segunda-feira, julho 06, 2009

Cadernos de Areia


Quase como num diário de viagem pela Tunísia que tanto ama, Luís Maçarico publicou...


Lembrei-me deste meu amigo e dos seus poemas em dia de intenso calor, aqui, nesta cidade do barrocal algarvio.


  • De tão cru, o sol apaga lembranças
    E germina esquecimentos.
    O meu destino, são os incontornáveis
    Grãos que semeiam o Nada.
    Este horizonte infinito de ilusões
    O céu de areia de certas tardes.

    Estou longe, dizem-me alguns
    Sinais. Mas é tão perto, a minha
    Casa: Poema futuro, luminosa
    Oliveira, manhã desejada!

                                  Tozeur, 11.11.1996

Luís Maçarico
Cadernos de Areia
Edição de Autor, 2ª edição, 2009

quinta-feira, julho 02, 2009

Cinco anos de ausência


Sophia, por Carlos Botelho

 


 


 


 


 


 
Imagem de Sophia, a crayon, por Carlos Botelho,
conforme Wikipédia

Quero iniciar este mês com Sophia. Quero recordá-la como a conheci; como quando, muito provavelmente, da primeira vez que a li.

  • UM DIA

    Um dia, mortos, gastos, voltaremos
    A viver livres como os animais
    E mesmo tão cansados floriremos
    Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

    O vento levará os mil cansaços
    Dos gestos agitados irreais
    E há-de voltar aos nossos membros lassos
    A leve rapidez dos animais.

    Só então poderemos caminhar
    Através do mistério que se embala
    No verde dos pinhais na voz do mar
    E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner
Grades
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1970

sábado, junho 27, 2009

Criatividade na Educação (II)


Aqui deixo, para os que se interessaram, a segunda parte da palestra de Ken Robinson.



Votos de bom fim-de-semana!

quinta-feira, junho 25, 2009

Criatividade na Educação


Um amigo relacionado com a investigação em educação enviou-me, há uns dias atrás, um vídeo que vos quero dar a conhecer. Faço-o com a mesma intenção com que esse amigo o fez e a TED (Technology, Entertainment, Design) divulga estes colóquios - expandir ideias.
Espero que seja do vosso inteiro agrado e desculpem o uso da versão em português do Brasil, já que não encontrei uma tradução em português de Portugal.



Há uma segunda parte deste vídeo, que é fácil encontrar na página do youtube, mas conto apresentá-la também aqui, amanhã ou no dia seguinte.

segunda-feira, junho 22, 2009

Silves. Construindo a História da Cidade


A série de colóquios com o título genérico em epígrafe, da responsabilidade do Gabinete de Arqueologia, Conservação e Restauro da Câmara Municipal de Silves, vem contribuindo para um conhecimento cada vez mais aprofundado sobre o passado desta cidade.
Os relatos de várias e significativas intervenções arqueológicas que aqui têm ocorrido, tanto como resultado dos projectos ligados ao POLIS, como das que tiveram lugar em locais onde se construíram novos edifícios, abrem perspectivas de interpretação cada vez mais apoiadas.

Foto com telemóvel, © António Baeta Oliveira
Nesta sessão do passado fim-de-semana, as abordagens centraram-se sobre intervenções na Rua das Parreiras, na Cândidos Reis e na Afonso III.
Não vou passar para aqui o colóquio, mas dizer-vos de uma nova perspectiva que eu ainda não tinha observado: a de que a cidade actual além de se sobrepor à cidade islâmica, não está orientada como a anterior; tal é constatável nas 3 ruas a que atrás fiz referência. A construção na cidade islâmica acompanhava as curvas de nível.

Foto com telemóvel, © António Baeta Oliveira
Outra nova perspectiva é a que nos trazem os resultados da rua Cândido dos Reis, nos números 32/34, onde, além de indicar uma orientação que também respeita as curvas de nível, revela construções de proprietários abastados, tanto no que se refere às dimensões e aos materiais e estruturas de construção, bem como ao espólio encontrado.
A fotografia acima foi feita sobre um slide de um plano de interpretação dessas mesmas construções que avançariam para o outro lado da actual rua, qua as corta transversalmente.

quinta-feira, junho 18, 2009

Vem do calor do estio...


Algures nas Caldas de Monchique, © António Baeta OliveiraFoto de António Baeta

Vem deste calor de estio, certamente, a vontade de me fixar nestes muros de quinta já sem reboco, nestes portais por onde espreita a luminosidade que o Sol deixou na cal, nas extensões de sombra destas árvores marcadas pelo tempo, na declinação da luz ao cair da tarde, no remanso quieto do lugar, na nostalgia bucólica que sempre se desprende destes sítios termais, como aqui, nas Caldas de Monchique.

quarta-feira, junho 17, 2009

O Caderno do Algoz



O Caderno do Algoz, editado pela Caminho, levou-me a Faro, já que não pude estar presente na sua apresentação em Silves, na Biblioteca Municipal.

O Sandro William Junqueira é meu amigo através destas coisas das palavras e de as dizer, mas sempre o senti mais próximo da poesia que da prosa, o que não admira, pois este "caderno" é mesmo a sua primeira obra de ficção.

É uma escrita poética ou bem impregnada de poesia aquela que se me revelou na sua leitura. Não da poesia da candura ou do amor, mas antes reflectindo as atrocidades da realidade de uma vida urbana de solidão, de degradação, de bestialidade, numa narrativa amargurada, pungente, de árdua leitura pela intensidade cortante que o jogo das palavras releva.

Passo um pequeno trecho:


  • (...) A morta está agora de costas voltadas. Com as nádegas sólidas junto das mãos do coveiro. Nesta posição, ele pode ver os dois cortes transversais, enormes, um de cada lado, através dos pulmões: a causa da sua morte. Delicadamente percorre cada milímetro do comprimento daquelas feridas com a ternura possível de cinco dedos encardidos. Depois, abraça-a, e preenche o espaço que as suas mãos disponibilizam para agarrar.
    Senta-se no rebordo da cama e prepara-se para agir. Há algo naquele cenário que o incomoda, coisa mínima: um detalhe a precisar de reparação. Leva a mão esquerda a um dos bolsos das calças e retira um pequeno objecto metálico. Aproxima a boca daquele rosto de anjo desmilitarizado, sussurrando-lhe ao ouvido:
    Posso? Estás tão fria!
    Agarra uma das mãos da morta e descansa-a na palma da sua mão direita. Cuidadosamente, abre o pequeno corta-unhas - que sempre o acompanha - e estende-lhe os dedos azuis como um profissional.
    Diz-lhe:
    Sabes... Crescem depressa. Crescem mais depressa agora. (...)

Sandro William Junqueira
O Caderno do Algoz
Editorial Caminho, Lisboa 2009


Nota:
Se clicar no título deste post acederá à Editorial Caminho e pode, se assim o entender, adquirir o livro.