quarta-feira, maio 04, 2005

Maio e a nostalgia do mundo rural

Ainda na sequência do que aqui se disse sobre o mês de Maio e os "maios" da casa rural da Quinta Pedagógica, quero deixar-vos algumas fotos que lá tirei por ocasião da já referida Batida Fotográfica dedicada à Serra de Silves.
Revisito as minhas memórias de menino onde a água, agora canalizada, era então servida em cântaros; havia leitos de ferro, pintados de branco e sobre as mesas-de-cabeceira mantinha-se o cocharro, junto à bilha de água, e o despertador, de tecnologia mecânica da época; o penico e o tapete de retalhos coloridos, sob o leito.

Quinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta OliveiraQuinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta OliveiraQuinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta Oliveira

Ainda os utensílios de costura; as maçarocas de milho e as quartas e os alqueires para a medição dos cereais e das leguminosas secas; os apetrechos indispensáveis ao transporte do leite e ao fabrico do queijo.

Quinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta OliveiraQuinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta OliveiraQuinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta Oliveira

Casa rica esta, de agricultor de medianas posses, nada comparável aos pequenos casebres, de chão de terra batida e telhados de cana e telha dos pequenos proprietários ou dos que se ocupavam das ricas e requintadas quintas dos grandes proprietários de então.


terça-feira, maio 03, 2005

Maio e os maios

Quinta Pedagógica da Serra de Silves, Abril 2005, © António Baeta Oliveira

A foto documenta a reprodução de uma casa algarvia, serrana, na sala de entrada da Quinta Pedagógica da Serra de Silves, que recentemente serviu de sala de recepção aos participantes na 4ª Batida Fotográfica APARTE/Racal Clube, ocasião em que bati a fotografia, e foi, neste 1º de Maio, o local de convívio proposto aos cidadãos pela Junta de Freguesia (em Silves o 1º dia de Maio é tradicionalmente comemorado no campo, petiscando caracóis).
Os dois figurões sentados ao fundo são dois bonecos, designados por "maios", que se construíam no 1º de Maio de cada ano, simulando visitantes, com quem partilhávamos os "queijos" de figo e nos saudávamos com um cálice de aguardente de medronho (evocação que aqui recordo numa transcrição de um texto de Rosa Dias, em Um pouco mais de Sul).
Desconheço qual a origem desta tradição e o seu profundo significado, para além do relacionamento com o equinócio da Primavera ou, ainda, com a deusa romana da fertilidade, donde se diz que provém o nome deste mês.
Recordo, de criança, a curiosidade que sempre despertava a maia ou maios do professor Samora Barros. Ricamente vestidos, eram colocados a uma das janelas do seu solar, na margem esquerda do Arade, frente à ponte, e todos os queriam apreciar.
A minha mãe sempre os construíu e mesmo eu os fui fazendo ao longo de alguns anos, durante a infância de minhas filhas.

P.S.
No dia em que publico este post, 3 de Maio, é tempo da Feira das Cruzes, uma feira tradicional, praticamente em vias de extinção, cujas designação e origem me proponho sempre investigar em cada ano que passa e acabo por esquecer. Alguém avança uma sugestão?

segunda-feira, maio 02, 2005

Saudando o mês de Maio

  • Canção de Maio

    Em certos dias maio
    é um touro de chuva
    e o lume dum raio
    atravessa uma nuvem

    Porém rapidamente
    acaba a trovoada
    e uma névoa quente
    sai da terra molhada

    Em terra corre o touro
    que de maio é o signo
    e de tarde o besouro
    ao calor zune estrídulo

    Num muro branco voga
    paciente o caracol
    como alguém que se afoga
    num mar com muito sol


Gastão Cruz
Rua de Portugal
Assírio & Alvim, Lisboa 2002


sexta-feira, abril 29, 2005

Um Conto (III)

Este não é o conto que desde a semana passado havia prometido. Este é um outro que se lhe interpôs:

  • Um 1º de Maio em Silves

    Era tarde na véspera do 1º de Maio. Passaria já mesmo da meia-noite. Ali, no Largo dos Bombeiros, sob as arcadas dos Paços do Concelho, um grupo de rapazes conversava. Trocavam sonhos e falavam de um tempo em que era possível desejar um mundo melhor sem ter que se refugiar de ouvidos indiscretos ou ler livremente o livro que agora passavam, escondido, de mão em mão, sem pôr em risco a sua segurança e a dos outros.
    Durante o dia alguns homens tinham sido presos, dizia-se que preventivamente, por suspeição da polícia política. Eram homens que já haviam passado pelas prisões do regime ou tinham sido conotados com Humberto Delgado, na sequência da visibilidade permitida no período "legal" que precedera as eleições.

