quinta-feira, março 12, 2009

Moçárabes

Recorte de foto com telemóvel, da ilustração que figura no boletim de inscrição para o Colóquio promovido pelo CELAS sobre os Moçárabes no Gharb al-Ândalus
Moçárabe, era a designação atribuída aos cristãos que viviam no território do al-Ândalus, ao tempo da presença islâmica no nosso território.

Sempre senti uma enorme curiosidade por esse fenómeno de convivência, tentando entender de que forma a população autóctone se foi aculturando e que importância poderia ter tido a sua existência em comunidades separadas, desenvolvendo seguramente uma cultura muito sua, propiciando, a título de exemplo, a persistência da designação de Santa Maria atribuída à cidade a que hoje chamamos Faro.

A curiosidade foi acrescentada quando tive oportunidade de ouvir e, depois ler, mais atentamente, um trabalho de Maria Alice Fernandes, professora na Universidade do Algarve e com publicações sobre a história da língua portuguesa, e de dialectologia e toponímia em contexto algarvio.
Permitam-me passar aqui um breve excerto:


  • (...)
    Os topónimos existentes em época islâmica não são necessariamente de origem árabe. Alguns radicam em nomes pré-latinos, outros, a maioria dos aqui tratados, são de origem latina. Estes últimos podem ter sido formados em períodos anteriores nas épocas romana ou tardo-antiga ou consistirem em criações toponímicas moçárabes, ou seja, atribuíveis ao romance neo-latino falado pelas populações locais submetidas ao domínio muçulmano, mas não assimiladas. (...)

Abdallah Khawli, Luís Fraga da Silva, Maria Alice Fernandes
A Viagem de Ibn Ammar de São Brás a Silves
Câmara Municipal de São Brás de Alportel, 2007

Terei agora oportunidade de satisfazer um pouco mais esta minha curiosidade, dado que no próximo sábado terá lugar em Silves, a partir das 09h30, no Auditório do Instituto Piaget, por iniciativa do CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves), um Colóquio - Os Moçárabes no Gharb al-Andalus. Sinais de uma cultura - com comunicações de investigadores, na sua maioria relacionados com o Instituto de Estudos Medievais, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

segunda-feira, março 09, 2009

A importância dos arquivos documentais


É curioso que o Marco, quase simultaneamente comigo, no seu blog - Património Cultural do Concelho de Silves, se tenha recorrido do acervo documental do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana e, mais notoriamente da Cruz de Portugal, para se referir à importância da disponibilização pública de tal arquivo.

Também eu me centrei nas duas localizações que se conhecem para o referido cruzeiro, dando especial atenção ao estado de conservação que revela a primeira foto e realçando mais o enquadramento da segunda.

E é, seguramente, com muita curiosidade, que qualquer silvense se debruçará sobre estes dois documentos do passado.

segunda-feira, março 02, 2009

Mergulho no passado

Manuel Maia, arqueólogo,junto à porta tardo-gótica
Bairro islâmico

 


Base de torreão fenício

Um sufoco!

Em pleno centro histórico de Tavira, descer um declive de alguns metros em relação à base do castelo e atravessar as ombreiras de uma porta do séc. XVI, não é de todo surpreendente; porta entaipada por construção posterior.
Mas olhar as escavações arqueológicas, uns 3 metros abaixo do nível que pisamos, e avistarmos um bairro islâmico do séc. XI: as ruas, os muros das casas, as condutas de águas domésticas com poços de decantação, e imaginar que ali viveu gente como nós?!

E convidarem-nos ainda a descer, no interior da terra, mais alguns metros, com lanternas acesas que nos permitam ver, e depararmo-nos com resistentes muros de lama seca ao sol ou, um pouco ainda mais abaixo, largos e imponentes muros de pedra que sustentam um torreão fenício de há uma mão cheia de séculos anteriores a Cristo, é um mergulho no passado como nunca supus algum dia vir a fazer.

Foi um mergulho de mais de 25 séculos e sem "máquina do tempo", mas a imaginação voou, voou...

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Para aqui estamos

  • De ombro na ombreira

    De ombro na ombreira vejo
    no outro lado outro
    ombro na ombreira

    Entre ombros nas ombreiras
    nenhum assombro:
    ombros ombro a ombro
    param ombro na ombreira

    Quando tudo escombro
    ainda todos seremos
    ombro na ombreira.

