sexta-feira, julho 01, 2005

Um Conto (IX)

  • Una furtiva lagrima

    Estava longe. Sentia a sua falta.
    Barbeava-me ao espelho quando me pareceu que a minha face, ali reflectida, se esvanecia. O espelho parecia perder a sua consistência. Ganhava uma superfície aquática. Como um espelho de água.
    Aproximei o dedo. Toquei, experimentando, e senti que o dedo mergulhava. Retirei-o. Estava molhado. Levei-o à boca e senti um sabor a sal.

    Olhei-me nos olhos e através deles divisei a sua face. Uma alegria intensa percorreu-me o corpo. Senti que havia uma sintonia perfeita entre os nossos pensamentos. Como se ela estivesse ali. Aqui. Na minha frente. Comigo.
    Uma lágrima descia, lentamente, pela sua face.

    Senti de novo um estranho rumor à superfície e notei que o espelho retomava a sua consistência habitual.

    Via-me agora nitidamente. Sobre a face esquerda, escanhoada, uma lágrima encaminhava-se dos meus lábios. Toquei-lhe com a ponta da língua. Sabia a lágrimas. Sabia a sal.


quinta-feira, junho 30, 2005

Mais um serviço google


earth.google.com

Desci em queda livre, a partir do espaço, sobre o telhado da minha própria casa, em Silves.
A imagem acima pode ainda ganhar maior ampliação no programa que o google disponibiliza gratuitamente e a que pode aceder clicando na imagem de Silves. Nem todo o planeta está ainda disponibilizado com a cobertura que mereceu esta minha terra (por sinal, até ao momento, é até a única cidade algarvia a merecer tal nível de ampliação).

Estou a divertir-me imenso visitando lugares que conheço e outros que gostaria de visitar. Tenho mesmo preparada uma viagem virtual aos meus lugares de referência.

Porque espera!?

P.S.
A propósito de José Carlos Fernandes e dos seus novos trabalhos, leiam aqui.

quarta-feira, junho 29, 2005

O perfume azul de um corpo adivinhado


  • É talvez uma urna uma lâmpada uma flor
    um vaso de veludo
    uma lança solar
    ou apenas um traço negro em torno
    de um ponto azul

    Algo que não sei
    uma felicidade tão leve tão frágil e tão nua
    o desejo de nomear
    uma pele fresca de lua uma mulher de chuva
    o perfume azul de um corpo adivinhado
    ou um oásis de silêncio a brancura de um lírio
    que nascesse do seio do espaço

    Branca dourada ou transparente
    flexível como a água ou uma folha oval
    apenas esboçada vacilando
    luz misteriosamente pura
    inacessível já voando para o alto

    António Ramos Rosa
    Antologia Poética
    Lâmpadas com alguns insectos (1992)
    Publicações Dom Quixote, Lisboa 2001


terça-feira, junho 28, 2005

O Quiosque da Utopia

www.devir.pt/publicacoes/Quiosque_Utopia.pdf
Quiosque da Utopia

A Pior Banda do Mundo é o título de uma série de publicações de Banda Desenhada (BD) da autoria de José Carlos Fernandes, um algarvio, natural de Loulé, cuja criatividade é amplamente reconhecida entre os cultores desta riquíssima forma de expressão, a BD, e cujo conhecimento pretendo alargar aos que por aqui vão passando.

Aconselho-vos então a clicar sobre a ilustração que encima este post, que vos dará acesso a um ficheiro em formato .pdf com duas páginas do capítulo que dá o nome ao seu primeiro álbum - O Quiosque da Utopia - e ao qual já se seguiram mais três: O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante, As Ruínas de Babel, e A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto de que se pode inteirar melhor em Devir (Banda Desenhada portuguesa).

Estou certo de que irá gostar deste olhar atento e irónico sobre o mundo e os homens.

segunda-feira, junho 27, 2005

A máscara que mais me custou usar

No Hospital de Portimão pelo Carnaval de 2003

Eu e mais alguns amigos de infortúnio teremos que comparecer hoje em tribunal para prestar declarações a propósito do incidente que me forçou ao uso desta máscara, marcada a fogo, pelo Carnaval de 2003.
Já lá vão mais de dois anos.

sexta-feira, junho 24, 2005

Um Cont(inh)o (III)

Em dia de São João, um microconto (cerca de 50 caracteres):


  • Enquanto a castidade lhe sustinha o gesto, a mente, essa, divagava.

quinta-feira, junho 23, 2005

Está aí o verão algarvio (III)

(Continuação)

Todos sabemos que os governantes nos podem enganar e que não nos enganam unicamente quando são apanhados na mentira.
Todos conhecemos Nixon e o caso Watergate, Bush e a intervenção militar no Iraque, cujos contornos se aprofundam ainda mais com recentes revelações no Times.
Entre nós, lembremos o último governo de Portugal e o abate de sobreiros em zona de reserva agrícola nacional, aprovada em Conselho de Ministros.

O que vou dizer não passa de mera especulação, é verdade, mas espero que venha a tempo de alertar os que aqui me lêem e através deles as associações ambientais para que se esclareça a situação, se eventualmente houver alguma coisa para esclarecer.

No último painel do Seminário que venho comentando foi apresentado o projecto Amendoeira Golf, a instalar no Morgado da Lameira.

O Morgado da Lameira, um dos mais férteis e ricos vales da nossa região, que a partir do 25 de Abril se tornou propriedade estatal por via da nacionalização da banca, passou à posse do grupo económico de Vasco Pereira Coutinho quando da sua privatização. Trata-se de um terreno de grande interesse agrícola e elevada sensibilidade ambiental, com a passagem de dois aquíferos, um deles o mais importante aquífero do Algarve - o Querença-Silves - do qual dependemos quase exclusivamente em tempo de seca, e a ainda o aquífero de Alcantarilha. É atravessado por duas ribeiras, a de Lagoa e a de Alcantarilha, e a sua riqueza e fertilidade provêm da circunstância de ser um leito de cheia, uma zona aluvial.
Em Março de 2003, por decisão do Conselho de Ministros, é aprovado para esta zona uma autorização de urbanização. Estranho, não?
Pois este terreno, assim liberto das limitações que a sua condição agrícola impunha, foi vendido a um grupo luso-irlandês, de capitais irlandeses e americanos, e prepara já planos de pormenor para a instalação de um campo de golfe, uma zona urbanizada e uma outra com vivendas de luxo, o Amendoeira Golf, num investimento de 150 milhões de contos para os próximos três anos.
Obviamente, o modelo teórico é inatacável. (Veja-se o post de ontem)

É muito, muito dinheiro e a gerar muito, muito mais!
Vendemo-nos ou não?!
Isto dá que pensar ou é só o meu espírito fundamentalista (foi assim que, durante este Seminário, ouvi algumas vezes apelidar os que manifestam opiniões contrárias, nomeadamente em defesa de questões ambientais e de património) a funcionar?