terça-feira, outubro 31, 2006

Novos poetas algarvios (II)

Como o "prometidro é dre vidro", não vou quebrar o compromisso. Quero dar-vos conta do que dizem os jovens algarvios na sua poesia e começo com aquele que já ontem incluí em fotografia - Pedro Afonso.



  • tenho entranhado em mim o meu fim a minha plenitude fatal
    lentidão fatídica das tardes solarengas do inverno mediterrânico

    cresço nas margens dum texto-mar que se atormenta na sua tempestade [enunciadora
    sou espuma por absorver numa praia de rochas quentes e carapaças secas

    gritam-me pelos ares na loucura da descoberta
    sou-me imposto na ondeante ditadura marítima

    o meu futuro é o presente e o passado está para acontecer
    sou o tempo que demoro a dizer-me

    defino-me na arbitrária orquestra dos signos
    margino-me parágrafos genéticos nas páginas do que serei

Pedro Afonso
Do Solo ao Sul
(Antologia de Novos Poetas Algarvios)
ARCA (Associação Recreativa e Cultural do Algarve), Faro 2005

segunda-feira, outubro 30, 2006

Novos poetas algarvios

No sábado passado, para assistir ao lançamento de um livro - Muchas veces me sucede olvidar quien soy - de um amigo, Luís Ene, em edição bilingue, castelhano e português, desloquei-me a Vila Real de Santo António, ao centro Cultural António Aleixo.
A sessão de apresentação solicitava a participação activa dos que se encontravam na sala, com a leitura de textos, como é hábito em Ler Alto, uma iniciativa que vem sucedendo com regularidade mensal, em Faro, na sede da Sociedade d'Os Artistas.
Também participei neste espaço de leituras, com um conto, destes que tenho vindo a publicar aqui, no blog, mais precisamente um que intitulei Por coisa de tão pouca monta renunciar-se, assim?!, escolhido na linha do que me pareceu significar, também, o título do livro aqui apresentado.

Nesta sessão esteve Uberto Stabile, poeta de nacionalidade espanhola, editor e tradutor deste trabalho de Luís Ene. Esta relação entre poetas das duas margens do Guadiana acontece na sequência de alguns encontros, motivados pela literatura e pela fotografia, de que Ler Alto tem a sua quota de responsabilidade e que já conduziu à formação do Círculo Literário do Algarve, denominado Sulscrito.

O que mais vos quero agora revelar e que maior interesse me suscitou foi a presença activa de vários jovens, em número significativo, alguns deles a integrar a Antologia de Novos Poetas Algarvios, numa organização de Maria Aliete Galhoz.


Sulscrito em Vila Real, Pedro Afonso lendo alto, foto com telemóvel, Outubro 2006, © António Baeta Oliveira

 

 


Aqui está um deles, Pedro Afonso, a quem fotografei no seu momento de participação em Ler Alto, nesta edição que teve lugar em Vila Real de Santo António.

 


Quando lê, alto, a crispação da sua mão traduz bem a carga emotiva do que escreveu no papel.

Eu, em próximos posts, dar-vos-ei conta do que nos dizem estes jovens.
Entretanto, passeiem pelos vários links que aqui semeei e aos quais acrescento esta revista electrónica - Minguante.
Luís Ene está a agitar por aqui.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Ao jeito de um fotoblog (II)

No cais, sobre o Arade, Silves 2005, © António Baeta Oliveira


  • já pouco me prende aqui
    já aqui pouco se prende
    amar
    ras neste cais

    os tresmalhados
    turistas
    em busca do tempo perdido.

P.S.
Como anda por aí grande afã em torno dos direitos de autor, que sempre tenho feito por respeitar, convém especificar que a estrofe "em busca do tempo perdido", corresponde a algumas traduções do famoso título "À la recherche du temps perdu", de Marcel Proust. Usei-a com perfeita consciência, pois era isso mesmo que eu queria significar.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Estão aí os Outonos de Teatro, em Portimão

http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/velazquez/velazquez.meninas.jpg
Las Meninas, de Diego Velásquez


Na terça-feira passada, pela noite, lá estava eu, sentado na plateia, para assistir a uma peça de teatro - Meninas - com a assinatura de uma companhia sedeada em Salamanca - Intrussión.
Os folhetos de divulgação desta iniciativa da Câmara de Portimão, pelos menos aqueles a que tive acesso, em papel e através da Internet, não elucidavam de todo sobre esta companhia de teatro. Li, sim, um pequeno apontamento descritivo do que se propunha esta companhia apresentar; nem sequer dava para entender de que se tratava de uma companhia espanhola, tanto mais quanto a designação usada se referia à sua distribuidora e não à companhia produtora.
Quando me decidi comparecer, assim um pouco como "um tiro no escuro", foi exactamente por saber que "o pintor chamará ao seu estúdio, uma a uma, todas as personagens que aparecem em AS MENINAS. Velázquez irá interagir com cada uma delas, tendo o espectador a oportunidade de descobrir doze maneiras diferentes de ver a realidade espanhola do século XVII".

