terça-feira, junho 16, 2009

David Mourão Ferreira, uma vez mais


Corte, a partir de uma foto da capa do livro

 

 

Passam 13 anos sobre o último poema de David Mourão Ferreira.
Neste, que vos recordo hoje, surgem palavras como morte e sepultura, mas é da vida e do seu amor pela vida, do âmago da própria vida, que nos fala.

 

 


  • CASA

    Tentei fugir da mancha mais escura
    que existe no teu corpo, e desisti.
    Era pior que a morte o que antevi:
    era a dor de ficar sem sepultura.

    Bebi entre os teus flancos a loucura
    de não poder viver longe de ti:
    és a sombra da casa onde nasci,
    és a noite que à noite me procura.

    Só por dentro de ti há corredores
    e em quartos interiores o cheiro a fruta
    que veste de frescura a escuridão...

    Só por dentro de ti rebentam flores.
    Só por dentro de ti a noite escuta
    o que sem voz me sai do coração.

David Mourão Ferreira
Lira de Bolso
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1969

quinta-feira, junho 11, 2009

O Prazer e o Tédio (II)


É um trecho de O Prazer e o Tédio, de José Carlos Barros, apresentado no passado sábado na Casa de Cacela, em Vila Nova de Cacela - Algarve - numa edição da Oficina do Livro, que vos trago aqui, visando despertar a vossa atenção.

Marcador - O Prazer e o Tédio

 

(...) «O tédio, Aline, é inversamente proporcional ao desassossego de estar vivos; o tédio é a demonstração de que a labareda do prazer se alimenta do seu próprio combustível. Há quanto tempo, Aline, uma nuvem não é para ti senão uma nuvem, há quanto tempo não te percorre verdadeiramente a inquietação de um corpo que se deseja? Há quanto tempo não choras a olhar a chuva contra os vidros das janelas num fim de tarde de Novembro? Há quanto tempo não agitas as mãos na água das levadas a ver a leve ondulação da corrente? Há quanto tempo não adormeces com o desassossego de saber que o mundo permanece vivo por dentro dos sonhos?» (...)

terça-feira, junho 09, 2009

O Prazer e o Tédio


Citando José Carlos Barros, com um excerto de um belo texto que um dia escreveu a propósito deste blogue - «É verdade que somos vizinhos. Que é mais fácil tropeçarmos assim nesse fio quase invisível de cumplicidades...» - posso assegurar que fiz todo o esforço para me distanciar dessas circunstâncias da vizinhança e da amizade e, mesmo assim, fui tomado pela fúria que o prazer instiga, deliciado numa escrita a que me abandonei, na descrição tão topológica dos lugares e tão profundamente psicológica na análise das motivações dos personagens.

O Prazer e o Tédio...

Capa do romance O PRAZER E O TÉDIO
...agora publicado pela Oficina do Livro, é um romance como há muito não lia, como se as paisagens, os lugares, as pessoas tivessem vida e nós, como um deus sobranceiro, ficássemos a observar a dúvida e a certeza, a alegria e a tristeza, a decisão e a cobardia, a bondade e a malvadez, o ódio e o bem-querer, o amor e o sexo, a pele e o corpo, o prazer e o tédio.

Muito vivamente aconselho a leitura aos que sabem ou desejam saber o que é mesmo um romance, que não essa coisa aligeirada a que dão o mesmo nome, com a mesma desfaçatez com que os empilham nos escaparates de algumas livrarias e nos supermercados.


P.S.
Este romance começou por ser um folhetim, publicado entre Fevereiro de 2008 e Janeiro de 2009, no blogue - Casa de Cacela - e onde JCB já iniciou dois outros folhetins.

segunda-feira, junho 08, 2009

Obras terminadas


Aljibe da Alcáçova de SilvesFoto de António Baeta

As obras, entretanto terminadas, visaram tão só adaptar este velho blogue a novas tecnologias e facilidades de utilização, respeitando a aparência de sempre.
Suprimi também alguma informação que perdera actualidade e outra que, por demasiada e acessória, distraía e confundia o utilizador.
Será mais fácil, agora, manejar este blogue, que exigia muita programação para o manter a meu gosto.

Até breve.

Em obras...


Este blog sofre, de momento, algumas alterações de actualização.

Tentarei ser tão breve quanto possível.

quarta-feira, junho 03, 2009

segunda-feira, junho 01, 2009

O Arraial Ferreira Neto, em Tavira


Este fim-de-semana aderi, uma vez mais, às propostas de passeio da Câmara Municipal de Tavira sob o título genérico de Patrimónios do Mar.
Visitámos o Arraial Ferreira Neto.

Fotografia aérea com origem em skyscrapercity, assinada por Prof Godin

Trata-se de uma construção urbana, uma autêntica aldeia, com dois largos e cinco ruas, classificada como Imóvel de Interesse Público desde 2002, e onde, segundo a nota histórico-artística do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), "... habitariam confortavelmente 400 a 500 pessoas, pois oferecia as comodidades e higiene com as instalações adequadas ao exercício da actividade industrial, assim como o conforto necessário ao descanso dos pescadores e das suas famílias. ...".

O Arraial, como se pode entender pela fotografia acima, separava a zona industrial da zona habitacional e foi construído, em 1946, segundo projecto do Eng. Sena Lino, em pleno Estado Novo, propositadamente para servir de apoio às actividades ligadas à pesca do atum.

Fotografia do autor do blog sobre fotografia existente no museu do Arraial

A edificação, último vestígio desta actividade, que perdeu viabilidade económica a partir da década de sessenta do século passado, é um testemunho de elevada importância histórica e... ( de novo citando a nota do IPPAR) "...um exemplo típico dos racionalistas conceitos formais da época, com o seu aprumo volumétrico e a sua métrica "moderna", o uso de "materiais portugueses" (pedra bujardada, telha de canudo, ladrilhos de barro, painéis de azulejo e portas de madeira pintada com aldraba ou postigo de reixa), e as técnicas mais actuais da altura - fundações directas em alvenaria ordinária, escadas em betão, paredes de tijolo cheio rebocado e estruturas da cobertura em asnas de madeira. (...)".

Chegou o momento de vos contar que a zona habitacional, uma autêntica aldeia com... (citando a mesma nota do IPPAR) "edifício escolar, balneário, forno, capela, posto médico, sanitários públicos e clube, além de uma rede completa de esgotos e cinco cisternas com a capacidade de 150.000 litros de água cada uma. (...)" se mantém preservada como nestas fotos:


                       
A escola                                                 a capela


   
A casa do administrador       uma rua da aldeia       a casa do operário


Esta preservação é exemplar pela forma como, respeitando a estrutura dos edifícios da aldeia dos pescadores de atum, o arraial sobreviveu graças a uma nova actividade económica.

Hoje, o Arraial Ferreira Neto...


...é parte integrante do Hotel Vila Galé Albacora.

 


 


 


 


Nota:
As fotos sem indicação de autoria foram batidas pelo autor do blog durante a visita.