
Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar.
Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Livro do Desassossego
Assírio & Alvim, Lisboa 2005

Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar.
Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Livro do Desassossego
Assírio & Alvim, Lisboa 2005
Passou a ser o meu livro de cabeceira. A última leitura antes de adormecer. Mais um blog de visita diária.
A Decadência
(...)
«Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.»
(...)
Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Livro do Desassossego
Assírio & Alvim, Lisboa 2005
Esta é já a segunda vez que assisto a um espectáculo de música no novo Auditório Municipal de Lagoa, aqui a 6 quilómetros.
Um dos grandes méritos deste último concerto da Orquestra do Algarve radicou na primeira audição absoluta de parte da obra de um compositor português - Augusto Machado (1845-1924).
Sem a existência destas orquestras regionais, dificilmente se recuperariam estas obras e estes autores, já soterrados no pó do esquecimento.
A iniciativa destes Concertos de Lagoa coube à Academia de Música de Lagos, que possui em Lagoa uma estrutura dedicada ao ensino especializado da música, visando divulgar a música erudita e proceder à formação de públicos.
Em Silves, nem auditório, nem música (refiro-me a música erudita e não à música de simples divertimento, obviamente), nem estruturas que dêem continuidade ao trabalho da Sociedade Filarmónica Silvense (que tem despertado para esta forma de expressão artística centenas de jovens ao longo dos anos), nem formação de públicos, nem sequer apoio financeiro à nossa orquestra regional. (Leia, a propósito, este texto)
Um dia destes acontece-nos ver terminadas as tão almejadas obras de restauro do Teatro Mascarenhas Gregório e não termos nem cartaz, nem público, a não ser para meros espectáculos de divertimento que, por si só, não justificam o investimento, que é pago com o dinheiro de todos nós. (Leia ainda o seguinte texto, aqui publicado em Janeiro de 2004)
Se calhar a cultura não serve mesmo para nada. Ou serve?
Sísifo
Carlos retinha aquela imagem.
O seu pé direito no primeiro degrau de acesso à carruagem do comboio. Sobre a porta uma palavra em caracteres brancos.
Ao longo do corredor, procurando o lugar que lhe fora atribuído, o nº 37, deparou-se-lhe aquela mulher esquálida, de olhar fixo, amamentando a criança que sustinha ao colo.
Ficou surpreso na vacuidade daquele olhar.
Dois ou três lugares mais e o rapaz de blusão grosso, abotoado até cima, que lia e fumava tranquilamente.
Ficou surpreso naquele atavio, numa tarde tão quente de verão.
Sobre a esquerda uma bela mulher de pernas cruzadas, que revelava as suas coxas por entre a dobra, mal composta, da saia curta.
Ficou surpreso no seu sorriso, quando ao erguer os olhos encontrou os dela.
O nº 37. Sentou-se. Compôs-se melhor no seu lugar. Olhou através da janela e viu os campos secos pela estiagem prolongada.
Ficou surpreso pela inusitada velocidade com que a paisagem se sucedia.
De repente viu-se de novo com o pé no degrau. O longo corredor. A mulher do olhar vácuo. O rapaz do blusão. A moça, as suas pernas e o seu sorriso. A paisagem seca sucedendo-se demasiado rapidamente.
De novo o pé no degrau. Sobre a porta a mesma palavra em caracteres brancos - Sísifo.
Certamente morrera num desastre ferroviário e ficara preso naquele cíclico inferno donde não mais sairia.
Ou então sonhava e ainda não teria acordado.
P. S.
À margem do conto, quero dizer-vos que estou babado com os encómios que me dirigiu o autor do Palácio dos Balcões, a quem já agradeci e que cita este meu blog entre os três melhores que conhece.

Prémio Camões atribuído a Lygia Fagundes Telles.
A foto e o excerto de um seu conto, que aqui divulgo, fui buscar a Releituras.
O moço do saxofone
(...)
"Tive vontade de rir também, mas justo nesse instante o saxofone começou a tocar de um jeito abafado, sem fôlego como uma boca querendo gritar, mas com uma mão tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Então me lembrei da moça que recolhi uma noite no meu caminhão. Saiu para ter o filho na vila, mas não agüentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a idéia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a mãe. No fim, para não me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos já estava me endoidando. Pomba, não desejo ao inimigo aquele quarto de hora."
(...)
É hoje o dia da abertura oficial da época balnear.
A data despertou-me recordações de menino em Armação de Pêra, uma das mais belas praias do meu Algarve, servida por um dos piores exemplos de como se deve fazer turismo em Portugal.
Trago-vos um texto que publiquei num jornal local, entretanto extinto, O Grés, em Agosto de 2000:
Dos Adoches à Galé

