Só há pouco soube da passagem de testemunho de uma certa chain letter que corre por aí. Não nego que me sinto honrado por ver este meu blog entre as escolhas de Alerta Amarelo, um dos meus blogs de referência, mas vejo-me na obrigação de ter de declinar o seu elogioso convite.
Detesto e repudio toda essa panóplia de PDFs com cenários de ocasos e paisagens maravilhosas, acompanhados de temas musicais capazes de pôr a chorar as pedras da calçada; todos os spam que me querem vender afrodisíacos e medicamentos para aumentar o tamanho do pénis (para que quereria eu tais coisas); e, principalmente, estas "cadeias" que me podem trazer azares inenarráveis se não lhes proporcionar a sequência que reclamam e garante a sua sobrevivência.
De modo que Afonso Cruz (AC), vai desculpar-me, mas não quero ser livro nenhum, tanto mais quando na questão que me propõe, se supõe que não consigo sair do Farenheit 451.
Também não vislumbro qual o interesse em dar a conhecer a minha particular predilecção pelo Capitão Nemo e pelo órgão do seu gabinete no Nautilus, onde se refugiava em abissais fugas de Bach em tons maiores.
A quem interessará saber que o último livro que comprei foi "mil e uma pequenas histórias", de Luís Ene, depois de tão ampla publicidade como a que fiz neste mesmo local, ou que fiquei com medo de existir depois de ter lido José Gil?
Revelar que estou a ler "Pássaros de Banguecoque", de Montalbán, e toda a gente julgar que sou adepto da literatura policial!
Ah, essa não. Essa de enumerar quais os cinco livros que levaria para uma ilha deserta está absolutamente fora de causa, nem que um deles fosse "A Ilha", de Aldous Huxley, a "Odisseia" e a "Ilíada", na tradução de Frederico Lourenço ou, para responder com mais do que cinco, só para chatear, revelar que preciso de pôr em dia a "História e Antologia da Literatura Portuguesa", desde o séc. XIII, em edição da Gulbenkian.
Manter a "cadeia"? Revelar os links do Padre Pedro, do Asulado ou da Helena, só porque são meus amigos, nestas cumplicidades bloguistas!
Que me desculpe AC, mas seria trair-me.
segunda-feira, abril 18, 2005
"Chain Letters"
Albert Einstein (II)
sexta-feira, abril 15, 2005
Um Conto (II)
Privilegiar o que nos aproxima
Amin Toledo acabava de regressar ao seu gabinete particular, nas instalações do Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
Passava um pouco das nove, no final de um dia extenuante; tão extenuante, aliás, como qualquer outro destes últimos seis meses, desde que se envolvera naquela investigação.
Acendeu o candeeiro sobre a sua mesa de trabalho e apagou a luz do gabinete.
Sentou-se na sua poltrona, recostou-se, mãos atrás da cabeça apoiando a nuca.
Reviu a viagem de avião a Bruxelas e rememorou o relatório que teve oportunidade de dactilografar, no seu portátil, durante o percurso: "Privilegiar o que nos aproxima, em detrimento do que nos afasta".
O seu sonho de aproximação dos povos.
Já em Bruxelas, reuniu com uma delegação da comunidade islâmica de Paris. Ainda manteve uma longa conversa com o Núncio Apostólico antes de regressar a Estrasburgo.
No final da tarde, aguardou num restaurante um pequeno grupo internacional de jornalistas de investigação, a que se juntaram alguns detectives da INTERPOL. Jantaram, depois de uma esclarecedora reunião de trabalho.
Ligou o computador.
Trabalhou sobre algumas notas que a sua secretária particular havia deixado sobre a mesa. Lançou-se sobre o relatório. Finalmente estabelecera as ligações de cúpula entre certos grupos radicais islâmicos, movimentos de extrema direita, o negócio internacional de armas de guerra, esquemas e métodos de lavagem de dinheiro proveniente do submundo da droga e infiltrações de grupos religiosos cristãos, de diversas tendências, bem como apoios financeiros de grupos sionistas, junto de altos responsáveis políticos dos mais variados quadrantes.
Redigiu a denúncia e anexou factos, testemunhos e provas irrefutáveis, que vinha acumulando ao longo do tempo, guardadas no seu cofre forte particular.
Entregou o relatório de denúncia a um emissário diplomático, que tinha previamente convocado, e que aguardava a sua chamada num determinado departamento do mesmo edifício.
