lado reluzente das laranjeiras.
        E crepitam-me as pontas dos dedos ao supor-te no escuro.
        Queimavas-me junto às unhas.
        E a queimadura subia por antebraço e braço
        ao coração sacudido. Eu - perfumado
        e queimado por dentro: um laço feito de odor
        transposto, ar fosforescendo, uma árvore
        banhada
        nocturnamente. Tudo em mim trazido
        súbito
        para o meio. Quando este saco de sangue rodava
        defronte da abertura
        prodigiosa.

Herberto Helder
Ou o poema contínuo
Assírio & Alvim, Lisboa 2004


terça-feira, janeiro 11, 2005

O que é que Cacela tem?

Cacela, Verão de 2004 - © António Baeta Oliveira

Ibn Darraj, que podeis ler, procurando entre os poetas luso-árabes da coluna da direita, é identificado como sendo natural de Cacela.
De Cacela é também o poeta que vos trago hoje, Abu al-'Abdari, que já consta da mesma lista de poetas.
Em Cacela vive um transmontano, a que me refiro na lista de poetas ao fundo da página (cuja leitura aconselho vivamente), José Carlos Barros de seu nome e que, por um poema que ontem me dedicou, depertou-me a vontade de lhe retribuir na mesma moeda, se bem que recorra ao empréstimo destas palavras, de alguém que, há dez séculos atrás, também conheceu esta tonalidade de fim de tarde e os segredos do vai e vem destas marés da ria:

      • já era nela, antes de ser paixão,
        inquietude a cada momento
        já o amor lhe dominava o coração
        ainda antes de sentir o seu tormento.
Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1998


segunda-feira, janeiro 10, 2005

Santos Passos

Foi um dia prazenteiro, o do encontro de alguns amigos ligados aos blogs algarvios com o luso-brasileiro Santos Passos.

Em torno da mesa de partilha de ideias, emoções, projectos, prazeres, amizade... juntaram-se ao visitante e sua esposa, eu, Mitus, Um pouco mais de Sul, Ene coisas e Asul.
No final do longo almoço continuou a cavaqueira e houve ocasião para um passeio de barco na mais formosa das rias...


                                                                        ... até ao anoitecer.

Quando o dia clareou já um poema (5) me aguardava.
Confirmo: a disposição foi das melhores, ao almoço e fora dele.
Just a perfect day...

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Por terras de Sua Majestade (II)

As marcas do velho Império não se esgotam na imponência das amplas praças e jardins ou na magnificência dos edifícios. Encontrei-as também no local que elegi para o meu segundo dia em Londres: Camden Town.
Aqui se aglomeram, em sucessivos mercados, comerciantes do Industão, da África, do Oriente mais longínquo, confundindo o colorido das suas vestes, os acordes e os ritmos das suas músicas, os materiais e símbolos do seu artesanato, numa amálgama exótica e surpreendente.
Juntam-se-lhes agora, também, os expoliados da América Latina e os deserdados do Leste Europeu.

Camden Town - © António Baeta OlveiraCamden Town - © António Baeta OlveiraCamden Town - © António Baeta Olveira

Na proximidade, um dos canais do rio e as curiosas barcaças ambulantes, onde vivem estas famílias lacustres, que já antes avistara nos canais do mesmo Tamisa, a pouco mais de uma centena de quilómetros de distância, em Oxford.

Oxford - © António Baeta OlveiraOxford - © António Baeta OlveiraOxford - © António Baeta Olveira

Oh! Esta Oxford, onde a tranquilidade se pode encontrar nas bucólicas margens do seu rio, nas veneráveis ruas onde se sucedem as fachadas dos edifícios universitários, numa esplanada de bar de uma estreita ruela ou até, em pleno bulício de uma movimentada e cosmopolita rua comercial, num Starbucks Café.

P.S.
Estas e outras fotos podem ser vistas em Oxford ou London.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Por terras de Sua Majestade

Vista aérea de uma parcela da costa algarvia - © António Baeta Oliveira

Eu, mulher e filhas, abandonámos este tapete a nossos pés para nos juntarmos em família, pelo Natal, com a minha outra filha, Joana, em terras de Sua Majestade Britânica.

Havia tempo que não visitava, em Londres, a margem sul do Tamisa. Fiquei deslumbrado pela forma como convivem tão harmoniosamente as clássicas contruções da histórica cidade com a mais recente arquitectura de novas pontes e de novos edifícios, na sua maioria dedicados a funções culturais como o teatro, a ópera, a música e o cinema ou ainda os edifícios envidraçados, de formas complexas, parecendo desafiar a gravidade.

© António Baeta Oliveira© António Baeta Oliveira© António Baeta Oliveira

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Local e Blogal

Este post, o primeiro deste novo ano de 2005, é dos que classificaria como Local e Blogal:

    Local, porque o trecho que irei transcrever tem o cheiro, o palpitar, a vivência de quem conhece e guarda memórias desta minha terra e surgiu do aparo cor de bronze ou da "remington" de um seu filho.
    Blogal (glosando Global), porque o faço num blog, mas sobretudo porque se trata de uma escrita poética que transcende o mero interesse regional.

        © Margarida Soares Ramos
        Foto de Margarida Soares Ramos

      • (...) A céu aberto, com a pedra de amolar girando, espirrando mil centelhas de um fogo inicial, as mãos dos trabalhadores desta arte antiquíssima afiavam as facas de rebanear que lhes serviam para produzir cortes límpidos no interior das pranchas de cortiça - pranchas, como grandes telhas de casca de sobreiro, barcos de brincar, talvez, restos de animais sem medida e sem nome. Eram fatias longilíneas depois, essas peças em monte, à espera de outras lâminas que as dividissem em cubos toscos ou as transformassem em cilindros e aparas leves. Artesãos quadradores, escolhedores manuais de rolha, gestos secos, instrumentos de corte, agulhas grossas e fios de sisal, letras azuis, enfim, e o bojo tenso dos sacos de serrapilheira. Um cheiro doce no ar, o pó, o fumo das marcas incandescentes, os batimentos certos, as máquinas arcaicas chiando por cada talhe redondo, com as suas artroses no ferro a mover-se sob o pingo-pingo do óleo que as lubrificava a partir de latas em funil. O tempo medido assim, gota a gota, ou reconvertido em ritmo pelo jogo das mãos puxando e empurrando o aço das garlopas, respiração a espaços, cubo após cubo, rolha após rolha. (...)


    Rocha de Sousa
    (Professor/Pintor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa)
    A Casa Revisitada