sexta-feira, março 11, 2005

O Segredo de Joe Gould

Estou deliciado com esta sugestão da Isabel, de Aba de Heisenberg - Joseph Mitchell, O Segredo de Joe Gould, Publicações D.Quixote, Lisboa 2003.

Trata-se da vida e personalidade de um licenciado em Harvard que um dia decidiu reduzir ao mínimo as suas necessidades, tornando-se um sem-abrigo, na Nova Iorque da primeira metade do século XX, e dedicar-se exclusivamente ao que designa como "Uma História Oral do Nosso Tempo", convencido da sua incapacidade para se adaptar ao que quer que seja da vida prática do dia-a-dia. Sou um "ambiesquerdo", assim se classifica, "como se fosse canhoto das duas mãos".

A escrita de Joseph Mitchell prendeu-me desde o primeiro período do segundo trabalho, que tem o título do próprio livro - O Segredo de Joe Gould - e Lobo Antunes, que o prefacia, afirma: "Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos anos, reunião de dois trabalhos de um grande escritor (...)"

P.S.
Sobre o 11 de Março remeto-vos para Almocreve das Petas e Blog da Periférica

quinta-feira, março 10, 2005

Silves e a Orquestra do Algarve


Numa iniciativa da Caixa Agrícola de Messines, a Orquestra do Algarve actuou no concelho de Silves, no âmbito das comemorações do nascimento de João de Deus.

A minha referência a esta actuação da orquestra não foi motivada pela generosa afluência dos messinenses à sua Igreja Matriz, no dia em que se recordou o mais ilustre dos seus filhos, ou até pelo repertório executado, como só uma orquestra regional pode fazer, sabedora que é da forma como agradar ao público que lhe compete servir, pouco informado e habituado às exigências da música erudita: Mozart e Strauss, em temas mais conhecidos e divulgados, como o Danúbio Azul, ou a opção por detalhes de execução que suscitam curiosidade e enlevo, como o pizzicato.

O motivo também não residiu na minha preocupação pela quase total ausência de gente jovem neste concerto, bem como noutras actividades e iniciativas de teor cultural, que não de mero divertimento; preocupação que torno extensível à ausência dos seus educadores, os professores, em número sempre diminuto, o que talvez possa explicar algo sobre o alheamento juvenil ou até sobre o seu próprio alheamento, pois o fenómeno vem-se verificando há algumas gerações.

O facto que me conduziu à redacção deste post foi, antes de tudo, o da inusitada presença da Orquestra do Algarve no concelho de Silves. É que a Câmara de Silves dirige uma das poucas (4 das 16) autarquias do Algarve que não apoia a sua orquestra regional, numa atitude injustificável de quebra de solidariedade institucional, com prejuízo do acesso dos seus munícipes à fruição dos inestimáveis bens da produção cultural.

Já noutra ocasião, neste mesmo blog, sob o título "Silves à margem da cultura regional" - veja aqui - me referi a esta inexplicável atitude de uma câmara municipal que reivindicava para o seu concelho o slogan "Silves, capital da Cultura", quando não "capital da palavra", como o faz agora na última edição da sua agenda municipal, tanto mais quanto esta quebra de solidariedade institucional no âmbito da música se verifica também na falta de apoio à ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve), privando os seus munícipes do acesso à sua companhia regional.
E que dizer da recente recusa desta Câmara em aceitar sedear em Silves o Al-Masrah, uma nova companhia profissional de teatro, cujo projecto foi idealizado em função desta cidade, nas suas diversas componentes de formação de públicos, a partir de trabalho junto da população escolar do concelho e que acabou por ser acolhida por Macário Correia no município de Tavira!?

- Ah! As pessoas não gostam; não aparecem.

Como se há-de gostar do que se não conhece?

quarta-feira, março 09, 2005

Os Passos dos meus passos (II)

(Continuação)
  • (...)
    Chegava a hora dos preparativos do "Passo" do Francisco António. Era assim conhecido o do meu avô. O carregar e montar o altar, as toalhas e os paramentos, as velas, as flores e o vestir das nossas indumentárias: de anjinho para a minha irmã e de São Luís para mim, as que recordo melhor.

    A procissão dessa altura, ainda não havia avenida junto ao rio, vinha até ao largo onde hoje se situa o Mercado Municipal e encaminhava-se para o Largo Coronel Figueiredo, junto à ponte repleta de gente, anunciada pelos vizinhos do outro lado da rua, com casas mesmo sobre o rio, o Zé Vicente, ou da outra esquina em frente, a Aurora Pombo. A procissão, longa e silenciosa, aqui ou além pontuada pelo rufar de um tambor, aguardava, antes de entrar na rua Mouzinho de Albuquerque, que o padre, sob o pálio, acompanhado por um grupo de músicos, se dirigisse ao "Passo" do meu avô(1) Passos em Silves, Março de 2005, © António Baeta Oliveirae aí se desempenhasse a cerimónia de uma passagem da Paixão, numa toada musical triste, dramática e angustiante, como a que voltei a recordar nestes Passos do ano de 200(5).

