sexta-feira, outubro 20, 2006

Álvaro de Campos voltou a Tavira

Espectáculo de Teatro do Al-Masrah na Biblioteca Álvaro de Campos em Tavira, Setembro 2006, foto no telemóvel, © António Baeta Oliveira

Fez agora um mês, encontrei-me com ele em Tavira, sua terra natal. Passeou-se calmamente pelos espaços da biblioteca local, a que atribuíram o seu nome, e ouvi distintamente as suas palavras:


  • Sim, sou eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
    Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
    Arredores irregulares da minha emoção sincera,
    Sou eu aqui em mim, sou eu.
    Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
    Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
    Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

    E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
    Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
    De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
    Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

    E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
    Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
    De haver melhor em mim do que eu.

[.../...]

Álvaro de Campos
Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos
Editorial Nova Ática

Ele pode não ter dito exactamente estas palavras.
Estas escolhi-as eu, ao lê-las hoje, de entre outras suas, como as que nessa noite ouvi distintamente, num enquadramento arquitectónico e cénico que me proporcionou uma das mais belas noites deste Verão, graças à imaginação e à criatividade do grupo de teatro Al-Masrah   -   (المسرح), residente em Tavira, a quem agradeço a oportunidade.
À Susana e ao Pedro, o meu abraço amigo e reconhecido.

quinta-feira, outubro 19, 2006

A Aministia Internacional apela:


  • Existem 639 milhões de armas no mundo - uma arma para cada dez pessoas
  • Todos os anos morrem em média 500 000 pessoas vítimas de violência armada - uma pessoa por minuto!

Apoie a implementação de um Tratado Internacional que regule o Comércio de Armas e faça referências explícitas aos Direitos Humanos.
Seja um num milhão: www.controlarms.com (clique)

(Clique e aceda também à campanha Um milhão de rostos)

quarta-feira, outubro 18, 2006

Ao jeito de um fotoblog

Duas escadarias até ao cimo do Torreão, Outubro 2006, © António Baeta Oliveira


  • Nuvens escuras, de suspeição, adensam-se sobre a cidade.
    O vento, nos ouvidos, baralha a notícia.
    A chuva, enquanto limpa, acumula o lodo.
    Os corvos caem sobre as presas, agora débeis, levadas na enxurrada.
    Há portas, fechadas, no topo da escadaria.


terça-feira, outubro 17, 2006

Aniversário de Ramos Rosa

António Ramos Rosa, um dos maiores poetas do nosso tempo, nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924.
Em sua homenagem, escolhi um poema que tem a particularidade de ter sido dedicado a um outro algarvio, seu amigo e poeta dos mais reputados, também, da poesia portuguesa contemporânea - Casimiro de Brito.

  • A LÂMPADA

    As palavras em chamas queimam veias e árvores,
    lâmpadas em turbilhão fluem nas calçadas
    entre pernas vermelhas e caixotes e cães.
    Corro sobre o mar, esta palavra lâmpada
    aquece-me por dentro, é um ovo de esperança,
    corro, corro à espera de nascer no meu povo.

    Quem dirá o contorno, o colo que se debruça
    na imóvel figura de um punho silencioso
    o fruto vigilante e submerso seio?

    No silêncio da mesa sobre a lisa
    dureza
    ela é a inundação sem tempo e a presença
    da origem e alta dignidade humana.

    Ó lâmpada, exemplo de poema,
    quando aprenderemos a tua dócil sombra
    e as tuas sílabas em que o silêncio ama?

    A esperança é vigilante em tua luz.
    A luz é vigilante em tua esperança.

António Ramos Rosa
ALGARVE todo o mar
(Colectânea)
Publicações D. Quixote, Lisboa 2005

segunda-feira, outubro 16, 2006

Uma intervenção arqueológica, em colóquio

Um dos maiores bairros islâmicos encontrados na Península desapareceu sob a urbanização do "Empreendimento do Castelo"
Arqueólogo José Costa, Outubro 2006, © António Baeta Oliveira

Na acanhada sala de conferências do Museu Municipal de Arqueologia, José Costa, arqueólogo responsável pela intervenção, na sequência de uma parecer do IPA (Instituto de Português de Arqueologia), fala-nos de uma área de escavação de cerca de 3000m2, enquanto decorrem obras de uma urbanização que se estende por 4280m2. Houve que conciliar, por negociação, o tempo necessário à prossecução dos trabalhos arqueológicos e a urgência do avanço da construção por parte da empresa responsável pela obra.Máquina aguarda finalização do trabalho, foto a um diapositivo

Negociação desgastante e nada fácil, para ambas as partes envolvidas, como se pode constatar pela foto ao lado, obtida a partir da projecção de um diapositivo do conferencista (o maquinista aguarda a última medição do arqueólogo).

