quinta-feira, maio 24, 2007

Sobre o que estou a ler

Há alguns anos atrás, quando iniciei o meu blog, escrevi um dia, com intenção poética, algo sobre a alcáçova do castelo da minha terra, referindo-me a ela como se armazenasse o calor do dia e o mantivesse até à madrugada seguinte, numa metáfora à memória dos que me antecederam.
Alguém comentou: - "Mares do Sul".
Intrigado, perguntei ao autor do comentário sobre o conteúdo da sua escrita, que não tinha entendido.
Disse-me que o que eu escrevera lhe fazia lembrar "Os Mares do Sul", um livro de Manuel Vásquez Montalbán.

Procurei o livro, comprei-o, li-o e fiquei preso a este autor, criador da personagem do detective Pepe Carvallo, galego residente em Barcelona.

Li depois outros livros seus, da biblioteca pessoal de um amigo meu, que o conhecia bem. Os seus livros, usam o enredo e a intriga policial para nos falar de viagens pelas mais diversas partes do mundo, debruçando-se sobre a geografia, a observação dos costumes e tradições, a política, a gastronomia, a crítica da sociedade onde vivemos e das mudanças que o tempo, a massificação e a globalização vêm introduzindo.
Montalbán escreve com um conhecimento profundo dos Homens e dos locais deste mundo em que vivemos, que ele deve ter de facto percorrido de lés-a-lés, pois sei que faleceu em 2003, vítima de um ataque cardíaco no aeroporto de Banguecoque.

Estou a ler, deliciado, a sua última obra - Milénio - uma volta ao mundo, em dois volumes editados pela ASA, que assim inicia a publicação integral da Série Pepe Carvalho.

Aconselho vivamente!

segunda-feira, maio 21, 2007

A música, a voz, o corpo em cena, as memórias

      Damen und Herren
            Ladies and Gentlemen
                  Mes Dammes et Monsieurs:


Ute Lemper


(Clique para ampliar)

Na mais irrepreensível linha das canções de cabaret, a 29ª edição do Festival Internacional de Música do Algarve trouxe ao Teatro das Figuras, em Faro, a sua mais fabulosa intérprete.

Foi um dos mais vibrantes e impressionantes espectáculos a que assisti em toda a minha vida.

Ute Lemper encheu a cena, num espectáculo de música, canto, dança e teatro, em interpretações riquíssimas de Jacques Brel, Jacques Prévert, Edith Piaf, Léo Ferré, Kurt Weil, Marlene Dietrich, Van Morrison e The Doors, numa variedade a que ela confere um intimismo, uma expressividade, uma sensualidade, um jogo de emoções e cumplicidades como só é possível a uma artista total, que se apodera do drama e do desespero de gente só, marginal, que procura na decadência das tabernas, dos cabarets, dos prostíbulos, a parcela de prazer que a vida lhes nega, nessa imagem dos marinheiros do Port d'Amsterdam.

Não resisto a deixar-vos um registo de Ute Lemper numa interpretação muito pessoal de Milord, a canção que a voz de Piaf nos deu a conhecer.


Capa do álbum, Blood and Feathers


quinta-feira, maio 17, 2007

4º Festival Islâmico de Mértola

No que se refere à avaria do meu computador, quero informar que a máquina está recuperada, mas ainda carece de algumas adaptações e actualizações.
Entretanto, tinha várias coisas para vos contar que o tempo desactualizou, mas há uma ou outra coisa de carácter tão intemporal que conto trazer aqui.

Urgente e com uma marca muito temporal é a minha chamada de atenção para a realização, neste fim-de-semana, do 4º Festival Islâmico de Mértola.


Sobre o 3º Festival, há dois anos atrás, deixei este post (clique), cuja leitura vos proponho e onde abordo as minhas impressões sobre o que lá vivi.


Notas:
1. O meu arquivo do mês de Maio de 2005 (clique) está todo ele recheado de referências a essa civilização do Al-Ândalus. Julgo que vale a pena uma visita.
2. Estive em Mértola na semana passada, para participar numa conferência internacional integrada no projecto Mercator, relacionado com cidades portuárias do Mediterrâneo, manifestação que integra já este 4º Festival.

quinta-feira, maio 10, 2007

Avaria

Queiram desculpar a minha ausência, mas um problema no computador não me tem permitido aceder à INTERNET.

Em breve regressarei.

quinta-feira, maio 03, 2007

Digo-o por música

O que me vai no íntimo, e me apetece partilhar, não consigo expressá-lo nesta forma habitual de utilização das palavras; falta-me a verve de poeta ou a catarse de artista.
Vou recorrer a Brad Mehldau e digo-o por música.

Capa do álbum - Places - de Brad Mehldau

segunda-feira, abril 30, 2007

Arte Poética

José Carlos Barros e Camiro de Brito, Loulé, Abril 2007, telemóvel, © António Baeta Oliveira


Helder Raimundo, em colaboração com a Biblioteca Municipal de Loulé, organizou a apresentação do último trabalho de Casimiro de Brito - Fragmentos de Babel, seguido de Arte Poética - e convidou como palestrante José Carlos Barros.

Aqui houve blogs!

José Carlos Barros debruçou-se sobre as temáticas e as motivações subjacentes à obra de Casimiro de Brito, numa análise aprofundada, com que o próprio poeta se viria a identificar, ao realçar a justeza dessa análise ao longo da sua intervenção, que primou pela exuberância do seu discurso, pela riqueza das suas histórias de vida, partilhadas em público, numa expressividade estonteante de alegria de viver, de um homem que se debruça sobre o seu percurso e nos enriquece com uma cosmogonia muito sua, feita de saber e experiência, como só um viajante, conhecedor do mundo, pode usufruir e partilhar.



  • O que busco nesta vagabundagem é apenas um som, uma visão: ouvir em cada som a vasta polifonia, a respiração do animal universal; captar em cada coisa ou partícula dela o todo (o mundo) em mudança que nela se contém. O que busco é o impossível mas algumas palavras, se na música do corpo me debruço, ainda se abrem.


Casimiro de Brito
Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética
Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão 2007

quinta-feira, abril 26, 2007

Fragmentos de Babel

Sabem quem irá estar no próximo Sábado (28), pelas 15h30, na Biblioteca Municipal da sua terra natal, Loulé, para a apresentação do seu último trabalho - Fragmentos de Babel?





  • Quando me aproximo do mar
    tudo me parece aceitável.
    As ondas são folhas que vão
    a caminho da perfeição.
    Perfeito é pois quem do tempo
    tem a longa paciência -
    também a tenho quando escuto
    a nervura mágica de tudo,
    um tudo feito de sombras
    que amaciam a pedra luminosa
    que todas as coisas são.
    Saltando de estação para estação
    como se o caminho se fizesse,
    sereno, entre o mar e o céu.
    As ondas que vejo cair
    também as sinto nas areias de mim
    como se tudo, na barca deste mundo,
    fosse mar e luz.
    Por isso a minha vida é intensa
    e velha como a paciência
    que não cessa de se renovar
    no sangue da pedra, e das aves.

Casimiro de Brito
ALGARVE todo o mar
(Colectânea)
Dom Quixote, Lisboa 2005