    Incorporados no cortejo seguíamos então até à Sé.

    Quão diferente era esta Igreja daquela outra de Alcantarilha!

    Aqui já não era a aventura e o mistério da descoberta do que fica por detrás das coisas, era o esmagamento da dimensão, da grandiosidade de uma Sé que fora episcopal, da minha identificação com os que neste mesmo lugar me antecederam, de um orgulho silvense que de pequenino começou a despertar em mim e que me fazia acreditar na frase tantas vezes ouvida e repetida: "Passos em Silves; Semana Santa em Sevilha".

    Hoje a religiosidade tem uma prática mais íntima, não vive da exterioridade das procissões, mas a tradição religiosa ainda exige estas evocações solenes dos passos da vida de Cristo. A procissão do enterro do Senhor, à noite, no centro histórico desta cidade de Silves, com as matracas ressoando sob o arco do Torreão da Almedina, anunciando as opas escuras, as velas tremeluzentes, os quadros, tombados, da Igreja da Misericórdia, a tumba do Senhor, num ambiente de tom medieval, ou ainda a procissão da manhã do Domingo de Páscoa, florida, recebida entre janelas alindadas por colchas multicores, com os vestidos novos das raparigas ainda mais bonitas, são ainda uma atracção que a todo o custo evito perder.


(1) (nota de hoje) - O "Passo" do meu avô (devo corrigir, por respeito à sua memória, era das minhas tias, pois o meu avô era um republicano laico, "à antiga") passou à família Rita, da mercearia ao lado e, hoje em dia, mantém-se ainda na posse dessa família, ao lado de quem voltei a residir, noutra rua e noutro contexto.

terça-feira, março 08, 2005

Dia da Mulher e de João de Deus

Afinal tive que interromper, por um dia, a continuação do post anterior, sobre Os Passos, para manifestar a minha solidariedade com todas as mulheres e homens que se esforçam por ver instituída, no dia-a-dia, a igualdade de direitos entre todos os seres humanos, sem distinção de sexo, etnia ou religião e, particularmente, com as mulheres que ainda são violentadas na sua dignidade, ao ser criminalizadas pela prática do aborto.

Quanto a João de Deus, recordo-o através deste poema, bem jocoso, tão ao jeito algarvio:

  • O Dinheiro

    O dinheiro é tão bonito,
    Tão bonito, o maganão!
    Tem tanta graça, o maldito,
    Tem tanto chiste, o ladrão!
    O falar, fala de um modo...
    Todo ele, aquele todo...
    E elas acham-no tão guapo!
    Velhinha ou moça que veja,
    Por mais esquiva que seja,
                  Tlim!
                  Papo.

    E a cegueira da justiça
    Como ele a tira num ai!
    Sem lhe tocar com a pinça;
    É só dizer-lhe: «Aí vai...»
    Operação melindrosa,
    Que não é lá qualquer coisa;
    Catarata, tome conta!
    Pois não faz mais do que isto,
    Diz-me um juiz que o tem visto:
                  Tlim!
                  Pronta.

    Nessas espécies de exames
    Que a gente faz em rapaz,
    São milagres aos enxames
    O que aquele demo faz!
    Sem saber nem patavina
    De gramática latina,
    Quer-se um rapaz dali fora?
    Vai ele com tais falinhas,
    Tais gaifonas, tais coisinhas...
                  Tlim!
                  Ora...

    Aquela fisionomia
    É lábia que o demo tem!
    Mas numa secretaria
    Aí é que é vê-lo bem!
    Quando ele de grande gala,
    Entra o ministro na sala,
    Aproveita a ocasião:
    «Conhece este amigo antigo?»
    - Oh, meu tão antigo amigo!
                  (Tlim!)
                  Pois não!

segunda-feira, março 07, 2005

Os Passos dos meus passos

O texto de hoje foi escrito há cinco anos e publicado num jornal de Silves - O Grés - que terminou ao fim de um ano de publicação.
Trago-o hoje ao blog porque Os Passos, em Silves, tiveram lugar neste Domingo e, ao ouvir a banda e ver passar a procissão, a memória funcionou.

Passos em Silves, Março de 2005, © António Baeta Oliveira

  • Os Passos dos meus passos
    (Alcantarilha e Silves)


    As procissões dos Passos, até cerca dos meus dez anos de idade, surgem-me à mente de duas formas diferentes. Não consigo restabelecer qual das duas formas é a mais antiga, qual a que me faz evocar os mais remotos sentimentos, mas são perfeitamente distintas as imagens e as sensações que cada uma delas me desperta.