Ainda nem se falava de ecologia e nada fazíamos para nos protegermos dos danos provocados pela radiação solar, mas íamos para a praia bem cedo.
Aquela frescura da manhã, impregnada do cheiro da maresia e animada pela algazarra da azáfama da faina da pesca, com a lota mesmo ali, sobre a areia e o seu cantar repetitivo, ritmado, quase em paroxismo - ..., 49, 48, 47, 46, 45, ... - compõem, hoje, na minha memória, uma aguarela que adoraria possuir e que as fotografias da época, a sépia ou a preto e branco, não reproduzem no colorido pitoresco que agora me acode.
Era ali a nossa praia, mesmo em frente ao que ainda hoje é o Serol. Junto à esquina, no outro lado da estreita ruela, havia uma velha senhora, de quem não recordo o nome, que numa enorme "panela" cozinhava, imaginem, batatas-doces, e que eram a atracção do meu tempo de menino, superior até aos sorvetes do Sr. Chico - o Chico dos Sorvetes.
Quando ganhámos idade de começar a cobiçar as coisas que ostentavam as outras crianças, mudámos de praia.
Explicou mais tarde a minha mãe que a economia da família não suportava o consumo de batatas-doces, sorvetes e outras solicitações de criança, que nos habituariam a um tipo de vida que não deveria ser o nosso.
Razões económicas transferiram-nos para os Adoches.
Nesta praia éramos praticamente só nós e outros amigos da nossa idade, os filhos do Sr. Luz, Conservador da Junta Autónoma das Estradas em Alcantarilha. Havia, no entretanto, uma multidão de outras crianças que não ia à praia com os pais, por razões económicas e sociais bem mais graves do que as nossas.
Quando comecei a entender essas diferenças já ia à praia com os amigos, com partida marcada frente ao rio, em Silves, na camioneta do Sr. Estiveira, e então a praia era toda nossa - dos Adoches à Galé.
Armação era a aldeia dos pescadores e pouco mais. Se estávamos nos Adoches, por um copo de água teríamos que calcorrear umas boas centenas de metros, até ao poço dos Horta Correia, um pouco antes do que viria a ser o Casino da Praia.
Armação entretanto cresceu, bastante para os lados, mas bastante mais para cima, e por um pouco de frescura, por um poucochinho de verde, teremos que calcorrear toda a Vila para encontrar um jardinzinho, mesmo em frente do que era o poço dos Horta Correia, um pouco antes do já arruinado Casino da Praia.
São razões económicas, de peso, mas de sentido contrário às da minha infância, que é imperioso contrariar para salvar Armação de Pêra, que ontem, hoje ou amanhã, por mais gente que cá queiram meter, continuará a estar confinada aos seus limites de sempre - dos Adoches à Galé.
São muitas e variadas as referências a esta minha terra no mais recente romance histórico de Fernando Campos, cuja leitura aconselho a todos os que apreciam este género literário. Não vou maçar-vos com mais extractos, para além deste que vos trago hoje, que recria, em prosa, conferindo-lhe um particular sabor descritivo, a célebre Evocação de Silves, de Al-Mu'tamid, dirigindo-se a Ibn 'Ammar, a quem acabara de nomear Governador de Silves:
"- Quando lá chegares, saúda por mim as margens do Arade, o arvoredo onde cantam rouxinóis e pintassilgos. Saúda os jardins amáveis e os pomares perfumados. Pergunta-lhes se têm tantas saudades de mim como eu deles. Saúda o palácio dos balcões que jamais poderei esquecer. Tantos valentes leões dos meus exércitos, tantas doces gazelas do meu harém. Salões, sombras e brandas penumbras, meu grato refúgio entre rotundas ancas opulentas, cinturas de vespa, túrgidos bustos... trago nas mãos, na pele do corpo, a memória de maciezas e humidades íntimas, moças cor de neve, cor de ébano... agudas brancas espadas de ponta sangrenta os seios, a trespassarem-me a alma, as negras lanças do triângulo dos seus púbis, a amável tenaz de braços e pernas. Noites e noites permanecia eu na mansa enseada das águas, enredado nas guerrilhas do amor, ondeava-lhe o corpo como os volteios do rio, como o ondular do tempo a escoar-se. Ela deitava-me vinho na taça de oiro, o vinho dos seus olhos na taça do coração, tomava um trago e dava-me a beber da sua boca. Soavam-me as cordas do alaúde a tendões cortados por fina adaga. Pouco a pouco desnudava-se e ia revelando o lustroso do ventre... galhinho de salgueiro a desabrochar seu botão e enfim a abrir a flor em esplendor e rescendência..."
Fernando Campos
O Cavaleiro da Águia
DIFEL, Algés, Maio de 2005