
Têm-me perguntado, com certa frequência, o que achei da Feira, como quem procura uma nota dissonante, uma apontamento polémico, algo que fuja ao tom generalizado e acrítico da apreciação comum. O que tenho a dizer já o disse o ano passado. Faça o favor de ler clicando aqui (no sublinhado).
Reafirmo que me diverti, que gostei, que me agradou, que foi bom, mas... que nada se alterou de fundamental. De Feira Quinhentista passou a Feira Medieval. Saíram os Camões, os Cabrais e os Gamas, os muçulmanos foram colocados fora da Medina, os judeus é como se não existissem, apesar de parte da Feira ter lugar na antiga judiaria.
A programação está demasiado dependente da empresa contratada para a animação geral, particularmente vocacionada para a Idade Média, simbolicamente estereotipada nos modelos do cinema americano. A culpa não é dessa empresa, certamente. A Câmara poderia contratar, eventualmente com a mesma empresa, um modelo diferente, que distinguisse o que se passa em Silves do que se passa em todas as outras povoações com castelo pelo país fora, numa moda que algum dia começará a enfastiar.
Entretanto a Feira cresce, crescerá ainda bastante mais e vamos ficar deslumbrados com o seu "sucesso", sem querer olhar para os perigos da massificação e inevitável desgaste da sua imagem.
Definam-se estratégia e objectivos. Talvez se conclua pela necessidade do reforço da nossa identidade, pela aposta em episódios que recriem a história local, sem complexos em relação ao seu período mais brilhante e que mais carácter confere à cidade; o da presença islâmica. Talvez se questione esta teimosia em investir na época alta, trazendo mais gente, que pouco ou nada contribui para a economia local numa época em que a oferta hoteleira (incluo obviamente os restaurantes) está esgotada na sua capacidade. Talvez se descubra que há novas tendências de procura turística que contrariam a massificação, como se revelava outro dia no Seminário sobre Turismo e Desenvolvimento, que decorreu em Silves, por iniciativa da autarquia.
Afirmava um dos conferencistas desse Seminário, referindo-se ao turismo de massas em centros históricos:
«Quando o turismo destruir a identidade da cidade, ele deixa de existir.»
P.S.
João Cardoso, Director da companhia de teatro que garantiu a animação da Feira Medieval de Silves, Viv'Arte, comentou o meu post acima. Convido-vos a ler esse comentário, seguido do meu próprio, clicando aqui.









