sexta-feira, abril 29, 2005

Um Conto (III)

Este não é o conto que desde a semana passado havia prometido. Este é um outro que se lhe interpôs:

  • Um 1º de Maio em Silves

    Era tarde na véspera do 1º de Maio. Passaria já mesmo da meia-noite. Ali, no Largo dos Bombeiros, sob as arcadas dos Paços do Concelho, um grupo de rapazes conversava. Trocavam sonhos e falavam de um tempo em que era possível desejar um mundo melhor sem ter que se refugiar de ouvidos indiscretos ou ler livremente o livro que agora passavam, escondido, de mão em mão, sem pôr em risco a sua segurança e a dos outros.
    Durante o dia alguns homens tinham sido presos, dizia-se que preventivamente, por suspeição da polícia política. Eram homens que já haviam passado pelas prisões do regime ou tinham sido conotados com Humberto Delgado, na sequência da visibilidade permitida no período "legal" que precedera as eleições.

    Entretanto, amedrontado, porque sozinho na noite, em serviço de segurança na estação elevatória da barragem, junto a Mata Mouros, o homem que ali velava telefonara à GNR relatando ruídos suspeitos nas imediações.

    De súbito, em desesperado alarme, sai por detrás do grupo de rapazes a ambulância, abertos os portões do Quartel dos Bombeiros. Frementes de curiosidade acorrem junto do telefonista de serviço inquirindo sobre o sucedido. Um homem fora baleado.
    A íngreme ladeira da rua da Sé fora fácil naquele dia. A dose de adrenalina libertada facilitou o esforço imposto na corrida até junto à porta de urgência do hospital. Alguns minutos depois, transportado numa maca, a partir do interior da ambulância, avistavam um agente da PSP, inconsciente, baleado no ventre. Um fino risco de sangue desenhava-se-lhe na pele.

    No 1º de Maio daquele ano não se falava de outra coisa.
    Ao tempo havia duas forças policiais: a GNR, que patrulhava as zonas rurais e as sedes de freguesia, e a PSP que policiava a cidade. Ao apelo do vigilante da estação elevatória, a GNR enviara dois agentes que se camuflaram no local.
    Mais amedrontado ainda, talvez pelo ruído dos agentes da guarda republicana que entretanto vigiavam as imediações, mas cuja presença desconhecia, resolvera o segurança da estação elevatória interceder junto da PSP.
    O guarda-republicano vigiava a aproximação furtiva daquele vulto.
                - «Alto ou disparo!», gritou.
    O vulto avançou para ele. Disparou.

    O agente da PSP veio a recuperar dos ferimentos. Mas o ridículo da situação foi, para aqueles rapazes, mais um traço na composição da caricatura do regime.


quarta-feira, abril 27, 2005

A poesia serve-se fria!

Da antologia "A Poesia serve-se fria!", lançada por altura da II Bienal de Poesia de Silves - "Silves, capital da palavra ardente" - transcrevo um poema:

  • Algarve

    Os árabes te deram a brancura.
    Algarve branco e grave
    no exercício do sal.

    Os árabes te puseram a brancura no nome
    e assim permaneceste branco e árabe
    nas ranhuras da cal.

    Por Ocidente foste designado,
    a praia mais longínqua, terra
    estranha que habita em Portugal.

Manuel Simões
A poesia serve-se fria!
Câmara Municipal de Silves, Silves 2005


terça-feira, abril 26, 2005

Uma vez mais, a Bienal

Ninguém estará certamente a pensar que o êxito ou não-êxito de uma bienal de poesia se possa medir pelo número de pessoas que consegue congregar, tanto mais quando se trata de uma pequena cidade de província com cerca de 10 mil habitantes. Também não será fácil determinar quantas dessas pessoas foram afectadas pela publicidade da iniciativa, ainda que funcionando de uma forma menos usual, tentando surpreender com aposição de poemas nas montras dos estabelecimentos comerciais, nas bases de copos em bares e cervejarias, nas toalhas de mesa dos restaurantes, como descrevo em post de 19 de Abril.
Não. Todos sabemos que o êxito das "coisas" da cultura não se mede dessa maneira, porque todos sabemos que a cultura não mora aqui. A cultura não tem lugar no dia-a-dia do cidadão, não tem valor porque não é traduzível em termos de "deve e haver" nesta sociedade de consumo. O quotidiano é o "circo", o mero divertimento alienante, e o "pão", a satisfação das necessidades primárias; TRINTA E UM ANOS DEPOIS DE ABRIL.