Trabalhou ainda um pouco mais sobre um outro projecto de carácter pessoal, que enviou por email.
Dispunha-se a terminar quando ouviu um ruído estranho proveniente do corredor de acesso ao seu gabinete.
Enquanto se levantava viu abrir-se a porta e, abruptamente, entrar dois homens armados, que reconheceu de entre as fotos que há pouco anexara ao relatório.
Um deles avançou, com um ar displicente e irónico, e exclamou:
- «Privilegiamos o que nos aproxima!»
Disparou.
Amin caiu, mortalmente ferido, sobre a sua mesa de trabalho.
Uma enorme e prolongada salva de palmas inundou a sala.
Ergueu-se, a agradecer.
Acabava de sobreviver através da descrição da sua própria morte, num relato dramático da sua vida que acabara de enviar por correio electrónico e agora se representava em teatros por todo o Mundo.
quarta-feira, abril 13, 2005
Há polémica a propósito do CELAS

Isabel Soares, presidente da Câmara Municipal, revelou a uma delegação do CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves), a sua intenção de que venha a ser o executivo camarário o responsável pela gestão do espaço multiusos da futura sede do CELAS (antigo edifício do Matadouro Municipal).
O espaço multiusos é o corpo central daquele edifício, o espaço que abrirá o CELAS ao mundo exterior, «através dos eventos culturais que derivam dos objectivos estatutários», como expressamente refere o PROA (Programa Operacional do Algarve) em documento oficial no qual se confere o montante do apoio financeiro a prestar pelo Estado para a reabilitação do edifício que será a sede desta associação.
Retirar ao CELAS o direito ao exercício da gestão do espaço multiusos, é proceder como o senhorio que aluga ao inquilino uma determinada moradia e pretende gerir o que se passa no seio da família que para lá vai habitar.
Mais do que a ironia que faço entre o senhorio e o inquilino, o que a Câmara pretende é ilegal, e Isabel Soares é signatária da decisão do executivo camarário que cede o edifício do ex-Matadouro para «futura sede do CELAS, bem como as obras necessárias para a sua reparação e adaptação para aquele fim», conforme consta nessa decisão do executivo.
Ilegal será também a recente decisão do Executivo de ceder um outro corpo do edifício a uma designada "Fundação Al Moutamid Ibn Abbad", assumindo-se já como gestora garantida do CELAS, numa posição que, além de prepotente, liquidaria por inteiro o projecto do Centro de Estudos Luso-Árabes, que de um edifício completo de três corpos - direcção, multiusos e biblioteca - ficaria confinado ao seu espaço de direcção, o que menos falta faria a esta associação que continua à espera da sua sede definitiva, pelo menos desde 1997, data em que o compromisso camarário foi assumido.
A polémica não pára por aqui, pois a direcção do CELAS não aceitou tais decisões e prepara-se para defender os seus direitos legais.
Eu deixo aqui esta chamada de atenção para uma problema que reputo de elevada gravidade e que é do desconhecimento geral da população da cidade e do concelho de Silves.
O CELAS prepara entretanto a sua Assembleia Geral, já agendada para 7 de Maio, e as decisões aí assumidas serão então dadas a conhecer através da imprensa e outros meios de divulgação.
P.S.
Fui informado, entretanto, já depois da publicação deste post, que Isabel Soares procedeu à inauguração de umas obras que a Câmara fez num edifício cujo proprietário é a Sociedade de São Marcos da Serra, sem "dar cavaco" à Sociedade.
Coincidências?!
terça-feira, abril 12, 2005
Fotografar a Serra de Silves

A 22 de Setembro de 2003, neste blog, comentava uma visita à Serra de Silves depois do fogo de 14 de Agosto desse mesmo ano. Podeis ler aqui esse comentário.
Esta semana, pelas 09h00 da manhã de 16 de Abril, a partir da Quinta Pedagógica da Serra de Silves, o APARTE/Racal Clube, espaço de dinamização cultural em que me integro, sugere, numa chamada de atenção para a riqueza e os problemas da serra algarvia, uma proposta de itinerário para a 4ª Batida Fotográfica APARTE /Racal Clube - A Serra de Silves. Pode obter informações mais detalhadas clicando no link associado à expressão sublinhada, atrás.
Se estiver no Algarve nessa ocasião, terá oportunidade para se debruçar sobre propostas temáticas como o fogo, a seca, a reflorestação, a fauna, a flora, os produtos, os residentes e a economia local, o lazer, a paisagem, e partilhar depois a sua experiência num convívio serrano, em volta da mesa do almoço. Não esqueça de reservar o seu lugar, de acordo com as informações que pode recolher no link já atrás referido.
