
- Sabemos (e compreendemos) hoje melhor, depois deste livro, que além do património, da arquitectura, da paisagem, das hortas e dos campos de figueiras, da luz da Ria poisada nas paredes de cal - Cacela é sobretudo uma realidade urbana (e intangível) feita de poesia e milagre.
Assim o disse José Carlos Barros, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, por ocasião da apresentação do livro - Cacela e o seu poeta Ibn Darraj al-Qastalli na História e Literatura do Al-Andalus.
Houve cerimónia, sim, e a palavra coube ao anfitrião, como já citei; ao autor, Ahmed Tahiri, Professor Catedrático de História Medieval, que ao longo de dois anos trabalhou as mais variadas fontes numa investigação que conduziu a esta obra; à coordenadora editorial por parte da Fundación Al-Idrisi Hispano Marroqui para la Investigación Histórica, Arqueológica y Arquitectónica, Fátima Zahara Aitoutouhen; e Teresa Rita Lopes, enquanto poeta de raízes cacelenses.
Após a cerimónia, que teve lugar no antigo Cemitério, hoje desactivado, todos os que ali se juntaram a homenagear o poeta de Cacela saíram a percorrer o largo e as quatro ruas do aglomerado urbano que, como alguém disse em voz alta, com piada, citando os U2, "where the streets have no names".
A partir de agora as ruas de Cacela têm nomes, topónimos que se referem a poetas de Cacela ou que escreveram sobre Cacela e ali passaram a figurar nas placas do Largo Ibn Darraj al-Qastalli e das ruas de Teresa Rita Lopes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Abû al-Abdarî e Eugénio de Andrade.
Para o terceiro acto todos regressámos ao velho cemitério e aí, então, houve lugar à música, à poesia e até à dança.
Em árabe, rifenho (língua berbere da zona do Rif, no Norte de Marrocos, sobre o Mediterrâneo, donde provieram os antepassados de Ibn Darraj), castelhano e português, se declamaram alguns dos poemas que constam deste livro, com fundo musical da guitarra de Pepe Vela.
Houve depois lugar à música, da que permanece viva desde a fuga para Marrocos dos expulsos de Granada, os andalusinos, que ainda hoje cultivam os seus costumes, os seus hábitos, a sua cultura, com a riqueza patrimonial que nos foi dado escutar. Findou numa fusão instrumental desses instrumentos andalusinos com a guitarra, a voz requebrada e a dança sincopada do flamenco, a que se juntou a plateia com as palmas das suas mãos, numa percussão ritmada de quem não pode manter-se quieto e agradece a tarde que o poeta Ibn Darraj, que aqui viveu há mil anos, proporcionou.






