Quando me refiro às 9 horas de autocarro para atravessar as altas e longas cadeias de montanhas do Rif, de al-Hoceima a Tetuan, em Marrocos, recebo exclamações de desconforto e de incomodidade.
Felizmente assim foi, penso eu, pois se a nova estrada junto à costa, já construída, estivesse aberta ao público, eu nunca teria conhecido esta maravilha da Natureza, esta diversidade de paisagem em cada vale e cada encosta, este mundo que nos surpreende a cada curva da estrada e que na sua maior extensão me tinha ficado oculto na viagem de ida, devido à chuva, ao nevoeiro e, por fim, ao anoitecer.
Quero partilhar convosco o que pude guardar na minha câmara fotográfica e deixei disponível na Webshots (basta um clique).
terça-feira, abril 21, 2009
De al-Hoceima a Tetuan
terça-feira, abril 14, 2009
Estreitando laços, na outra margem do Mediterrâneo
A imagem reproduz o emblema da Cidade de Imzúren, no Rif (cadeia de montanhas sobre o Mediterrâneo), em Marrocos.
Pois é para lá que me desloco, a partir de amanhã, num "fim-de-semana" prolongado, para participar num Encontro Internacional - O RIF na História e na Civilização - em homenagem ao Dr. Ahmed Tahiri, estimado amigo, repetidamente mencionado nestes últimos posts.
Entre os conferencistas identifiquei os provenientes de Portugal, Espanha, França, Egipto e Síria, além dos marroquinos, residentes em Marrocos e no estrangeiro.
No regresso conto trazer fotos e impressões.
Até breve!
segunda-feira, abril 06, 2009
Apresentação de livro em 3 actos

- Sabemos (e compreendemos) hoje melhor, depois deste livro, que além do património, da arquitectura, da paisagem, das hortas e dos campos de figueiras, da luz da Ria poisada nas paredes de cal - Cacela é sobretudo uma realidade urbana (e intangível) feita de poesia e milagre.
Assim o disse José Carlos Barros, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, por ocasião da apresentação do livro - Cacela e o seu poeta Ibn Darraj al-Qastalli na História e Literatura do Al-Andalus.
Houve cerimónia, sim, e a palavra coube ao anfitrião, como já citei; ao autor, Ahmed Tahiri, Professor Catedrático de História Medieval, que ao longo de dois anos trabalhou as mais variadas fontes numa investigação que conduziu a esta obra; à coordenadora editorial por parte da Fundación Al-Idrisi Hispano Marroqui para la Investigación Histórica, Arqueológica y Arquitectónica, Fátima Zahara Aitoutouhen; e Teresa Rita Lopes, enquanto poeta de raízes cacelenses.
Após a cerimónia, que teve lugar no antigo Cemitério, hoje desactivado, todos os que ali se juntaram a homenagear o poeta de Cacela saíram a percorrer o largo e as quatro ruas do aglomerado urbano que, como alguém disse em voz alta, com piada, citando os U2, "where the streets have no names".
A partir de agora as ruas de Cacela têm nomes, topónimos que se referem a poetas de Cacela ou que escreveram sobre Cacela e ali passaram a figurar nas placas do Largo Ibn Darraj al-Qastalli e das ruas de Teresa Rita Lopes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Abû al-Abdarî e Eugénio de Andrade.
Para o terceiro acto todos regressámos ao velho cemitério e aí, então, houve lugar à música, à poesia e até à dança.
Em árabe, rifenho (língua berbere da zona do Rif, no Norte de Marrocos, sobre o Mediterrâneo, donde provieram os antepassados de Ibn Darraj), castelhano e português, se declamaram alguns dos poemas que constam deste livro, com fundo musical da guitarra de Pepe Vela.
Houve depois lugar à música, da que permanece viva desde a fuga para Marrocos dos expulsos de Granada, os andalusinos, que ainda hoje cultivam os seus costumes, os seus hábitos, a sua cultura, com a riqueza patrimonial que nos foi dado escutar. Findou numa fusão instrumental desses instrumentos andalusinos com a guitarra, a voz requebrada e a dança sincopada do flamenco, a que se juntou a plateia com as palmas das suas mãos, numa percussão ritmada de quem não pode manter-se quieto e agradece a tarde que o poeta Ibn Darraj, que aqui viveu há mil anos, proporcionou.
quarta-feira, abril 01, 2009
Ibn Darraj, poeta de Cacela

