segunda-feira, outubro 08, 2007

Verso Vão

O Mar, Carvoeiro, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira
  • Verso Vão

    Onda de sol, verso de ouro,
    perífrase vã. Extasiar-me,
    antes, por esta fusão,
    mistura de brilhos. Ou, ainda
    mais íntima, a consciência
    extensa como o céu, o corpo de tudo,
    semelhança absoluta. Respirar
    na quebra da onda. Na água,
    uma braçada lenta
    até ao limite de mim.

Fiama Hasse Pais Brandão
Arómatas & Ecos
Obra Breve
(Poesia Reunida)
Assírio & Alvim, Lisboa 2006

quarta-feira, outubro 03, 2007

Por terras de Almodôvar

Continuação...

Museu da Escrita do Sudoeste, Almodôvar, Setembro 2007, Foto com a câmara do telemóvel Pois foi em busca de novos testemunhos, para além dos que já conhecia no meu concelho, que me desloquei a Almodôvar, em dia muito chuvoso, de modo que esta foto do exterior, batida com a câmara do telemóvel, não faz jus à apresentação do edifício do Museu da Escrita do Sudoeste, aberto ao público por ocasião das Jornadas Europeias de Património.

Museu da Escrita do Sudoeste, sala do rés-do-chão, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraPermito-me assim introduzir uma segunda foto, esta agora já no interior do edifício, sobre o salão do rés-do-chão e incentivar-vos a uma visita, logo que o museu abra definitivamente as suas portas e vos surja uma oportunidade.

Mas o meu passeio não se confinou à visita do Museu. Visitei ainda algumas outras localidades do concelho e assisti à actuação de corais femininos do cantar alentejano, como sucedeu em Nossa Senhora dos Padrões e onde me encantei em duas imagens de Maria, de produção popular e provavelmente local; uma ternura!

Igreja Matriz de Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraOutra surpresa boa foi a de encontrar, isolado nas proximidades de uma pequena aldeia, um templo quinhentista, de três naves, com uma capela-mor que apresenta vestígios de frescos nas paredes, e outras capelas de decoração vegetalista - a Igreja Matriz de Santa Cruz.


Senhora da Lapa, Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraNa vizinhança daquele templo, a poucos passos, sobre um arroio de água límpida, uma pequena ermida, dedicada à Senhora da Lapa e que, a meus olhos, me pareceu um morabito, uma referência de religiosidade própria dos povos berberes e aqui adaptada a templo cristão. Sobre a direita, ligeiramente elevado, um local pintado a cal; restos de alguma fonte extinta ou de gruta que a erosão varreu, e que um popular me descreveu como o sítio onde apareceu a Santa.


Mas a grande e definitiva surpresa ocorreu na Matriz de Santa Cruz, o já referido templo manuelino, pelo cair da tarde, bem longe do mundo urbano e dos seus ruídos, num momento de fruição quase mágico, ao ouvir os primeiros acordes de música antiga de referência mediterrânica, superiormente bem interpretada, ao som da harpa, do fagote, do alaúde, da flauta, da percussão e da voz feminina.

Matriz de Santa Cruz e Grupo musical Azizi, Almodôvar, © António Baeta Oliveira
Foi uma Jornada de Património a perdurar na memória.

P.S.
Se estiver interessado em ver mais fotografias sobre esta jornada de Almodôvar, onde se incluem as referidas imagens de Maria e os frescos da capela-mor, clique em Escrita do Sudoeste e Almodôvar

segunda-feira, outubro 01, 2007

A nossa primeira escrita

A Estela do Guerreiro, Almodôvar e Museu da Escrita do Sudoeste, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira

A escrita do Sudoeste, de há mais de dois mil e quinhentos (2500) anos, é a primeira escrita que se conhece no território a que hoje chamamos Portugal.
Se bem que ainda por decifrar, no seu sentido mais amplo, conhecem-se no entanto os sons representados nos seus símbolos (porque língua fonética) pela semelhança que apresentam em relação à escrita dos fenícios (no actual Líbano), povo de marinheiros e comerciantes, com quem os povos que aqui viveram bem antes de nós se relacionavam e com quem estabeleceram laços de intercâmbio.

A feitoria fenício-púnica, hoje destruída, do Cerro da Rocha Branca, junto a Silves, e que terá estado na origem da nossa cidade e na origem do próprio topónimo, Cilpes, foi um desses portos de comunicação com o Mundo Mediterrânico.

