terça-feira, outubro 11, 2005

Do olhar interior

Como, cá dentro, me sinto assim como ela o diz, recorro ao olhar de uma amiga:

  • Do olhar interior

    do desencanto já nem sobram as sombras
    só a linha contínua de um electrocardiograma
    feridas sem destaque escondidas algures
    limites sem contornos nem vedações
    apenas, ampliando a secura, o grito
    e o deserto perdido nas dunas

    nem sopro, nem sombra
    só um arfar que não sei se de raiva se de tédio.

Helena Monteiro
Linha de Cabotagem

segunda-feira, outubro 10, 2005

Fortalecer os laços comunitários

Num destes últimos fins-de-semana visitei uma pequena aldeia do interior do barrocal algarvio onde, em vez dos cartazes com os figurões da campanha autárquica, me deparei com as fotografias dos que antes habitaram ou agora residem em cada uma das casas dessa aldeia.
Em cada janela, lá estavam os retratos dos que ali viveram ou agora habitam
Querença, Setembro 2005, © António Baeta Oliveira
Sabemos todos que não é fácil conceder autorização para colocar assim, às nossas janelas, a nossa própria imagem, numa ostentação pouco habitual; a não ser que exista uma determinada confiança em quem nos sugeriu tal ideia ou uma adesão entusiástica ao que nos foi proposto.

Pois foi essa confiança e esse entusiasmo o que se gerou entre a população de Querença, a tal aldeia, e o bando, uma companhia de teatro, de Palmela, que aqui se instalou em residência artística, ao longo de quatro meses, no âmbito de Faro, Capital Nacional da Cultura 2005.

Querença, Setembro 2005, © António Baeta Oliveira O evento comunitário que ali ocorreu, no passado dia 25, recriando um casamento à moda antiga, testemunha essa confiança, patente nesta fotografia, onde a intérprete de Ti Miséria, a velha noiva, actriz, gera evidentes cumplicidades com a população local.
O fortalecimento dos laços comunitários revela-se na participação colectiva e activa, no diálogo com os actores, integrando a própria cena, partilhando contos, memórias, tradições locais ou, simplesmente desfilando, como muitos outros, orgulhosamente ao lado da sua própria fotografia.

Querença, Setembro 2005, © António Baeta Oliveira
  • (...) E fui compreendendo cada vez mais que, para mim, contemporaneidade implica uma relação muito especial também com o passado, com as memórias. Não o passado no sentido conservador, mas com a grande criatividade popular. Às vezes pensamos que aquilo é só tradição, que é tudo muito conservador, que não se transformou, que não é motivador de interesse sobre a modernidade. Mas aborda as temáticas que são comuns a todos os tempos, como o amor, a morte ou o ciúme. (...)

João Brites, director de o bando, ao Barlavento

domingo, outubro 09, 2005

quinta-feira, outubro 06, 2005

Um Conto (XV)

  • Quando o dia se fez noite.
    Quando a noite se fez dia.


    Vivia intensamente aquela situação. Como se o mundo estivesse ao contrário. Como se o meu ciclo de vida, por qualquer razão que me escapava, se tivesse invertido.
    As praças, os jardins, as ruas, as lojas, os bancos, os edifícios públicos, os cafés, os restaurantes, cheios de gente. As pessoas apresentavam uma vitalidade e uma alegria de viver algo perturbadoras. Inquietava-me a presença da luz das velas, dos candeeiros eléctricos, das outras fontes de luz improvisadas e, no céu escuro daquela noite, a lua, em quarto crescente. Era como se todos se tivessem erguido das suas camas e saído para a rua, em plena noite, numa loucura colectiva que me estonteava, pela surpresa, e me acalmava pela paz que se fazia sentir, difusa entre a multidão. Era uma experiência única; nenhuma das noites que antes vivera se assemelhava àquela.

    Em dado momento iniciou-se uma lenta debandada. Impelidas por qualquer força exterior ou interior, como num mimetismo colectivo, as pessoas começaram a abandonar os restaurantes, os cafés, os edifícios públicos, os bancos, as lojas, as ruas, os jardins, as praças, e a encaminhar-se, como sonâmbulos, em direcção às suas casas.
    Assim procedi também.

    Já só, num quarto de hotel, com a luz do sol a invadir o habitáculo, fui surpreendido pela decoração algo exótica do local.

    Mergulhei no travesseiro. Sonhei que estava em Marraquexe, pelo Ramadão.


quarta-feira, outubro 05, 2005

Um tema do Windows dedicado a Portugal

Soube hoje, via O Repleto, da existência de um tema do Windows dedicado a Portugal e aos países de língua portuguesa, sobre os Descobrimentos Portugueses, com ícones próprios e várias imagens de fundo baseadas na nossa cartografia.
Os interessados podem clicar na pequena ilustração acima e efectuar o download de acordo com os habituais procedimentos.
Eu já cá o tenho e estou deliciado com a setinha do rato: um braço com manga a condizer e uma mão que segura uma pena, como quem escreve.

terça-feira, outubro 04, 2005

رَمَضَانْ - Ramadão

Também hoje, na sequência da Lua Nova, além da entrada dos judeus no seu novo ano, no mês de Tishri, entram os muçulmanos no seu 9º mês, o Ramadão, vivendo um longo período de interioridade, com meditação e jejum.

É um período muito particular da vida destes povos do Islão, a que já o ano passado aqui me referi e onde pode encontrar comentários com testemunhos curiosos de quem já viveu essa experiência.

Nunca tive oportunidade de estar num país muçulmano por esta época, mas o que imagino ou ficciono irá estar aqui na forma de um conto, muito provavelmente na próxima quinta-feira.

Aos amigos muçulmanos que conheço, faço votos de um Bom Ramadão!

segunda-feira, outubro 03, 2005

רֹאשׁ הַשָּׁנָה - Rosh Hashanah

Hoje, ao pôr do sol, os judeus irão reunir-se nas suas comunidades e templos em comemoração do Ano Novo Judaico, o ano de 5766.
O novo ano começa amanhã, no 1º dia do mês de Tishri.

Saudando Nuno Guerreiro, autor do blog Rua da Judiaria, remeto-vos para uma muito bela citação do Talmude (clique aqui), ilustrada com uma reprodução de uma esplêndia pintura de David, o célebre pintor do neoclassicismo francês.

Ao Nuno e a todos os meus amigos judeus, faço votos de um Bom Ano Novo!