    Entretanto, amedrontado, porque sozinho na noite, em serviço de segurança na estação elevatória da barragem, junto a Mata Mouros, o homem que ali velava telefonara à GNR relatando ruídos suspeitos nas imediações.

    De súbito, em desesperado alarme, sai por detrás do grupo de rapazes a ambulância, abertos os portões do Quartel dos Bombeiros. Frementes de curiosidade acorrem junto do telefonista de serviço inquirindo sobre o sucedido. Um homem fora baleado.
    A íngreme ladeira da rua da Sé fora fácil naquele dia. A dose de adrenalina libertada facilitou o esforço imposto na corrida até junto à porta de urgência do hospital. Alguns minutos depois, transportado numa maca, a partir do interior da ambulância, avistavam um agente da PSP, inconsciente, baleado no ventre. Um fino risco de sangue desenhava-se-lhe na pele.

    No 1º de Maio daquele ano não se falava de outra coisa.
    Ao tempo havia duas forças policiais: a GNR, que patrulhava as zonas rurais e as sedes de freguesia, e a PSP que policiava a cidade. Ao apelo do vigilante da estação elevatória, a GNR enviara dois agentes que se camuflaram no local.
    Mais amedrontado ainda, talvez pelo ruído dos agentes da guarda republicana que entretanto vigiavam as imediações, mas cuja presença desconhecia, resolvera o segurança da estação elevatória interceder junto da PSP.
    O guarda-republicano vigiava a aproximação furtiva daquele vulto.
                - «Alto ou disparo!», gritou.
    O vulto avançou para ele. Disparou.

    O agente da PSP veio a recuperar dos ferimentos. Mas o ridículo da situação foi, para aqueles rapazes, mais um traço na composição da caricatura do regime.


quarta-feira, abril 27, 2005

A poesia serve-se fria!

Da antologia "A Poesia serve-se fria!", lançada por altura da II Bienal de Poesia de Silves - "Silves, capital da palavra ardente" - transcrevo um poema:

  • Algarve

    Os árabes te deram a brancura.
    Algarve branco e grave
    no exercício do sal.

    Os árabes te puseram a brancura no nome
    e assim permaneceste branco e árabe
    nas ranhuras da cal.

    Por Ocidente foste designado,
    a praia mais longínqua, terra
    estranha que habita em Portugal.

Manuel Simões
A poesia serve-se fria!
Câmara Municipal de Silves, Silves 2005


terça-feira, abril 26, 2005

Uma vez mais, a Bienal

Ninguém estará certamente a pensar que o êxito ou não-êxito de uma bienal de poesia se possa medir pelo número de pessoas que consegue congregar, tanto mais quando se trata de uma pequena cidade de província com cerca de 10 mil habitantes. Também não será fácil determinar quantas dessas pessoas foram afectadas pela publicidade da iniciativa, ainda que funcionando de uma forma menos usual, tentando surpreender com aposição de poemas nas montras dos estabelecimentos comerciais, nas bases de copos em bares e cervejarias, nas toalhas de mesa dos restaurantes, como descrevo em post de 19 de Abril.
Não. Todos sabemos que o êxito das "coisas" da cultura não se mede dessa maneira, porque todos sabemos que a cultura não mora aqui. A cultura não tem lugar no dia-a-dia do cidadão, não tem valor porque não é traduzível em termos de "deve e haver" nesta sociedade de consumo. O quotidiano é o "circo", o mero divertimento alienante, e o "pão", a satisfação das necessidades primárias; TRINTA E UM ANOS DEPOIS DE ABRIL.

Quanto às escolhas dos poetas, sobre as quais fui interrogado através dos "comentários", remeto para a apresentação da Antologia "A Poesia serve-se fria!", lançada no decurso deste evento: (...) «O critério de selecção dos Poetas revisitados por Oradores e Actores baseia-se em aproximações ao "corpus" poético de cada Autor, simbolizado em António Ramos Rosa, o nosso poeta do sul azul...» (...).
Deixai-me dizer ainda, satisfazendo um outro "comentário" aqui deixado, que, à laia de prefácio, dessa antologia consta a "Evocação de Silves", de Al-Mu'tamid ibn Abbad, que há dez séculos atrás aqui viveu.

sexta-feira, abril 22, 2005

Um fim-de-semana em Abril

Tenho um conto que não publicarei hoje. Ninguém me virá ler. Vem aí um fim-se-semana que durará até terça-feira.
Eu também estarei pelo Algarve, como muitos outros portugueses, se o Sol nos fizer o seu favor. Mas vou em busca de outro Sol. Espero embeber-me de Abril mergulhando na Bienal de Poesia da minha terra; nesse Abril que é ideia em construção, que é utopia a perseguir... "Sempre".

  • 25 de Abril

    Esta é a madrugada que eu esperava
    O dia inicial inteiro e limpo
    Onde emergimos da noite e do silêncio
    E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Selecção de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, Lisboa 2004