quarta-feira, outubro 17, 2007

Parabéns, poeta!

Esta será a 83ª vez que Ramos Rosa cumpre o seu aniversário.

Para os que não sabem ou os que duvidam que ele tenha nascido neste meu Algarve, confirmem-no, na leitura deste seu poema:

  • Terraço Aberto

    Terraço aberto
    aos ventos e aos astros
    crivado
    das balas de frescura
    das ranhuras do sol

    muros
    onde vejo dedos
    muros fraternos
    de meus ossos

    aqui respiro
    através das flores
    da chaminé
    nos planos brancos
    nos montes azulados
    nas velas brancas
    nas areias douradas

    aqui respiro
    a claridade


António Ramos Rosa
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
(Selecção e Prefácio de Gastão Cruz)
Assírio & Alvim, Lisboa 2004

segunda-feira, outubro 15, 2007

Em Cacela-a-Velha, sobre o mar

Cacela Velha, Outubro 2007, © António Baeta Oliveira

Em cada dia e para cada lugar, num determinado momento de tempo, o Sol cede à Lua o seu direito ao firmamento.
Há lugares, porém, onde o desacordo gera um hiato de poder ou um poder comum em que se não distingue o mando.
Aí, então, há uma paragem no tempo, em que se instala o vazio e o silêncio.
Os Homens são sensíveis à angústia do momento e invadidos por uma nostalgia tão profunda que, não raro, vertem lágrimas que não são de choro, nem de riso.
Eu sei de um lugar onde tal sucede a cada ocaso - em Cacela-a-Velha, sobre o mar.

P.S.
Se tiver interesse em ver mais fotos do lugar, clique em Cacela Velha

quarta-feira, outubro 10, 2007

Dissimulação

Algar Seco, Carvoeiro, Outubro 2007, © António Baeta Oliveira

  • Dissimulação

    Os que parecem pescar, debruçados
    nestas falésias sobre o mar, dissimulam
    o apelo irresistível do

    s i l ê n c i o

    e a vertigem dos grandes

    e s p a ç o s

    na busca da parcela, que lhes cabe,
    do todo do

    i n f i n i t o.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Verso Vão

O Mar, Carvoeiro, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira
  • Verso Vão

    Onda de sol, verso de ouro,
    perífrase vã. Extasiar-me,
    antes, por esta fusão,
    mistura de brilhos. Ou, ainda
    mais íntima, a consciência
    extensa como o céu, o corpo de tudo,
    semelhança absoluta. Respirar
    na quebra da onda. Na água,
    uma braçada lenta
    até ao limite de mim.

Fiama Hasse Pais Brandão
Arómatas & Ecos
Obra Breve
(Poesia Reunida)
Assírio & Alvim, Lisboa 2006

quarta-feira, outubro 03, 2007

Por terras de Almodôvar

Continuação...

Museu da Escrita do Sudoeste, Almodôvar, Setembro 2007, Foto com a câmara do telemóvel Pois foi em busca de novos testemunhos, para além dos que já conhecia no meu concelho, que me desloquei a Almodôvar, em dia muito chuvoso, de modo que esta foto do exterior, batida com a câmara do telemóvel, não faz jus à apresentação do edifício do Museu da Escrita do Sudoeste, aberto ao público por ocasião das Jornadas Europeias de Património.

Museu da Escrita do Sudoeste, sala do rés-do-chão, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraPermito-me assim introduzir uma segunda foto, esta agora já no interior do edifício, sobre o salão do rés-do-chão e incentivar-vos a uma visita, logo que o museu abra definitivamente as suas portas e vos surja uma oportunidade.

Mas o meu passeio não se confinou à visita do Museu. Visitei ainda algumas outras localidades do concelho e assisti à actuação de corais femininos do cantar alentejano, como sucedeu em Nossa Senhora dos Padrões e onde me encantei em duas imagens de Maria, de produção popular e provavelmente local; uma ternura!

Igreja Matriz de Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraOutra surpresa boa foi a de encontrar, isolado nas proximidades de uma pequena aldeia, um templo quinhentista, de três naves, com uma capela-mor que apresenta vestígios de frescos nas paredes, e outras capelas de decoração vegetalista - a Igreja Matriz de Santa Cruz.


Senhora da Lapa, Santa Cruz, Almodôvar, Setembro 2007, © António Baeta OliveiraNa vizinhança daquele templo, a poucos passos, sobre um arroio de água límpida, uma pequena ermida, dedicada à Senhora da Lapa e que, a meus olhos, me pareceu um morabito, uma referência de religiosidade própria dos povos berberes e aqui adaptada a templo cristão. Sobre a direita, ligeiramente elevado, um local pintado a cal; restos de alguma fonte extinta ou de gruta que a erosão varreu, e que um popular me descreveu como o sítio onde apareceu a Santa.


Mas a grande e definitiva surpresa ocorreu na Matriz de Santa Cruz, o já referido templo manuelino, pelo cair da tarde, bem longe do mundo urbano e dos seus ruídos, num momento de fruição quase mágico, ao ouvir os primeiros acordes de música antiga de referência mediterrânica, superiormente bem interpretada, ao som da harpa, do fagote, do alaúde, da flauta, da percussão e da voz feminina.

Matriz de Santa Cruz e Grupo musical Azizi, Almodôvar, © António Baeta Oliveira
Foi uma Jornada de Património a perdurar na memória.

P.S.
Se estiver interessado em ver mais fotografias sobre esta jornada de Almodôvar, onde se incluem as referidas imagens de Maria e os frescos da capela-mor, clique em Escrita do Sudoeste e Almodôvar

segunda-feira, outubro 01, 2007

A nossa primeira escrita

A Estela do Guerreiro, Almodôvar e Museu da Escrita do Sudoeste, Setembro 2007, © António Baeta Oliveira

A escrita do Sudoeste, de há mais de dois mil e quinhentos (2500) anos, é a primeira escrita que se conhece no território a que hoje chamamos Portugal.
Se bem que ainda por decifrar, no seu sentido mais amplo, conhecem-se no entanto os sons representados nos seus símbolos (porque língua fonética) pela semelhança que apresentam em relação à escrita dos fenícios (no actual Líbano), povo de marinheiros e comerciantes, com quem os povos que aqui viveram bem antes de nós se relacionavam e com quem estabeleceram laços de intercâmbio.

A feitoria fenício-púnica, hoje destruída, do Cerro da Rocha Branca, junto a Silves, e que terá estado na origem da nossa cidade e na origem do próprio topónimo, Cilpes, foi um desses portos de comunicação com o Mundo Mediterrânico.

Os testemunhos encontrados dispersam-se ao longo das principais vias de comunicação da época (1ª Idade do Ferro), os cursos de água, - Sado, Mira, Odelouca, Arade, Foupana, Vascão, Oeiras - em torno de um ponto central, que coincide com o lugar de maior número de testemunhos encontrados, situado no que é hoje o concelho de Almodôvar.
Daí que se justifique plenamente a criação deste Museu da Escrita do Sudoeste, que agora abriu ao público no contexto das Jornadas Europeias de Património, e de cuja colecção destaco a pedra sepulcral que se pode ver na fotografia acima e que ostenta a figura de um guerreiro, muito possivelmente representando o próprio homem cuja sepultura se pretendeu assinalar.

A continuar...