quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Trinta Anos Depois

Bestiário, em homenagem a Julio Cortázar, é uma revista brasileira que se propõe publicar on-line contos ou outros textos a que reconheça qualidade, de acordo com os seus critérios de avaliação. Conheci a existência dessa revista através de uma outra (em papel), publicada no Algarve - EM CENA - e trago o assunto à colação pois um dos contos deste seu último número, além de referenciar expressamente a cidade de Silves, foi escrito pelo meu amigo HFR.
Trata-se de um conto sobre o 25 de Abril - Trinta Anos Depois - e começa assim...



    • Fim da tarde. Regressava, com os meus colegas de escola, da cidade de Silves onde estudava num ano comercial para o acesso ao liceu. Um ano obrigatório que o ensino fascista criou para obrigar os filhos dos pobres a mostrar que tinham competências para passar da Escola Técnica para o Liceu. Em Portimão, onde tinha nascido e onde morava, a Escola Técnica terminava no 5º ano e por esse motivo deslocava-me, a pé, do bairro operário onde morava até à estação dos comboios, para ir até à cidade dos poetas árabes. (...)

Um pouco mais à frente, volta a referenciar a minha cidade:


    • (...) A malta rumou toda para a cidade e a manif foi engrossando, como o rio Arade nos tempos de chuva quando as águas barrentas trazem as laranjas de Silves, até chegar ao centro, passados cerca de 20 minutos. (...)


Consegui despertar a vossa atenção?
O conto está disponível em Bestiário, nº 12.

P.S.
Não vou alterar o texto, mas precisar, aqui, que a revista "EM CENA", a que acima fiz referência, não foi a que me revelou a existência de Bestiário, antes sim a Periférica.
É o que acontece a quem não confirma o que está a dizer.
O comentário de HFR, abaixo, permitiu a correcção, o que agradeço.
Também me apeteceu referir as outras duas revistas que o comentário menciona, mas receei perturbar a atenção dos leitores.
A minha real intenção era o conto de HFR
.


terça-feira, fevereiro 01, 2005

A internacionalização da Amazónia

Há algum tempo recebi por email um texto que se dizia corresponder ao conteúdo de uma resposta que o Ministro da Educação do Brasil teria dado, em público, numa Universidade americana, à pergunta de um certo estudante universitário.
Achei o texto curioso, mas como não tinha garantias da sua veracidade e não o vi publicado nos blogs que regularmente visito, resolvi solicitar informação avalizada sobre a sua autenticidade junto de um amigo.
A resposta chegou finalmente há alguns dias, confirmando esse texto, e resolvi publicá-lo aqui, para divulgação.
Saibam que entretanto Cristovão Buarque, o então Ministro da Educação, foi demitido, assumindo o seu lugar o antigo Prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro.
Nota: O texto foi transcrito conforme a norma brasileira.


    • Durante um debate numa universidade nos Estados Unidos, o actual Ministro da Educação, CRISTOVÃO BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência nalguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros).
      Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta do Sr. Cristovão Buarque:


      "De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.
      Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

      Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.

      Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

      Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.
      Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

      Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

      Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

      Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

      Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!"



segunda-feira, janeiro 31, 2005

Líricos algarvios (XI)

Dou por terminada hoje esta série de posts dedicados aos "Líricos algarvios"; de forma despretensiosa, não exaustiva, com a mera intenção de recordar e divulgar alguns vultos da poesia do Algarve, muitas vezes esquecidos na poeira das estantes e do tempo.

O meu obrigado aos que colaboraram, aos que comentaram e aos que os leram.

O poema que aqui coloco hoje é, de certa forma, uma retribuição a quem publicou um extenso trabalho - Subsídios para a História da Poesia do Algarve (Sécs. XI-XX), numa edição de «Voz de Silves» e «Gazeta de Lagoa», 2000 - Manuel Neto dos Santos (Alcantarilha - Silves):



      • Este meu sangue é mouro e tem contornos
        Das dunas, modeladas pelo vento,
        Dos teus beijos dos quais eu estou sedento,
        Do teu corpo despido, sem adornos.

        O meu sangue tem sonhos velhos, mornos,
        Porque fiz da ilusão o paramento
        Que se foi transformando neste unguento.
        Foi com a areia e o choro que fiz os fornos...

        Dos trigais do passado eu ceifo o trigo.
        Cozo o meu pão e o Alcorão bendigo
        Quando ao cair da tarde escondo o rosto.

        Beijando os grãos de areia modelados
        Por estes lábios meus, fiéis, cansados
        Do sentir este sangue cor de mosto.