Os testemunhos encontrados dispersam-se ao longo das principais vias de comunicação da época (1ª Idade do Ferro), os cursos de água, - Sado, Mira, Odelouca, Arade, Foupana, Vascão, Oeiras - em torno de um ponto central, que coincide com o lugar de maior número de testemunhos encontrados, situado no que é hoje o concelho de Almodôvar.
Daí que se justifique plenamente a criação deste Museu da Escrita do Sudoeste, que agora abriu ao público no contexto das Jornadas Europeias de Património, e de cuja colecção destaco a pedra sepulcral que se pode ver na fotografia acima e que ostenta a figura de um guerreiro, muito possivelmente representando o próprio homem cuja sepultura se pretendeu assinalar.

A continuar...

segunda-feira, setembro 24, 2007

Milreu, Monumento Nacional

No passado fim-de-semana, por ocasião das Jornadas Europeias de Património, fui "aliciado" por um convite para ouvir um grupo de câmara da Orquestra do Algarve (clique) entre as Ruínas de Milreu (clique).

Ruína da ábside do Templo de Milreu, Estoi, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira
O tempo que se fez sentir, com bastante humidade e ameaçando chuva, se bem que não tenha impedido a visita guiada, alterou o local do concerto, transferido para a Igreja de Estoi.

O concerto perdeu, para mim, grande parte do fascínio que as ruínas lhe podiam emprestar. Esse fascínio reside na nostalgia que me assalta nestes locais relacionados com vivências de um passado remoto. Já a tal me referi num post de Fevereiro de 2005, que vos convido a visitar, e onde transcrevi um belo poema de Jorge de Sena, inspirado na peça escultórica aqui encontrada e que se identifica pelo nome de cabecinha romana de Milreu (clique)

P.S.
Ainda vos convido a visitar o local onde publiquei, além da foto que ilustra este post, várias outras que bati nesta deslocação a Milreu (clique).

quarta-feira, setembro 19, 2007

Ainda o Mediterrâneo

Promontório e Ermida da Senhora da Rocha, junto a Armação de Pêra, &copy, António Baeta Oliveira

É ainda o Mediterrâneo e a sua influência que se faz sentir neste promontório feito barco, rasgando o mar, transportando no seu dorso esta ermidinha branca de cal.

As colunas da entrada da Ermida foram datadas como dos primeiros tempos do cristianismo na Península Ibérica.

P.S.
Algumas fotografias de minha autoria, que incluem o capitel de uma das colunas atrás referidas, bem como alguns pormenores do exterior da Ermida e vários olhares à sua volta, podem ser encontrados em Senhora da Rocha (clique)

terça-feira, setembro 18, 2007

Planície Mediterrânica

No passado fim-de-semana dei um salto a Castro Verde, perseguindo a XV edição do Festival Sete Sóis, Sete Luas. Fi-lo a uma sexta-feira, na impraticabilidade de o fazer no sábado ou no domingo, por motivos de ordem pessoal e familiar, e isso deve ter pesado na quebra das minhas melhores expectativas: reduzido interesse e reduzido público nas manifestações programadas para a tarde. Mas, de facto, a uma sexta-feira, quem não está de férias tem que trabalhar e não pode andar em festivais, como eu.

Quando a noite veio, as coisas animaram em volta da gastronomia, com pratos que apresentavam nomes e ingredientes de sabor mediterrânico; mas o que mais apreciei foi a animação à mesa, à boa maneira desta gente do Sul.

Vieram depois, no Cine-Teatro, as tonalidades mediterrânicas provenientes da Grécia e da Turquia pelos Café Aman, e do País Basco, Itália e Portugal, pelos Gialetta. Soube então que a gialetta é o nome italiano para o nosso gaspacho, com as naturais diferenças que se registam de região para região e se patenteiam nas diversas designações que assume.


Igreja dos Remédios, Castro Verde, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraMas, com mais ou menos Mediterrâneo de outras paragens, a Planície Mediterrânica, que dá o nome ao Festival, esteve sempre presente, como podeis comprovar pela fotografia ao lado, da Igreja dos Remédios, em Castro Verde, bem mediterrânica, apesar dos traços culturais do Sul de Portugal, a marcar a diferença que nos caracteriza no todo identitário desse mar interior e da sua periferia.


P.S.
Pode ter acesso a mais fotos desta minha viagem, clicando em Castro Verde