Alexandre O'Neill
De Ombro na Ombreira
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1969

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Mudar, só para melhor

Pretende o Senhor Ministro da Cultura transferir o Museu Nacional de Arqueologia (MNA) para o edifício da Cordoaria Nacional, o que mereceu um activo repúdio do GAMNA (Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia).


Nos termos de um acordo celebrado entre o Ministério da Cultura (MC) e o Ministério da Defesa (MD), "(...) o MNA é aqui equiparado a serviços residuais do antigo Instituto Português de Arqueologia, entretanto extinto, ou a armazéns de alguns dos serviços do próprio MC, susceptíveis de serem transferidos com rapidez para possibilitar a edificação do novo Museu Nacional dos Coches. Ora o MNA é um dos mais importantes museus portugueses, com vastas, pesadas e delicadas colecções que albergam um número significativo de tesouros nacionais. E, ao contrário de outros museus (entre eles o Museu dos Coches) as suas colecções continuam a crescer e nunca puderam ser senão muito parcialmente expostas. Acresce que, sendo cada vez mais visitado por todas as tipologias de públicos, ele continua a cumprir funções didácticas incontornáveis, ao serviço da formação de alunos de todos os graus de ensino. Simultaneamente, continua a ser também um dos mais importantes centros de estudos arqueológicos em Portugal, aberto a professores e investigadores portugueses e estrangeiros que ali dispõem de gabinetes de trabalho, de biblioteca especializada e de laboratórios de conservação e restauro."

O GAMNA apela à atenção de todos para o desenvolvimento desta problemática nos próximos dias e semanas, na defesa dos superiores interesses do Património e da Cultura nacionais.

Eu faço-me eco deste apelo junto dos que aqui me visitam.


P.S.
Reflexo desta nota:
- no Público de 19 de Fevereiro (clique)
- no Público de 27 de Fevereiro (clique)

terça-feira, fevereiro 17, 2009

CELAS homenageou Adalberto Alves

Adalberto Alves, Homenagem do CELAS, Silves, Fevereiro 2009
CELAS (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves) homenageou Adalberto Alves (na foto), na sequência da atribuição, pela UNESCO, do Prémio Sharjah 2008.
Fizeram-se representar oficialmente a UNESCO, o Governo Civil, a Delegação Regional do Ministério da Cultura e a Assembleia Municipal de Silves.

De entre as publicações que se apresentavam á venda, de obras do homenageado, adquiri um livro de poesia, bilingue (português e farsi), que além dos poemas de Adalberto, inspirados numa sua visita ao Irão, e das suas traduções de poetas persas, é também uma obra artística, tanto pela estética do grafismo e enquadramento de cada página, como pelas gravuras e aguarelas que contém.

Deixo-vos um poema do homenageado, perante a visão do Lago Salgado de Maharlu.


  • chorou a desolação todo este sal
    com canto mais triste que o da rola.
    também tem nostalgia a natureza.
    homem que passas: pára e contempla,
    ouve a dor das águas mortas.
    a Terra-Mãe sofre por nós
    e suplica amor às criaturas.

Adalberto Alves
Irão - Viagem ao País das Rosas
Ésquilo, edições e multimédia, Lisboa 2007

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Os livros que mudaram o seu mundo

António Guerreiro, meu estimado amigo, foi o convidado da Biblioteca Municipal de Silves no âmbito do ciclo Livros que mudaram o meu mundo.

António Guerreiro e os Livros que mudaram o seu mundo, na Biblioteca MuncipalFoi um serão muito agradável o que nos foi proporcionado, com o António a dissertar sobre as ideias que os livros lhe sugeriram e a suscitar variadas intervenções da parte de quem assistia. Fê-lo de uma forma viva e envolvente, servindo-se da utilização de meios distintos da simples comunicação verbal, como a audição de música e o visionamento de vídeos, bem como a leitura de excertos previamente sugeridos, que deveriam ser entregues a quem os responsáveis da Biblioteca entendessem.
Quando soube pelo Paulo Pires, técnico e incansável animador da Biblioteca (à esquerda de António na fotografia acima), dessa sugestão de leituras, prontifiquei-me a surpreendê-lo e escolhi algumas a partir de um elaborado plano que o António tinha preparado; fi-lo com a alegria e o prazer que se tem ao servir um amigo.

Obrigado pela partilha das tuas ideias e emoções.
Aqui fica o meu abraço.