Quanto às escolhas dos poetas, sobre as quais fui interrogado através dos "comentários", remeto para a apresentação da Antologia "A Poesia serve-se fria!", lançada no decurso deste evento: (...) «O critério de selecção dos Poetas revisitados por Oradores e Actores baseia-se em aproximações ao "corpus" poético de cada Autor, simbolizado em António Ramos Rosa, o nosso poeta do sul azul...» (...).
Deixai-me dizer ainda, satisfazendo um outro "comentário" aqui deixado, que, à laia de prefácio, dessa antologia consta a "Evocação de Silves", de Al-Mu'tamid ibn Abbad, que há dez séculos atrás aqui viveu.

sexta-feira, abril 22, 2005

Um fim-de-semana em Abril

Tenho um conto que não publicarei hoje. Ninguém me virá ler. Vem aí um fim-se-semana que durará até terça-feira.
Eu também estarei pelo Algarve, como muitos outros portugueses, se o Sol nos fizer o seu favor. Mas vou em busca de outro Sol. Espero embeber-me de Abril mergulhando na Bienal de Poesia da minha terra; nesse Abril que é ideia em construção, que é utopia a perseguir... "Sempre".

  • 25 de Abril

    Esta é a madrugada que eu esperava
    O dia inicial inteiro e limpo
    Onde emergimos da noite e do silêncio
    E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Selecção de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, Lisboa 2004


quinta-feira, abril 21, 2005

II Bienal de Poesia (III)

Tem início amanhã (22) a II Bienal de Poesia.
Pelas 21h30, na Igreja da Misericórdia, "Escreve que eu notarei", uma Perfomance/Teatro, pelo Teatro da Estrada.

Marque encontro com António Ramos Rosa, Herberto Helder, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner.

  • Pastelaria

    Afinal o que importa não é a literatura
    nem a crítica de arte nem a câmara escura

    Afinal o que importa não é bem o negócio
    nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

    Afinal o que importa não é ser novo e galante
    - ele há tanta maneira de compor uma estante!

    Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
    e cair verticalmente no vício

    Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
    antes de haver cinema madame blanche e parola

    Que afinal o que importa não é haver gente com fome
    porque assim como assim ainda há muita gente que come

    Que afinal o que importa é não ter medo
    de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
    Gerente! Este leite está azedo!

    Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
    à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

    No riso admirável de quem sabe e gosta
    ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Selecção de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, Lisboa 2004


quarta-feira, abril 20, 2005

II Bienal de Poesia (II)

A II Bienal de Poesia, de Silves, a decorrer entre 22 e 24 de Abril, apresentar-se-á sob variadas formas:

   - Perfomance/Teatro, "Escreve que eu notarei", pelo Teatro da Estrada, dia 22
   - Perfomance/Dança, "Em mar de encantamentos", pelo Teatro da Estrada, dia 24
   - Lição de Sapiência, por Estela Guedes, dia 23
   - Leitura de poemas, por Sandro William Junqueira e Fernando Aires, dia 23
   - Mesas Redondas, com Estela Guedes, Luís Serrano, Manuela Barros Moura, Maria Azenha, Maria Teresa Meireles, Paulo Penisga e Teresa Tudela, no dia 23, moderada por Sandro William Junqueira ou Carina Infante do Carmo, Ivo Miguel Barroso, Lucas Serra, Manuel Simões, Maria Gomes, Maria do Sameiro Barroso e Rui Mendes, no dia 24, moderada por Glória Maria Marreiros.
   - Lançamento de uma antologia, "A poesia serve-se fria!", no dia 23
   - Jantar, no dia 24


  • (...)
    Senhores juízes que não molhais
    a pena na tinta da natureza
    não apedrejeis meu pássaro
    sem que ele cante minha defesa

    Sou uma impudência a mesa posta
    de um verso onde o possa escrever
    ó subalimentados do sonho!
    a poesia é para comer.

Natália Corrreia


terça-feira, abril 19, 2005

II Bienal de Poesia


Esta imagem foi-me apresentada este fim-de-semana num bar, em Silves, servindo de base ao copo que continha a minha cerveja. Como esta conheci ainda outras, não necessariamente sob um dos meus copos, com poemas de Maria Teresa Horta, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Natália Correia e Fernando Pessoa (Alberto Caeiro).
As montras dos estabelecimentos comerciais ostentam cartazes com os mesmos motivos e até os restaurantes passaram a servir-nos poesia nas prosaicas toalhas de mesa.

Gosto da forma como se está divulgando a iniciativa. Os meus parabéns a quem a concebeu.