Manuel Neto dos Santos
Atalaia
Câmara Municipal de Silves, 1989


sexta-feira, janeiro 28, 2005

Pelo aniversário da Nena


      • Dia de Anos

        Com que então caiu na asneira
        De fazer na sexta-feira
        Vinte nove anos! Que tola!
        Ainda se os desfizesse...
        Mas fazê-los não parece
        De quem tem muito miolo!

        Não sei quem foi que me disse
        Que fez a mesma tolice
        Aqui o ano passado...
        Agora o que vem, aposto,
        Como lhe tomou o gosto,
        Que faz o mesmo? Coitado!

        Não faça tal; porque os anos
        Que nos trazem? Desenganos
        Que fazem a gente velho:
        Faça outra coisa; que em suma
        Não fazer coisa nenhuma,
        Também lhe não aconselho.

        Mas anos, não caia nessa.
        Olhe que a gente começa
        Às vezes por brincadeira,
        Mas depois se se habitua.
        Já não tem vontade sua,
        E fá-los queira ou não queira!

João de Deus

Nota: Os caracteres mais pequenos apontam para adaptações de circunstância; o poema de João de Deus não foi dedicado à Nena, minha filha, mas a Zeferino Brandão, que fazia vinte seis anos a uma quinta-feira.


quinta-feira, janeiro 27, 2005

Líricos algarvios (X)

Vai longa a mostra de "Líricos algarvios". Termino hoje as colaborações que me foram enviadas, com a participação do meu amigo e poeta José Carlos Barros, que há tempo consta da lista ao fundo desta página.
António Vicente Campinas (Vila Nova de Cacela):

      • Idealismo
        (Poema dedicado a António Pereira, de Armação de Pêra)

        Quando pequeno, o meu pensar errava,
        embriagado de luz e fantasia,
        por caminhos que nunca procurava,
        por lugares que nunca percorria.

        No seu feliz enlevo, ele cantava,
        - nesta vida de dor e rebeldia! -
        somente o Bem e o Amor, - em melodia
        que a minha ingénua alma fascinava.

        O tempo foi passando... E foi em vão
        que esperei sempre, sempre, a perfeição
        p'ra mim muito sonhada e não vivida.

        Confiado na Justiça e na Beleza,
        quedei-me bom, mas cheio de pobreza,
        sem, ao menos, saber viver a vida...

(in "Açucenas Bravas", Livraria Horácio Salvador, Faro, 1938)


quarta-feira, janeiro 26, 2005

Líricos algarvios (IX)

Antes que ele venha a ser referido por outro Baeta, que não eu, permitam-me que vos recorde António Aleixo:



      • A rica tem nome fino,
        A pobre tem nome grosso;
        A rica teve um menino,
        A pobre pariu um moço!

Continuo então com mais uma colaboração do prestimoso FCR, desta feita com Clementino Baeta:
          • Ficas tu em meu lugar

            O Aleixo, por saber
            Que eu sabia improvisar,
            Talvez pra me envaidecer,
            Disse-me um dia a cantar:
            Baeta, quando eu morrer,
            Ficas tu em meu lugar.

            Respondi com sofrimento:
            - Aleixo, muito obrigado.
            Mas, por ver que o teu talento
            É tão mal recompensado,
            Farei pra que meu sustento
            Nunca dependa do fado.

            Sabes bem que valorizo
            A poesia popular.
            E sabes também que preciso
            De te ouvir pra me inspirar,
            Mas que a cantar de improviso
            Jamais te posso igualar.

            Tristonho me respondeu:
            - Baeta, tu tens razão,
            Não queiras ser como eu,
            Que vivo do que me dão
            E ainda ninguém me deu
            A justa compensação.

            A sua vida foi drama
            Demasiado absorto:
            Quando caiu numa cama,
            Não recebeu o conforto
            Daqueles que lhe dão fama
            Agora depois de morto.

(in "Sonhos de Emigrante")


terça-feira, janeiro 25, 2005

Líricos algarvios (VIII)

Vou prosseguir, com a colaboração de FCR.
Dizia-me, no email que me enviou, que a sua selecção seria "... para um poeta vivo. Temos, geralmente, tendência (com toda a reverência para a sua paixão andaluza ) para privilegiar os mortos tão vivos, em detrimento dos vivos tão mortos."

Ofereceu-me este poema de Elviro Rocha Gomes:

      • A ovelha tosquiada

        Tosquiaram a ovelha.
        Parece uma velha.
        Tão lisa e tão fria
        parece uma rã.
        Umas mãos hábeis
        roubaram-lhe o garbo
        tirando-lhe a lã.
        Assim ficou nua
        no meio do prado.
        Anda vaidade
        passeando na rua
        com lã que era sua.

        E ela anda nua.
Elviro Rocha Gomes
À luz da singeleza, POEMAS, Faro 1999