    Em Alcantarilha, onde vivia com os meus pais, o Prior Montes, acolitado pelo Zézinho Sacristão, permitia-nos entrar em zonas que não nos eram facultadas noutras épocas do ano. Toda aquela malta pequenina, da minha idade, tinha acesso ao mundo da descoberta e da aventura do que ficava por detrás dos altares, por detrás dos santos, por detrás do que habitualmente só nos era permitido ver pela frente. Era um mundo misterioso e não era sem receio que nos aventurávamos pelo corredor que saía da sacristia e conduzia às traseiras da capela-mor ou até mesmo, para os mais afoitos, ao sótão sob o telhado. Em arcas e outras caixas de madeira eram preservados dos olhares indiscretos da criançada as coroas de espinhos, as lanças com esponjas, supostamente cheias de vinagre, os martelos que teriam pregado os pés e as mãos do Senhor, as escadas que ajudariam a retirar Cristo da cruz , as cordas que, à volta da cintura, apertariam as pequeninas túnicas roxas que iríamos envergar naquela procissão do Senhor dos Passos.

    Em Silves recordo a alegria de um fim-de-semana diferente. As minhas tias possuíam, no rés-do-chão das "Casas Grandes", frente à ponte, uma mercearia e uma casa de pasto. Dormir em Silves era sair da nossa casa e dos nossos quartos habituais e pernoitarmos em casa das minhas tias no "quarto grande", onde dormíamos todos; eu e os meus irmãos em colchões improvisados no chão.

    Na manhã de Domingo era a azáfama da chegada das "freguesas" que vinham dos mais remotos lugares da freguesia: do Poço Barreto, da Vala, do Vale da Vila, da Horta da Ribeira, dos Bastos, eu sei lá....

    - Menina Bia! Menina Beatriz! Menina Laura! Podemos deixar aqui as coisas?

    As "coisas" eram os sapatos velhos que calcorreavam os poeirentos caminhos até chegar a Silves ou a roupa que se trocava por outra mais nova, mais lavada e mais condizente com a solenidade da festa dos Senhor dos Passos.

    Depois eram as amêndoas da Páscoa e os miúdos das "freguesas" lambuzados pelas amêndoas de cinco tostões (umas amêndoas grandes, que mal cabiam naquelas bocas pequeninas), até chegar a nossa vez de ficarmos também assim, bem lambuzados. (...)

(Continua amanhã)

sexta-feira, março 04, 2005

MAR ADENTRO

Escolhi esta foto, entre algumas mais que encontrei disponíveis, a partir do site oficial do filme Mar adentro.
Escolhi-a porque não apela ao sentimento fácil que inspira uma foto de um tetraplégico, nem ao drama de uma vida que o obriga a viver "sem corpo".
Escolhi-a, exactamente pelo contrário: porque transmite a alegria de viver que transpira dos rostos de qualquer das personagens presentes e, em particular, do desse homem, que parece sorrir, ainda na cama.
Escolhi-a, também, porque retrata a ambiência de uma casa galega da província, tão próxima das que encontramos no lado de cá da nossa fronteira, que se reflecte até na luz coada de um dia pardacento.

Deixai-me dizer-vos que o que mais me encantou no filme foi mesmo essa alegria de viver de um homem que luta pelo seu direito à eutanásia, e o tratamento dado à reprodução dos conflitos no interior de uma família que tenta suportar tamanho sofrimento, baseada no conhecimento real das relações entre marido e mulher, filho e pai, sobrinho e tio, numa sociedade tão característica como é a sociedade galega e que acentua uma imagem muito realista, sem os ritos e as maneiras que ganham muitas vezes os actores, oriundos de um mundo urbano tão diferente. Fiquei deslumbrado com o jogo dos afectos e com as imagens conseguidas pelo realizador, Amenábar, nomeadamente quando dá corpo às fugas da imaginação de um homem entrevado, seja pelo erotismo dos seus sonhos com a mulher amada, seja pelos passeios, em queda livre, pelas paisagens dos campos e dos mares da Galiza.

Sobre a luta pelo direito a "renunciar, voluntariamente, à propriedade mais legítima e mais privada que possuo - o meu corpo", remeto-vos para o site do homem real protagonizado por Javier Bardem, Ramón Sampedro, especialmente para o seu testamento (de Janeiro de 1998).

quarta-feira, março 02, 2005

Marte em Março

Março era, no calendário romano antes da reforma juliana, o primeiro mês do ano, dedicado ao deus Marte, e ocorria por ocasião do equinócio da Primavera.
Março é o mês de Marte, o planeta vermelho e hoje, terça-feira, para a Europa de língua latina (excepção feita para Portugal, que alguns explicam pelas feriae (feriados romanos na semana da Páscoa), outros por semelhança com os dias da semana em árabe), o dia da semana é dedicado a Marte (Martes, Mardi, ...).

Se, hoje em dia, Março já não representa o novo ano, ele é contudo portador de energias re(nov)áveis, com o aumento da exposição e da irradiação solar, pelo equinócio, que sempre ocorre neste mês de início da Primavera.