segunda-feira, dezembro 04, 2006

Nem para "mandar cantar um cego"

Neste último mês, mês e meio, em Vila Real de Santo António, Tavira, Faro, Lagoa, Portimão e Lagos, houve oferta suficiente para que pudesse assistir a teatro, dança, recitais, concertos, exposições de artes plásticas, ópera, cinema.
Em Silves, ao longo do mesmo período de tempo, a oferta cultural reduziu-se a uma exposição sobre osteologia, numa perspectiva arqueológica. Ossos!
A que estado chegaram as coisas nesta fúria de construção, acelerada em véspera de actos eleitorais, que deixa a cidade cercada de obras paradas e as finanças sem recursos para "mandar cantar um cego"!

quarta-feira, novembro 29, 2006

Um Conto (XXIII)

  • Em noite de mudança da hora legal

    Era tarde. Resolvi regressar.
    Desci, compassadamente, a avenida sobre o rio, vendo partir alguns barcos para a faina do mar. As luzes de bordo reflectiam-se no negrume da água, sugerindo-me, na noite, uma qualquer fantasmagoria que me inquietou. Aproximei-me do carro. Olhei o meu relógio. Eram precisamente duas horas da noite. Abri a porta, sentei-me ao volante, coloquei o cinto de segurança e ia rodar a chave na ignição quando dei pela sua presença, sentada, a meu lado.
              - Estavas aí? Como vieste?
              - Ora! Resolvi vir ao teu encontro.
    Beijou-me, longamente, e perdemo-nos em jogos de amor. Nem dei conta do tempo que ficámos ali, naquele rodopio estonteante, naquele nosso deslumbramento, naquela tranquilidade dos corpos saciados, naquele remanso doce do amor.
              - Vamo-nos. Faz-se tarde.
    Compus-me de novo ao volante, rodei a chave. No rádio o locutor informava:
              «São duas horas da madrugada».
              - Duas horas? Mas, eram duas horas quando...
    Olhei para o lado. Ela não estava lá.

    Terei sonhado? Pareceu-me tudo tão real.

    Ao chegar a casa consultei o meu relógio. Eram quatro horas.
    Cerca de dez minutos depois chegava ela. Surpreendido, perguntei-lhe:
              - Onde estiveste?!
              - Onde estive!? Vieste tão apressado que nem deu para te acompanhar, ao longe.
              - ?!?!?! Vim... normalmente... até demorei bastante.... parece-me.
              - Deves ter demorado uma hora, mais ou menos.
              - Só uma hora?
              - Sim, uma hora. Pouco antes de chegar, o rádio, no carro, informava que eram três horas da madrugada.
              - Mas no meu relógio são... Ah


terça-feira, novembro 28, 2006

Mário Cesariny faleceu

© Instituto Português do Livro e das Bibliotecas
© Instituto Português do Livro e das Bibliotecas


Em homenagem a Cesariny, apetecia-me passar aqui a sua Pastelaria, mas já o fiz por duas vezes (pode, no entanto, lê-la aqui).
Recordemo-lo, então, com um seu outro belo poema:

  • You are welcome to Elsinore

    Entre nós e as palavras há metal fundente
    entre nós e as palavras há hélices que andam
    e podem dar-nos morte       violar-nos       tirar
    do mais fundo de nós o mais útil segredo
    entre nós e as palavras há perfis ardentes
    espaços cheios de gente de costas
    altas flores venenosas       portas por abrir
    e escadas e ponteiros e crianças sentadas
    à espera do seu tempo e do seu precipício

    Ao longo da muralha que habitamos
    há palavras de vida       há palavras de morte
    há palavras imensas, que esperam por nós
    e outras, frágeis, que deixaram de esperar
    há palavras acesas como barcos
    e há palavras homens, palavras que guardam
    o seu segredo e a sua posição

    Entre nós e as palavras, surdamente,
    as mãos e as paredes de Elsinore

    E há palavras nocturnas palavras gemidos
    palavras que nos sobem ilegíveis à boca
    palavras diamantes palavras nunca escritas
    palavras impossíveis de escrever
    por não termos connosco cordas de violinos
    nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
    e os braços dos amantes escrevem muito alto
    muito além do azul onde oxidados morrem
    palavras maternais só sombra só soluço
    só espasmo só amor só solidão desfeita

    Entre nós e as palavras, os emparedados
    e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Selecção e Prefácio de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

segunda-feira, novembro 27, 2006

Parabéns, Torquato!

Torquato da Luz cumpriu ontem mais um aniversário. Venho presenteá-lo com o seu próprio trabalho criativo.

© Torquato da Luz
Acrílico sobre tela (pormenor)

  • Dúvida

    A dúvida é a única certeza:
    nada é seguro, tudo é vago e incerto.
    Nem sempre a natureza
    favorece o clima
    que gera oásis no deserto.
    Gostava de crer acima
    de qualquer hesitação
    ou egoísmo,
    mas não me é possível, não,
    esconder o cepticismo.

    Só não vacila quem crê
    apenas no que vê.

Torquato da Luz
Ofício Diário

sexta-feira, novembro 24, 2006

Um Cont(inh)o (XIII)

Aqui está algo que não fazia há algum tempo - um microconto (cerca de 50 caracteres):


  • Andei perdido no tempo que me roubaram no dia em que a hora mudou.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Esquecido num cigarro

Fumando um cigarro, Tavira. Verão de 2006, © António Baeta Oliveira


  • É no cigarro que me esqueço
    no fim
    da tarde que devagar desce a calçada.

    O muro a que me encosto
    ficará
    numa baça lembrança
    do que foi
    a minha desvanecida imagem
    do que fui.


Recordando uma antiga fotografia comentada - Diversidade de opinião (clique) - publicada em 22 de Agosto de 2003.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Em Silves, vendo o tempo passar

Luiza Neto Jorge viveu em Silves. Desse tempo ficou uma publicação que recebeu o título Silves 83.


  • Águas passadas
    não moem rodízios
    de moinhos

    Águas passadas
    não moem ruínas
    de moinhos

Luiza Neto Jorge
Poesia
Silves 83
Assírio & Alvim, Lisboa 2001

P.S.
O título que dei ao post tem a ver com algum desencanto que se vive na cidade; desmazelo e obras por todo o lado, paradas, sem fim à vista, ausência de iniciativas culturais, de vida comercial, de vivência social, de perspectivas.
Um marasmo.
O problema maior é que, quando se trata de civilização, ficar parado não significa ficar no mesmo estádio de desenvolvimento, mas recuar, no que chamaria de involução.