O bairro islâmico sob intervenção incluía, anexa à área residencial, uma área comunitária ou de utilização pública, com um grande forno de pão e sistemas de captação e elevação de água que, pela sua disposição, paralela à rua Cândido dos Reis, permitiu a sua autonomização do empreendimento e preservação, com possibilidade de escavação futura. De referir ainda uma estrutura de armazenamento de água e uma outra, para cuja utilidade se procuram ainda paralelos em escavações em período islâmico.

A área residencial, de onde se recolheram mais de 170 mil objectos, denota uma urbanização bem planeada, como se pode observar nesta foto (de um slide projectado durante o colóquio), que revela uma canalização que atravessa três construções sucessivas.
Canalização transversal sob três construções sucessivas, foto a um diapositivo
A zona residencial dispunha-se ao longo de uma rua, com 3,80m de largura, que se prolongaria, bem como o bairro, atravessando o que é hoje a rua Cândido dos Reis e a estrutura industrial (actualmente de cultura e lazer), da Fábrica do Inglês.
As 16 casas alvo de intervenção, de proprietários modestos e revelando alguma homogeneidade social, apresentavam 5 ou 6 compartimentos, dispostos em U ou L em torno de um pátio descoberto, com cozinha, armazém, latrina, salão e/ou alcova, com sistemas de saneamento, apresentando canalizações para fossas exteriores, que recebiam os detritos das latrinas, ou condutas de águas de chuva, a partir do pátio, e águas de banhos e de utilização doméstica, conduzidas para a rua. Talhas, silos, lareiras, forno doméstico integram estes espaços habitacionais.
O bairro apresentava uma degradação prolongada no tempo, significando o seu abandono, que aos olhos dos investigadores parece ter sido planeado e ter ocorrido semanas ou meses antes da tomada definitiva da cidade pelos portugueses. Os materiais encontrados parecem arrumados e teriam ficado apenas as coisas que não valeriam a pena levar. Encontraram-se alguns cabos de roca (em osso), pontas de fuso, agulhas, um poiso de mó, alguma cerâmica vidrada e material de cozinha, em cerâmica, ferro ou bronze, candeias e pouco mais.

Como se referia no último dos slides projectados:
«Volvidos cerca de 650 anos o espaço é ocupado por uma unidade industrial; sete séculos e meio depois desaparecem as estruturas islâmicas e nasce o 'Empreendimento do Castelo'».

Fábrica do Inglês quando da sua construção inicial e 'Empreendimento do Castelo', foto a um diapositivo

Das conclusões finais e debate que se seguiu, com intervenção da assistência, há que relevar que a intervenção arqueológica só foi solicitada depois do licenciamento da obra, de modo que pouco ou nada mais se poderia fazer.
O que poderia ter sido um novo pólo de desenvolvimento e atracção cultural e turística será, em breve, mais uma urbanização, que poderia ter sido construída em qualquer outro lugar da cidade, deixando preservado tão rico e exemplar património, totalmente destruído.
Figura-se importante que a edilidade acabe com este tipo de procedimento. Vai sendo tempo de orçamentar e encomendar a definição de uma carta de sensibilidade arqueológica, de forma a que sondagens prévias ao licenciamento possam ser efectuadas, sempre que se requeira construir dentro da área coberta por essa carta. Nestas circunstâncias, esta situação, bem como outras que sempre vêm ocorrendo, poderiam ter sido evitadas, numa cidade orgulhosa do seu património e que aspira a um turismo cultural de qualidade, como é usual ouvir dizer por parte dos responsáveis autárquicos.

P.S.
A situação acima descrita já aqui tinha sido denunciada, em Janeiro de 2006, num post que intitulei Preservar a Memória (clique).

sexta-feira, outubro 13, 2006

Toda uma semana com Fiama

Um poema mais e encerro uma semana inteira com Fiama.

  • ESTRADA DE FOGO

    Pedra a pedra a estrada antiga
    sobe a colina, passa diante
    de musgosos muros e desce
    para nenhum sopé;

    encurva, na abstracta encruzilhada;
    apaga-se, na realidade. Morre
    como o rastilho do fogo,
    que de campo em campo aberto

    seguia, e ao bater na mágica cancela
    dobrava a chama, para uma respiração,
    e deixava o caminho do portal
    incólume e iniciado.

Fiama Hasse Pais Brandão
ECOS
OBRA BREVE
Assírio & Alvim, Lisboa 2006

quarta-feira, outubro 11, 2006

Viver na beira-mar

É ainda Fiama quem diz:

  • Viver na Beira-Mar

    Nunca o mar foi tão ávido
    quanto a minha boca. Era eu
    quem o bebia. Quando o mar
    no horizonte desaparecia e a areia férvida
    não tinha fim sob as passadas,
    e o caos se harmonizava enfim
    com a ordem, eu
    havia convulsivamente
    e tão serena bebido o mar.

Fiama Hasse Pais Brandão
ECOS
OBRA BREVE
Assírio & Alvim, Lisboa 2006