Permito-me ainda insistir na Serra, propondo a leitura de alguns textos da minha lavra, com datas de 15 de Agosto e 22, 23, 24 e 25 de Setembro de 2003, a partir deste link.
segunda-feira, abril 11, 2005
Qual herói grego
Paulatinamente, post a post, comentário a comentário, dia após dia, mês após mês, contra a má vontade e os frequentes obstáculos impostos por um BLOGGER todo poderoso, consegui repor todos os comentários do template anterior, retrocedendo no tempo, até Janeiro de 2004.
Já só me faltam seis meses de comentários para a recuperação total.
Se por estes dias encontraram ou vierem de futuro a encontrar a seguinte asserção - Comments have been disabled on this post - podeis estar seguros de que, na rectaguarda, há alguém que luta por repor comentários que se julgavam perdidos, intrepidamente, apesar do impedimento de prosseguir a tarefa até à madrugada seguinte.
sexta-feira, abril 08, 2005
Um conto a fazer de conta
Jack quase que se mordia de desespero com o incómodo que aquilo lhe provocava. Só um longo banho conseguia aliviar-lhe tamanha tensão.
Isto acontecia-lhe frequentemente quando se dirigia ao restaurante, ao aproximar-se pelas traseiras a partir da rua onde morava. Também várias vezes se confrontou com aquela situação quando lhe dava para deambular pela cidade, sem destino definido, enquanto aguardava a saída de Louis, o seu melhor amigo, que frequentava a Universidade.
Uma tarde até, na sequência de um encontro com Linda, lhe aconteceu o inesperado. Tinham saído para a periferia da cidade e entraram no parque. Nessa tarde aprazível, inocentemente, fizeram amor e banharam-se depois nas águas refrescantes de um pequeno curso de água que havia por perto. Deitados ao sol, sobre a relva, depararam-se com o que temia. Eis que se aproximavam, ameaçadores.
Fugiram precipitadamente até que os perderam de vista. Já próximo de casa, despediram-se com um beijo, seguindo cada um para seu lado.
Foi a partir desse dia que passou a estranhar o comportamento de Linda.
Uma noite, nas imediações do beco onde se acumulavam os contentores de lixo da vizinhança, viu-os chegar. Um autêntico gang. Trajavam roupagens escuras, muito semelhantes, talvez até iguais umas às outras, feitas de um material que brilhava, mesmo à luz mortiça do candeeiro de rua. Linda vinha com eles.
Essa noite foi um horror. Sonhou. E o sonho agigantava as dimensões. Pareciam-lhe negros, enormes vampiros, chupando-lhe o sangue.
No dia seguinte Louis chamou-o e colocou-lhe, em torno do pescoço, uma fita colorida. Sorriu e disse-lhe:
- «Vais ver como eles fogem.»
Nesse final de tarde, regressando a casa, pelo beco, eles ali estavam de novo. Só lhe ocorreu fugir, mas concentrou-se nas palavras de Louis e avançou para eles, determinado. Sentiu que um frémito de hesitação atravessou o gang, de olhos postos na sua fita colorida. Linda aproximou-se. O grupo de "vampiros" adquirira a sua dimensão real e afastava-se, receoso. Linda, a seu lado, parecia a mesma que ele sempre conhecera: terna, afável, compreensiva.
Subitamente, Linda como que fungou, tossiu e esquivou-se, sem nada comentar.
Ao chegar a casa quis falar a Louis do sucedido, mas nada conseguiu dizer. Lembrou-se então que, também ele, fungara e tossira, incomodado com um certo cheiro irritante, um odor a gasolina, a que se fora habituando ao longo do dia.
Na manhã seguinte, no caminho para a Universidade, Louis desviou-se do percurso habitual. Seguiu-o. Alguns passos adiante avistaram a casa de Linda. Ela estava à porta e recebeu-os com alegria.
Louis parou, retirou da algibeira uma fita colorida, semelhante à de Jack, e colocou-a cuidadosamente ao pescoço de Linda.
Jack e Linda agradeceram a oferta que os libertava definitivamente daquele gang de pulgas e pulgões, lambendo-lhe as mãos. Quase em coro, ainda articularam um "obrigado", enquanto Louis se afastava:
- «Ão, ão...!»