Ahmed Tahiri, professor catedrático de História Medieval, vai apresentar o livro - Cacela e o seu poeta Ibn Darraj al-Qastalli, na História e Literatura do al-Andalus - resultado da sua investigação sobre a vida e obra deste poeta, natural de Cacela.
A apresentação do livro terá lugar no dia 4 de Abril (Sábado), pelas 16 horas, no cemitério antigo de Cacela Velha e do programa consta ainda, a partir das 17 horas, uma inauguração da toponímia de Cacela Velha - poetas que nasceram ou escreveram sobre Cacela -, leitura de poemas de Ibn Darraj, concerto de música andalusina e flamenco.
Foi-me dado o grato privilégio de ler um poema do celebrado poeta, que eu próprio verti para a nossa língua (a partir de uma transliteração do árabe para o castelhano) e que aqui transcrevo:
Chamam-te, escuta a sua voz.
A vida sorri-te, bebe desse vinho e saboreia-o,
é promessa de uma nova Primavera que chega.
É flor que atrai
com sua fragrância de almíscar,
bela e sensual.
Do seu caule de esmeralda libertam-se
folhas de prata e pétalas de ouro
que se entrelaçam como filamentos de seda
e se erguem como um cálice para te brindar
num inesgotável inebriamento.
segunda-feira, março 30, 2009
Água e jardins

Esta edificação é uma peça importante do nosso património. De construção islâmica, trata-se de uma cisterna que apresenta uma sucessão de abóbadas, de forma a recolher e conduzir a água das chuvas pelos canais que assim se formam, e esconde um reservatório que até há pouco mais de uma década ainda servia como depósito de abastecimento da cidade.
Essa porta, visível na fotografia, conduz ao seu interior, no subsolo, e poderá vir, algum dia, a ser definitivamente aberta ao grande público.
Numa visita à alcáçova, no decurso de uma conferência sobre jardins islâmicos, tive o ensejo de voltar de novo a descer ao seu interior.
Nota-se a recente construção de um passadiço, em material transparente, a permitir a circulação, e é também visível a instalação de nova iluminação, com alguns focos de luz colocados abaixo do nível da água.
Entretanto, à superfície, vai sendo agradável passear pela recriação destes jardins que recordam as ervas cheirosas e as árvores que os árabes nos trouxeram...

... ou ficar, simplesmente, a ouvir o borbulhar da água nos canais de rega, enquanto a Primavera não se instala com as suas flores.
sexta-feira, março 27, 2009
De poeta para poeta
E que me dizeis de um outro poema como o anterior, para o fim-de-semana, em que um poeta celebra outro poeta?!
- Carlos Drummond de Andrade
Sabe lavrar
o vento
onde prosperam
o seu milho, o seu gado,
fazendeiro do ar habituado
ao arquétipo escrito
da lavoura,
meu orgulho onomástico
deixado
na outra margem do mar
quando parti
para cuidar das lavras deste lado
e silabicamente
me perdi.
Carlos de Oliveira
Sobre o lado esquerdo
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1969
quarta-feira, março 25, 2009
Um poema com verde no título
Este poema que vou transcrever, de Armando da Silva Carvalho, tem como título...
- Cesário Verde
É cavar fundo
absorver
a terra
com os poros
da alma.
Saborear
o chão
e mastigar
de leve
como se fosse
açúcar.
Ouvir
os engenheiros
urinar do alto
dizendo sons obscenos
e fazendo contas.
E ver
e ver depois
o sol dos piqueniques.
A arte
delicada
de chupar os ossos.
A sede
de lamber nos
dedos a gordura.
O espanto
de trinchar
o peito das galinhas.
E afastar
as álgidas fibras
da memória.
E contornar
delicada-
mente
a infância.
E cheirar
os lugares
macios.
E pegar nos seixos
que a solidão
cristalizou.
E apalpar
as carnes
carcomidas do tempo.
Armando da Silva Carvalho
Os Ovos D'Oiro
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1969
