sexta-feira, novembro 06, 2009


6 de Novembro de 1919 / 6 de Novembro de 2009

Sophia

(A foto, obtive-a numa pesquisa de imagens sem que pudesse determinar o autor.
Permiti-me este tratamento a sépia)

  • ONDAS

    Onde -ondas - mais belos cavalos
    Do que estes ondas que vós sois?
    Onde mais bela curva do pescoço
    Onde mais bela crina sacudida
    Ou impetuoso arfar no mar imenso
    Onde tão ébrio amor em vasta praia?


Sophia de Mello Breyner Andresen
Musa
Caminho, Lisboa 2004

quarta-feira, novembro 04, 2009

Paredes com janelas por dentro delas


Casa em Alcantarilha, Outubro de 2008
Há uma luz que o pigmento desta parede retém e que em particular me atrai e tranquiliza.
Há coisas inertes que nos chamam como se houvesse vida dentro delas.
Quase vislumbro ainda, nos traços que o desgaste do tempo desenhou, duas cabeças unidas num afago, num carinho, num beijo ou somente num segredo confiado e que não mais poderemos escutar.

Também as vês?

segunda-feira, novembro 02, 2009

O meu logótipo é melhor do que o teu


Se eu fosse o autor do logótipo das Autárquicas de 2009 acharia que o logótipo da candidatura das Federações de Futebol de Portugal e de Espanha, se bem que menos dinâmico do que o meu, estaria a plagiar o meu trabalho.

         
                                                     
E era capaz de apostar que o da candidatura foi bastante mais caro, apesar do meu se aproximar mais da forma de uma bola de futebol. :))

quinta-feira, outubro 29, 2009

Chão



Ondjaki nasceu em Luanda e traz com ele o gosto de brincar com as palavras, misturando-as com outras que ele próprio cria, quase numa brincadeira de menino que fala de coisas bem adultas.

  • Chão

    apetece-me des-ser-me;
    reatribuir-me a átomo.
    cuspir castanhos grãos
    mas gargantadentro;
    isto seja: engolir-me para mim
    poucochinho a cada vez.
    um por mais um: areios.
    assim esculpir-me a barro
    e re-ser chão, muito chão.
    apetece-me chãonhe-ser-me.

Ondjaki
Há prendisajens com o xão
Editorial Caminho, Lisboa 2009

segunda-feira, outubro 26, 2009

O gosto solitário do orvalho


Ponte Medieval, Silves, Outono 2008
Bati esta fotografia faz hoje precisamente um ano. Era domingo nesse dia. Um domingo idêntico ao de ontem: cidade deserta, silêncio, tarde outonal.

Inadvertidamente (mas quem sabe dos caminhos da memória?), cheguei a casa e o meu olhar como que procurou entre os livros, na estante, este que vos revelo, com poemas (haiku) de Matsuo Bashô, em versões de Jorge de Sousa Braga.

Não foram só os poemas e a nostalgia da tarde o que me tocou, foi esta cidade sem vida, morna, crepuscular, onde nenhuma actividade cultural tem lugar para preencher um domingo de lazer. E assim nos quedamos, lassos, a espreguiçar pequenos confortos, sem outra actividade mental que a de sermos assim... mamíferos.


  • Ah este caminho
    que já ninguém percorre
    a não ser o crepúsculo

Matsuo Bashô
O gosto solitário do orvalho
Antologia de Jorge de Sousa Braga
Assírio & Alvim, Lisboa 1986

quinta-feira, outubro 22, 2009

Ferlinghetti


Cadernos de Poesia
Sai Allen Ginsberg com seu Uivo pelo fundo desta página e dá lugar a Lawrence Ferlinghetti, seu companheiro de letras e de sonhos na memorável City Lights de San Francisco.

  • O Castelo de Kafka ergue-se sobre o Mundo

                        O Castelo de Kafka ergue-se sobre o mundo
                como uma última bastilha
                                                do Ministério da Existência
    Os seus acessos cegos nos confundem
                                                      Caminhos íngremes
                partem dele e mergulham em nenhures
                                                    Estradas perdem-se no ar
    como labirintos fios de central
                                                    telefónica
    através da qual todas as chamadas
                        se perdem no infinito
                Lá em cima
                            faz um tempo celestial
    As almas dançam despidas
                                    em grupo
                        e como intrusos
                                na periferia de uma feira
                            espiamos o inatingível
                                        mistério imaginado
                        Contudo na parte de trás do castelo
                                como na entrada dos artistas de uma tenda de circo
    há uma fenda funda e larga nas muralhas
                        pela qual até os elefantes
                                podem entrar e dançar

Lawrence Ferlinghetti
A Coney Island of the Mind
Como eu costumava dizer
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1972

terça-feira, outubro 20, 2009

TEATRO profissional na província


Graças ao CAPa (Centro de Artes Performativas do Algarve), estrutura de apoio à criação, formação e divulgação das Artes do Espectáculo, tenho conseguido aceder, sem ter que me deslocar à capital macrocéfala deste meu país, a espectáculos de características experimentais e de diversificadas formas de expressão artística.

A 9 de Outubro, na própria sede, em Faro, o Teatro da Garagem (devo ter assistido a todos os espectáculos que trouxe ao Algarve desde que o CAPa existe) veio comemorar aqui mesmo o seu 20º aniversário. Duas peças, separadas por um jantar comemorativo.

À sobriedade da cena, de paredes nuas, sobrepõe-se o som, com música original, e a criatividade da sonoplastia e do desenho de luzes e da operação de variados artefactos de palco, no apoio à evolução dos actores, servidos por um texto soberbo que nos ajuda a reflectir sobre a realidade portuguesa e o atavismo de certos actos e comportamentos, onde me reconheço, numa dimensão poética com que Carlos J. Pessoa, director artístico e encenador, sempre me surpreende e me envolve.

Lamento não ter uma foto ilustrativa, pois não a quis retirar sem autorização de cópia, mas é possível ver várias fotos do espectáculo clicando aqui.

Uma semana depois, a 16 de Outubro, em Loulé, no Convento de Santo António dos Capuchos, também pelas mãos do CAPa, assisti a um outro espectáculo:

Casa de Bernarda Alba, pelo Teatro da Terra, de Ponte de Sôr
No enquadramento da arquitectura do convento, nomeadamente dos seus claustros, no 3º acto, o Teatro da Terra (podeis aceder ao seu blogue clicando na foto, precisamente copiada a partir desse lugar), companhia residente em Ponte de Sôr, não nos trouxe uma reflexão sobre os atávicos comportamentos a que me referi acima, mas fez-nos reflectir sobre outros bem semelhantes, como os que Lorca dramatizou em A Casa de Bernarda Alba.

Enquadra-se bem na volumetria e arquitectura do Convento a representação das vidas destas mulheres andaluzas, numa sociedade fechada pelos costumes e tradição religiosa, numa relação odiosa entre irmãs e sua mãe, num mundo bafiento onde a vida é um inferno e o homem, ausente, distante, desconhecido, um diabo de atracção irresistível.

Para quem, como eu, que vivo em Silves, uma cidade de dimensão aproximada a Ponte de Sôr, ver assim uma companhia profissional residente e imaginar, pela actividade que se pode constatar através da leitura do blogue, a enorme potencialidade que isso poderia acarretar na vida cultural dos residentes, é um sonho que dificilmente verei cumprir-se e que parece estar cada vez mais longe.