É nesta vertente que há milénios o Guadiana escavou para atingir o mar, que ainda persistem estes matizes de verde do coberto vegetal, este azulado da água onde se debruça o céu, e este branco de cal, no longo e hospitaleiro muro que reflecte as tonalidades do ocaso e acolhe os viajantes que demandam este último porto do Mediterrâneo.
sábado, maio 23, 2009
Mértola, o último porto do Mediterrâneo
quarta-feira, maio 20, 2009
5º Festival Islâmico de Mértola

É já quinta-feira, dia 21, que irá arrancar o Festival Islâmico de Mértola, como vem acontecendo de dois em dois anos a esta parte.
Deixo um link para o Programa do Festival (clique).
Por lá estarei.
sexta-feira, maio 15, 2009
REBIS
Tão ao jeito de Natália Correia, neste fim-de-semana de meados de Maio.
- REBIS
Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio do homem
como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!
Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o ouro
na salmoura da mulher mar
como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!
Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!
Natália Correia
As Maçãs de Orestes
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1970
terça-feira, maio 12, 2009
In memoriam...
Não dei por que Egito Gonçalves tivesse falecido e havia longo tempo que nada lia dele.
Confrontei-me hoje com essa ausência ao pegar num velho livro com um seu autógrafo. Fixei-me neste grito contra a insensibilidade, a mediocridade e a massificação. Foi assim que senti o poema que ele escreveu num outro tempo que não este, mas onde, ainda hoje, o seu grito se reflecte no meu.
Querem que dobre a esquina
e me insinue
no deserto das praias.
Querem que feche os olhos
e me dilua
num rio de magma.
Querem que corte a orelha
por onde ouvia
a voz da terra.
Querem que descarne
a ternura dos dedos
até ao esqueleto.
Querem que mergulhe
em álcool este feto
aparente nado-morto.
Mas respiro, respiro
e construo um pulmão
a que possa dar asas.
Egito Gonçalves
O Fósforo na Palha
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1970
sexta-feira, maio 08, 2009
E tudo era possível
Mera coincidência a desta nova referência à Biblioteca Municipal de Silves.
Acontece que estava a ler Ruy Belo e reconheci certos versos que figuram numa das salas, que mereceu o seu nome como homenagem.
- E tudo era possível
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo
Homem de palavra(s)
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1970
quarta-feira, maio 06, 2009
O Arrabalde Oriental
Quando se iniciaram os trabalhos de construção do novo edifício da Biblioteca Municipal de Silves foram postas a descoberto algumas ruínas que vieram a justificar, pela sua importância, a alteração do projecto de arquitectura de forma a poder vir a enquadrar, na cave do edifício, um dos mais importantes achados arqueológicos do período muçulmano da nossa cidade - A Muralha do Arrabalde Oriental.
Esta conversa vem a propósito da recente publicação de uma brochura, que serve de roteiro da exposição, mas que efectua uma síntese muito necessária para a divulgação junto do grande público dos mais recentes avanços no conhecimento do que foi a Silves islâmica.
Pode agora chegar junto de quem visita a biblioteca e o núcleo museológico uma informação histórica completamente desconhecida há cerca de 30 anos atrás, quando em Silves se iniciaram as primeiras escavações que visaram o período islâmico da nossa cidade, até aqui do conhecimento de alguns iniciados e curiosos, mas agora disponível aos cidadãos em geral.
Esta síntese deve-se à arqueóloga Maria José Gonçalves e à equipa que coordena, na Câmara Municipal de Silves.
segunda-feira, maio 04, 2009
Lídia Jorge entre nós
Lídia Jorge foi a convidada da Biblioteca Municipal de Silves para falar dos livros da sua vida - uma rubrica que integra a animação regular da biblioteca.
Paulo Pires, o animador, abriu a sessão com o seu acordeão e leu alguns textos com a assinatura da autora. A sala estava com os seus lugares bem preenchidos, tendo em conta acontecimentos desta natureza, que não suscitam grande afluência num país onde pouco se lê.
Quem sabe se estas redes de bibliotecas públicas e escolares não abrirão novas perspectivas nos hábitos de leitura dos portugueses?! A insistência na oferta há-de produzir resultados, confio eu.
Lídia Jorge, com a serenidade que a caracteriza, num rit(m)o muito vivo e muito seu, revelador da intensidade com que vive as suas ideias, os seus projectos e a sua visão do mundo e dos Homens, falou-nos, com alguma preocupação didáctica, do seu percurso pela literatura.
Usou "Por quem os sinos dobram", de Hemingway, para nos dizer do seu sentimento perante a leitura e referenciar o iniciar da sua escrita, tentando descobrir as formas, os processos, os jogos emotivos que conduzem a uma história.
Falou depois dos romances onde a história deixa de ser o motivo principal, para se debruçar antes sobre o pulsar das emoções, das circunstâncias, das motivações psicológicas que conduzem e precipitam os acontecimentos da narrativa.
Lídia Jorge foi um livro aberto durante o diálogo que se entabulou, satisfezendo diversas curiosidades dos seus leitores.
Creio não fugir à verdade ao declarar que todos lhe ficámos muito gratos.
