quarta-feira, abril 04, 2007

É tempo de Páscoa

É tempo de Páscoa. Sei a que se refere, mas eu nada tenho a comemorar a tal propósito; são conceitos religiosos que me são estranhos e pouco ou nada me dizem.
Sei, também, que se aproxima um longo fim-de-semana. Sei que a partir de hoje o número dos que por aqui irão passar será diminuto; o tempo é de ar livre. Mas haverá sempre alguém que procura uma palavra e é para esses que aqui deixo este poema.
Até breve, depois da Páscoa.



  • No fogo das estradas é que
    o medo de ter
    tempo de mais as mãos pousadas
    no amor nas espáduas
    na amargura no rio
    é que molhar as mãos
    na água dos joelhos e andar
    um pouco mais ainda sobre o fogo
    das pernas e alcançar a terra
    o ar do tronco o vapor o
    movimento infindável do corpo em torno
    do amor é que o mar as estradas
    é que a locomoção por sobre a mágoa
    no fogo das estradas é que tudo
    se pode incendiar


Gastão Cruz
Poemas de Gastão Cruz
ditos por Luis Miguel Cintra

Assírio & Alvim, Lisboa, 2005



segunda-feira, abril 02, 2007

Senador na SL

© António Baeta Oliveira

Como tenho vindo a informar, com alguma regularidade, sobre o que o meu heterónimo vai fazendo na Second Life (SL), cumpre-me dizer-vos que se candidatou ao Senado de Roma e, aceite a sua candidatura, tomou posse no passado Sábado, tendo sido ungido pelas vestais, na Basílica, recebido pelo Imperador em sessão privada no Palácio Imperial e fazendo ouvir a sua declaração de intenções na primeira sessão da Cúria Romana.

O que agora vos escreve, se bem que preocupado e atento à política no quotidiano da sua realidade, local e global, é avesso às disputas partidárias e sem inclinação para as questões do poder. Sente-se bem, no entanto, no papel do seu heterónimo, até porque as sessões da Cúria Romana, na SL, se centram nas questões históricas e culturais e nos debates sobre a simulação da cidade - a ROMA Imperial - ROMA (206, 26, 22)

sexta-feira, março 30, 2007

Há poetas que visito

Há poetas que visito e que me dão a honra da sua visita. Acontece que um desses poetas estará esta noite (30), pelas 21h00, na Bulhosa de Oeiras, para apresentar, com a assinatura da Papiro Editora, o seu último trabalho, a que chamou Ofício Diário.

É de um exemplar que me remeteu e onde deixou um simpático autógrafo, que transcrevo o poema que se segue.
Escolhi-o, não porque fosse o poema de que mais gostei, mas antes por ser o que me reavivou memórias que julgava esquecidas, de um Algarve que conheci e que já não reconheço.

  • Memória

    A memória dos cheiros
    leva-me à velha casa dos avós,
    com suas arcas de figos secos,
    amêndoas e alfarrobas.

    Em olorosa festa,
    há uvas que rescendem
    entre albricoques, pêssegos, ameixas
    e peras-engasgas.

    Cheiros que fazem a memória
    de um tempo que me interpela.

Torquato da Luz
Ofício Diário
Papiro Editora, Lisboa 2007

quarta-feira, março 28, 2007

Julião Quintinha, de Silves

Fui, há dois dias atrás, agradavelmente surpreendido por uma ligação electrónica que o blog Ilustração Portuguesa estabeleceu a um meu antigo post sobre um ilustre cidadão silvense...

© Ilustração Portuguesa
Julião Quintinha

Se clicar na fotografia acederá precisamente à página que evoca a figura do nosso ilustre cidadão. Se clicar no seu nome, sob a fotografia, acederá directamente à página do meu blog a que se faz referência.

Sobre Julião Quintinha junto dois links:
          - O Movimento Neo-Realista em Portugal, um texto de Alexandre Pinheiro Torres, que referencia Julião Quintinha, na pág. 27;
          - Resumo Bibliográfico de 50 anos de Literatura Portuguesa(1936-1986), de Luís Amaro, que referencia o óbito do nosso concidadão, em 1968, na pág. 19.

Quero ainda dizer-vos do autêntico serviço público que o Ilustração Portuguesa vem desenvolvendo nas suas páginas, tanto pelo trabalho de digitalização, como pelo de divulgação destas revistas do passado, que são lugares da nossa memória colectiva.
O meu agradecimento à Mariana, responsável por este trabalho, e o meu link para o seu blog, na coluna da esquerda, entre os «Blogs ... de leitura sincopada».

Nota:
Não deixe de ler o conto de Julião Quintinha - O Pató - com link nesse meu post de 22 de Novembro de 2004 e documentar-se melhor sobre a outra personalidade silvense aí relembrada - Bernardo Marques.

segunda-feira, março 26, 2007

Tentando dar o seu melhor

Chaminé, em Cacela, Setembro de 2006, © António Baeta Oliveira


  • Mesmo quando as nuvens querem esconder o Sol e impedir as suas melhores promessas de Primavera, notem como a cal, nos muros, nos beirais, nas chaminés, insiste em dar vida aos parcos raios de luz que a ela chegam.


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Recordando uma antiga fotografia comentada - Ainda a Memória (clique) - aqui publicada em 6 de Novembro de 2003.

sexta-feira, março 23, 2007

Um fim-de-semana Bim-Bom!

Com os meus votos de um óptimo fim-de-semana, deixo-vos com...


... Paula Morelenbaum, Jacques Morelenbaum e Ryuchi Sakamoto em...
A Day in New York


Capa do álbum -  A Day in New York


quarta-feira, março 21, 2007

A Primavera está entre nós

Rosa, Maio de 2005, © António Baeta Oliveira

É de propósito que publico este post às 00h08 do dia 21 de Março, no preciso minuto em que, para as coordenadas de Silves, o Sol atinge o ponto vernal, entrando no equinócio da Primavera; para os astrólogos, que não para os astrónomos, é também tempo do signo de Aries (Carneiro).

  • PRIMAVERA

    Esta é a estação das horas canónicas, dos
    sinos que movem os dias nos seus traços divinos, da música
    desses instantes que se metem pelos poros
    da alma, fazendo ressoar a eternidade. Não sei
    desde quando é assim: a primavera, que nasce no breve
    equilíbrio entre os pólos, assiste ao nascimento
    de flores que correspondem a uma imagem
    da perfeição. Vejo-as imóveis nas naturezas
    mortas, nos jarrões chineses de antigas
    dinastias, nos pratos de rebordos esbeiçados
    pelo tempo. São as flores que não atraem as abelhas - as mais
    belas. No entanto, quando colho as outras flores, vivas,
    e as meto dentro de livros, fechando-os entre outros livros
    para que sequem mais depressa, imagino o diálogo
    que se poderá travar entre as palavras e as pétalas, o pólen
    e essa abstracta espuma das sílabas, o caule partido a meio
    e o verso quebrado pouco antes do fim, o suficiente
    para que o ritmo imponha a sua sombra. Um claustro
    vegetal, cujas colunas são construídas
    a partir de uma terminologia
    botânica, das exóticas designações de herbários
    amarelecidos, de rostos enrugados como as folhas
    mais perenes. O que sei, então,
    é isto: que o essencial resiste no coração
    da primavera, e que o seu preço é este canto
    de pássaros que vem não sei de onde, como
    a luz da manhã quando a névoa
    se desfaz.


Nuno Júdice
Poesia Reunida (1967-2000)
Teoria Geral do Sentimento (1999)
Dom Quixote, Lisboa, 2000