terça-feira, julho 12, 2005

Srebrenica

© www.pbs.org/cryfromthegrave
(Ao clicar na foto pode aceder ao site)

Dez anos passaram.
Na Europa, supostamente civilizada, um destacamento do exército sérvio, supostamente não terrorista, separa, de entre a população de Srebrenica, as famílias muçulmanas e sistematicamente assassina cerca de 8 milhares de homens e rapazes, no maior genocídio que se conhece desde a II Guerra Mundial.
Soldados e civis sobreviventes, muitas mulheres, regressaram ontem para chorar de novo durante o funeral de mais 610 homens e rapazes, recentemente descobertos numa vala comum.
Li por estes dias, via Courrier Internacional, o pequeno texto que transcrevo abaixo, de Aleksander Hemon, escritor nascido em Sarajevo:

  • " (...) O deslize mais grave é a existência da Bósnia-Herzegovina de Dayton. Esse Estado tem na sua presidência e no Parlamento representantes de forças políticas que não o reconhecem. Os herdeiros ideológicos dos criminosos governam as vítimas. (...) "


segunda-feira, julho 11, 2005

A vida continua

Londres, Inverno 2004, © António Baeta Oliveira

Foi com Londres ainda muito presente, a exaltar a sensibilidade, que regressei ao CAPa (Centro de Artes Performativas do Algarve) para assistir, se não à melhor, pelo menos a uma das melhores peças de teatro de toda a minha vida. O CAPa tem destas surpresas e esta não é a primeira. Disso já aqui dei conta, por mais de uma vez, nomeadamente em Outubro de 2003 (KIP).

Desta vez a responsabilidade coube a uma das companhias portuguesas que mais admiro - O Teatro da Garagem.

A luz, azulácea, acende lentamente, ao ritmo de um trecho musical que impõe uma sonoridade triste, angustiante e gradativamente grandiloquente. Avistam-se peças de mobiliário, três ou mais, de estilos característicos do princípio do século XX ou finais do XIX, todas ou quase todas com espelhos ou vidro, a reflectir o presente ou a sugerir o passado; o solo é uma camada de água, de um palmo de altura, a projectar por toda a sala cambiantes de luz, a lembrar um aquário, qual sítio de experimentação e observação de comportamentos. Ao centro uma estrutura móvel, de um material plástico, branco, onde, no decurso do enredo, algumas personagens se refugiam como num confessionário. Neste cenário evolui uma dama, descalça, de tiques aristocráticos, que abre e fecha gavetas, revisitando as suas memórias.

A Vida Continua é o título deste trabalho, cujo texto e encenação tem a assinatura de Carlos Pessoa. Um texto fabuloso, servido por uma cuidada e rigorosa encenação e cinco excelentes actores, entre eles Miguel Mendes, que sempre identifico como a face visível da companhia, e que me deslumbra, sucessivamente, pelas suas superiores interpretações. É uma peça dramaticamente irónica, cómica até, roçando o trágico, onde se vive um louco estado de decadência, que lentamente parece apodrecer, esvaindo-se naquela camada de água que torna mais lento e arrastado o movimento e onde se afundam todos os mitos que parecem gerar-se por afinidades, a partir de frases soltas, citações, sonhos, devaneios, enganos, prazeres, burlas, compadrios, truques, inconsequências, sugestão e reflexo de uma sociedade que chega ao fim, que se degrada e morre, enquanto... a vida continua.

P.S.
1 - Antes que as restrições orçamentais levem ao encerramento de espaços como este ou que a economia acabe por degradar, irremediavelmente, o já de si degradado estado cultural do nosso país, lembro o fim do Ballet Gulbenkian e deixo-vos este link, que apela à assinatura de uma petição dirigida ao Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian.
2 - Quero agradecer ao João, de Asul, ao Manuel, de Limites de Luz e ao Helder, de Contrasenso pela simpatia dos seus escritos a propósito do 2º aniversário do Local & Blogal. Um grande abraço ainda a todos os outros que a tal propósito se manifestaram nos comentários. Obrigado, amigos!

sexta-feira, julho 08, 2005

quinta-feira, julho 07, 2005

O meu novo brinquedo

A minha Fuji, reflectida no espelho

Do que poderia falar hoje senão do meu novo brinquedo, que me consumiu parte substancial do dia na leitura do seu livro de instruções e experiências de aprendizagem.
Isto sem querer revelar que a levei na noite passada para o concerto dos Xutos e deixei acabar as pilhas (refiro-me à máquina, é claro).

quarta-feira, julho 06, 2005

Um bater de pálpebras como asas

  • Viagem

    Há olhos que só olham o sonho; e, quando
    o sonho se dissipa, ficam cegos.

    Há pontes por onde não se passa, no inverno,
    embora ninguém as guarde: pontes
    sem arcos, abstractas como um arco-íris
    e frias como a chuva da madrugada.

    Um campo de erva que amadurece;
    o feitiço fútil dos faróis quando a manhã
    limpa as últimas névoas;
    um bater de pálpebras como asas:

    imagens que lembro

    e me restituem os olhos
    com que avisto a entrada da cidade.

    Nuno Júdice
    Poesia Reunida (1967-2000)
    Um canto na espessura do tempo (1992)
    Publicações Dom Quixote, Lisboa 2000


terça-feira, julho 05, 2005

Um poema árabe em Julho

Algibe do Castelo de Silves, «crop» de uma foto de Yacub Bensetil, Primavera 2005

إبن عمّار (Ibn 'Ammar), poeta árabe de Silves (séc. XI), passa neste seu poema, apesar da intemporalidade poética, marcas de uma sociedade onde coabitavam diferentes civilizações, o que lhe confere, na minha óptica, uma perspectiva realista de um tempo longínquo, de um passado que ganha uma consistência concreta num mundo sobre o qual nos habituámos a fantasiar.

  • A alcachofra

    filha das águas e da terra,
    para quem lhe almeja os dons
    é corpo numa veste de recusa.
    e na sua beleza obstinada
    bem no cimo lá da haste
    lembra uma jovem cristã
    que cota de espinhos usa.

    Adalberto Alves
    O meu coração é árabe
    Assirio & Alvim, Lisboa 1998


P.S.
Nesta data quero ainda enviar um abraço ao Eurico e saudá-lo por este 2º aniversário de Um pouco mais de Sul

sexta-feira, julho 01, 2005

Um Conto (IX)

  • Una furtiva lagrima

    Estava longe. Sentia a sua falta.
    Barbeava-me ao espelho quando me pareceu que a minha face, ali reflectida, se esvanecia. O espelho parecia perder a sua consistência. Ganhava uma superfície aquática. Como um espelho de água.
    Aproximei o dedo. Toquei, experimentando, e senti que o dedo mergulhava. Retirei-o. Estava molhado. Levei-o à boca e senti um sabor a sal.

    Olhei-me nos olhos e através deles divisei a sua face. Uma alegria intensa percorreu-me o corpo. Senti que havia uma sintonia perfeita entre os nossos pensamentos. Como se ela estivesse ali. Aqui. Na minha frente. Comigo.
    Uma lágrima descia, lentamente, pela sua face.

    Senti de novo um estranho rumor à superfície e notei que o espelho retomava a sua consistência habitual.

    Via-me agora nitidamente. Sobre a face esquerda, escanhoada, uma lágrima encaminhava-se dos meus lábios. Toquei-lhe com a ponta da língua. Sabia a lágrimas. Sabia a sal.