Servida por um elenco homogéneo, com alguma solidez interpretativa, assisti com agrado à representação. Como não conhecia a dramaturgia, fiquei em dúvida sobre se algumas das coisas que me desagradaram se deviam ao autor ou ao encenador. Agora, em casa, consultando o site da companhia, pude entender que tanto o texto como a encenação são da mesma pessoa - Roberto García Encinas. Também me apercebi que se trata de uma companhia com hábitos de trabalho junto de público jovem, estudantil, em contextos de sala, calle o cabaret.
Nesta perspectiva, entendo então que as doze maneiras diferentes de ver a realidade espanhola do século XVII surjam tão simplistas, como um "piscar de olhos" aos "tiques" da sociedade europeia da actualidade, a solicitar o riso e o divertimento fácil. Esse entendimento justifica também a minha estranheza pelo recurso a atitudes grandiloquentes, a poses demoradas, a gesticulação lenta e prolongada, que se usavam para reverenciar os "grandes vultos da História" ou sacralizar as "grandes obras de arte", como era hábito das representações "burguesas" de finais do século XIX e que permanecem, ainda no nosso tempo, em alguma estética ultrapassada por conceitos artísticos mais recentes.

Um apontamento algo desgostoso sobre a luminotecnia, estranha, tão estranha que até parecia haver qualquer problema eléctrico na sala.
Acabei por aplaudir o espectáculo no mínimo, reconhecendo tão só o traquejo interpretativo dos actores

É certo que fiquei a conhecer melhor as figuras que compõem o quadro de Velásquez, mas mais pelo nome e seu lugar na corte do que propriamente pelos estereótipos apresentados.
Concedo que o meu desagrado tenha a ver com a minha idade, pois tratava-se de um trabalho de divulgação para a juventude, na qual se aposta hoje em dia nestes espectáculo/divertimento, como meio de a trazer às salas de teatro, para depois não se lhe oferecer a arte do teatro, que deve ser inovadora, divertida também, mas porque incentivadora da capacidade crítica, a favorecer a reflexão e o entendimento deste mundo, que é, afinal, o que compete a quem se ocupa do acto cultural.
Mas os Outonos de Teatro ainda estão aí, pelas mãos de grupos regionais, como o Teatro da Estrada, ou de expressão nacional, como o Grupo de Teatro de Montemuro e O Bando. Há também lugar a uma estreia - Ricardo III, pela ACTA (A Companhia de Teatro do Algarve).

P.S.
Vote n'Os Grandes Portugueses! Vote em José Malhoa! Siga o link.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Para que fique registado

Soube, através de A Voz de Loulé, edição nº 1614, de 15 de Outubro de 2006, na habitual coluna de Libertário Viegas, a quem envio um abraço, que José Mendes Cabeçadas Júnior, ex-Presidente da República Portuguesa, em 1926, natural de Loulé, foi deputado pelo Círculo de Silves, entre 1911 e 1915.
No site oficial da Presidência da República, na galeria de anteriores Presidentes da República (que pode consultar clicando aqui), é feita referência a essa sua condição de deputado, pelo período atrás indicado, mas não se refere o Círculo Eleitoral de Silves.


Também para que conste, faço saber que um dos primeiros blogs algarvios com o qual o Local & Blogal se relacionou, Asul, está em tempo de aniversário. Os meus PARABÉNS!

Se, lá para o mês de Maio, este meu amigo, autor do blog, voltar a ausentar-se, o mais provável é que tenha viajado até à China, talvez em busca de um melhor sistema de ensino. (piada(?) privada, mas que pode ser entendida por quem leia os seus posts dos últimos dias).

Ainda merece registo, pelo menos pela raridade nos tempos correm, uma notícia abonatória sobre algo que se refere a Silves.

terça-feira, outubro 24, 2006

Arade... o futuro por este rio acima

 Conferência sobre o Arade, Outubro 2006, foto com telemóvel, © António Baeta Oliveira

O título e a fotografia referem-se a uma Conferência que teve lugar em Silves na passada sexta-feira, na Fissul, sob o patrocínio da CCDRAlg (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve). Como o que aqui escrevo não se trata de jornalismo, permito-me sintetisar o que se passou ao longo de aproximadamente quatro horas de comunicações e debate, emitindo a minha opinião.
Os responsáveis pela CCDRAlg e os representantes das empresas que se configuram na Agência Arade têm um real e efectivo interesse nas enormes potencialidades da bacia hidrográfica do Arade.
O que fiquei a entender é que, apesar de todos os louvores e declarações de que o Rio Arade e a sua navegabilidade são "a pedra de toque" de toda esta questão, nada irá acontecer por aqui antes que o porto de recreio de Portimão inicie e conclua as adaptações que lhe permitam ancorar as frotas de paquetes de grande turismo. Esta irá ser a grande e primeira prioridade

Um dia, no futuro, avançar-se-á por este rio acima (os interesses em presença nesta conferência atestam esta garantia), mas a animosidade revelada perante as reservas levantadas pelos ambientalistas e as atitudes abusivas de que vimos tomando conhecimento em recentes construções turísticas na nossa região, deixam a desejar pelo futuro deste rio.

Francamente, o meu maior desejo era o de que eu estivesse mesmo muito enganado.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Eid Mubarak (عيدمبارك)

© Al-Furqan

Os meus mais sinceros votos de um bom Eid ul-Fitr (عيدالفظر) a todos os meus amigos muçulmanos.

O mundo islâmico celebra o fim do Ramadão (رمضان). Hoje, no primeiro dia do mês de Xawwal (شوّال) e depois da celebração religiosa associada, ocorre um grande almoço em família onde se trocam prendas, como por aqui fazemos no Natal.
Esta é uma das maiores festividades do mundo islâmico.
Equidistante, religiosamente, do cristianismo e do islamismo, porque ateu, regozijo-me com os meus amigos pelo Eid ul-Fitr como o farei daqui a algum tempo pelo Natal, particularmente no que se refere à festa de família, em volta da mesa da confraternização.